sexta-feira, 26 de março de 2021

IMAGINE QUE SAIU DO SUFOCO

https://autossustentavel.com/2019/05/qual-e-a-sua-utopia.html

    Inspirado no mote da canção Nordeste Independente, de Bráulio Tavares e Ivanildo Vila Nova:        

    Imagine o Brasil ser dividido
    e o Nordeste ficar independente.

    Pois bem,
 
    Imagine o Brasil tão diferente,
    amando mais que matando,
    vacinando toda a gente.

    Claro que isso é uma utopia. Uma utopia feroz que nos persegue desde que uma eleição foi ganha por quem "não deveria ganhar" e onde não houve um desastre.

    Imagine um país diferente. Onde se olha a pessoa e não seu "DNA social", que a olha como um ser e não como um condenado congênito. Utopia. Pense! Pensei nessa enorme besteira.

    Imagine uma gente diferente, livre no pensamento, olhando o mundo como ele de fato é: olhando as pessoas como elas são, não na utopia que "eu me assemelho a Deus. Que sou um bendito congênito". Utopia.

    Agora idealize um país amoroso, alegre, gentil. Mas esse país não existe. O real é outro. 

    Imagine o Brasil tão diferente
    educando para
     amar a sua gente

    Imagine que ele cultiva o altruísmo, Altruísmo. O ísmo positivo se aprende e se exercita superando o ísmo negativo, incutido por uma cultura do "eu" em detrimento do "nós". Real.

    Mesmo assim, imagine. Não idealize, deseje, aja, seja realista, a mudança será lenta e longa. Precisamos de vários líderes realisticamente altruístas. Vários, é possível. No poder: raro. Milhares com poder atuando: Utopia.

    Mesmo assim:    

    Eu IMAGINO o Brasil bem diferente
    Salvando mais que matando
    Amando a sua gente.

    Pois bem, "Das Utopias":                                                                      

    Se as coisas são inatingíveis... ora!
    Não é motivo para não querê-las...
    Que tristes os caminhos, se não fora
    A presença distante das estrelas!

     Mario Quintana , Espelho Mágico. Porto Alegre: Editora Globo.1951.

    Semana Iluminada
    Marconi Urquiza
    
    

    Estas foram as últimas crônicas para você. Leu?

   Nesta você escolhe o título. A mensagem de coragem e de espírito de luta é a mesma:

    SE A VIDA NÃO FICA MAIS FÁCIL ,      TRATE DE FICAR MAIS FORTE

    

    Mais a crônica mais lida em março 2021, se não sentiu a sua mensagem.

    PARECE QUE FALTA UM PEDAÇO DE MIM    


    

sexta-feira, 19 de março de 2021

SE A VIDA NÃO FICA MAIS FÁCIL ...


Um conto dentro da crônica

 Um rasgo de esperança, um tantinho de fé 
e a teimosia para seguir na caminhada

         Era de madrugada quando Casarin printou uma postagem do Facebook. Cinco minutos depois aquele homem de meia-idade repassou para um amigo, o outro leu e apagou. Um terceiro amigo viu a postagem e jogou na lixeira do celular: "Casarin, esse Casarin devia era dormir!"

        Só que a insônia de Casarin tinha o mesmo DNA da de Getúlio: a tensão pela espera da vacina. Seis horas da manhã, com uma xícara de café na mão, Getúlio via a rua pela janela da sala. A rua embaçada pelos vapores do café fumegante, também refletia a mente em turbilhão daquele homem.

        Aquele que apagou primeiro a postagem de Casarin, mais seguro de si voltou a dormir. Acordou sem cansaço. Seria um super-homem no meio daquela toda agonia real e ampliada pela divulgação maciça do caos provocado pela pandemia?

        O dia avançou para os três, na dia seguinte começaria o final de semana. Sexta-feira à noite era o dia em que os três amigos se encontravam, não se encontram mais. Passou de um ano sem que os olhos inquietos de Casarin não se encontravam com os olhos zombeteiros do segundo amigo e os olhos inquisitivos de Getúlio.

        No sábado pela manhã Getúlio ligou, havia meses que mal passava uma mensagem genuína dele pelo Whatsapp, só era repasse, às vezes em tom agressivo. Geralmente quando era criticado, respondia acidamente. 

        Mas ligou:

       - Casarin, você ainda tem aquela postagem. Aquela do homem falando que deveria ser uma fortaleza?
       - Getúlio... - Casarin, sem querer perguntar, se pôs a pensar - Pode explicar melhor?
       - Mas, homem! Você passou antes de ontem e já tá esquecido!
         - Pior que estou. Ando com um esfregão na cabeça para não endoidar.
       - Tá, então deixa - nisso Casarin corria as telas do celular, havia transferido a ligação para o viva-voz.
        - Pera aí. Tu visse aquela merda do jogo de ontem? - disse Casarin.
      - Nem vi, o time tá tão ruim que eu desisti de ver os jogos.
        - Viu algum filme bom? - Continuou Casarin, cultivando a paciência do seu amigo.
      - Vi uma série. Signal, é boa e é meio viajada. Japonesa, Looke...
        - Getúlio, achei.
      - Fala aí para mim.
      - Se a vida não fica mais fácil... 
      - Sei o que você achar importante ela, senão não teria printado e me enviado. Mas pensasse nela direito?
      - Tenho pensado muito. Ela é um filão de força que tenho me apegado para ir nadando nessa tragédia em que estamos vivendo. Não é por ficar em casa, de não poder conversar, mas é pelo medo. Sabe, o medo. A porra do medo que adoece. 
      - Lê de novo... - Casarin leu. Getúlio se calou. Os dois pareciam ter um zumbido rolando nas suas cabeças.
        
       Nenhum falava nada e nem queriam desligar. O silêncio era tudo que tinham e desejavam do outro. Casarin pensou em soltar uma piada, Getúlio em dizer uma pilhéria. Alguém ouvia o fluxo de vento do ventilador amenizando o calor.

         - Pode ler de novo - pediu Getúlio.
        
       Casarin leu e disse:
       - Getúlio, a pessoa que aparece no print é um lutador pela vida. Só tem duas coisas normais nele: a cabeça e um dedo, com o qual comanda a cadeira de rodas. Já passou dos quarenta e continua firme. Isso deu o maior significado.
         - Sabe, é que me lembrei de uma psicóloga. Um dia eu reclamava da vida e falava da morte, ela me interrompeu e disse forte: "Mas até lá você tem que viver". Entendesse? Entendesse? - disse Getúlio.
      - Entendi - "mais ou menos", pensou Casarin. 
       - Pois é, amigo. A gente até lá, tem que viver o melhor possível e o que a gente pensa faz da vida pior ou melhor. É isso que anda me embatucando, entendeu?
      - Entendi - agora a voz de Casarin saiu enfática - Entendi, amigo. 
         - Repete a frase...
      - "Se a vida não fica mais fácil, trate de ficar mais forte!" Quer ouvir um poema?
        - Quero.

      -   "Trate de ficar mais forte"
            Quando a cruz lhe pesar
            Dificuldade da vida?
            Deus lhe ajuda a superar.
            Faça da cadeira "pernas"
            Mas não deixe de andar.
                    (Ademar Rafael Ferreira)
        


    Semana Iluminada.
    Marconi Urquiza


Autor da frase que inspirou esta crônica




"TRATE DE FICAR MAIS FORTE"


ILUSTRAÇÃO DE LINOCO


Um rasgo de esperança, um tantinho de fé 
e a teimosia para seguir na caminhada

         Era de madrugada quando Casarin printou uma postagem do Facebook. Cinco minutos depois aquele homem de meia-idade repassou para um amigo, o outro leu e apagou. Um terceiro amigo viu a postagem e jogou na lixeira do celular: "Casarin, esse Casarin devia era dormir!"

        Só que a insônia de Casarin tinha o mesmo DNA da de Getúlio: a tensão pela espera da vacina. Seis horas da manhã, com uma xícara de café na mão, Getúlio via a rua pela janela da sala. A rua embaçada pelos vapores do café fumegante, também refletia a mente em turbilhão daquele homem.

        Aquele que apagou primeiro a postagem de Casarin, mais seguro de si voltou a dormir. Acordou sem cansaço. Seria um super-homem no meio daquela toda agonia real e ampliada pela divulgação maciça do caos provocado pela pandemia?

        O dia avançou para os três, na dia seguinte começaria o final de semana. Sexta-feira à noite era o dia em que os três amigos se encontravam, não se encontram mais. Passou de um ano sem que os olhos inquietos de Casarin não se encontravam com os olhos zombeteiros do segundo amigo e os olhos inquisitivos de Getúlio.

        No sábado pela manhã Getúlio ligou, havia meses que mal passava uma mensagem genuína dele pelo Whatsapp, só era repasse, às vezes em tom agressivo. Geralmente quando era criticado, respondia acidamente. 

        Mas ligou:

       - Casarin, você ainda tem aquela postagem. Aquela do homem falando que deveria ser uma fortaleza?
       - Getúlio... - Casarin, sem querer perguntar, se pôs a pensar - Pode explicar melhor?
       - Mas, homem! Você passou antes de ontem e já tá esquecido!
         - Pior que estou. Ando com um esfregão na cabeça para não endoidar.
       - Tá, então deixa - nisso Casarin corria as telas do celular, havia transferido a ligação para o viva-voz.
        - Pera aí. Tu visse aquela merda do jogo de ontem? - disse Casarin.
      - Nem vi, o time tá tão ruim que eu desisti de ver os jogos.
        - Viu algum filme bom? - Continuou Casarin, cultivando a paciência do seu amigo.
      - Vi uma série. Signal, é boa e é meio viajada. Japonesa, Looke...
        - Getúlio, achei.
      - Fala aí para mim.
      - ... Trate de ficar forte.
      - Sei o que você achar importante ela, senão não teria printado e me enviado. Mas pensasse nela direito?
      - Tenho pensado muito. Ela é um filão de força que tenho me apegado para ir nadando nessa tragédia em que estamos vivendo. Não é por ficar em casa, de não poder conversar, mas é pelo medo. Sabe, o medo. A porra do medo que adoece. 
      - Lê de novo... - Casarin leu. Getúlio se calou. Os dois pareciam ter um zumbido rolando nas suas cabeças.
        
       Nenhum falava nada e nem queriam desligar. O silêncio era tudo que tinham e desejavam do outro. Casarin pensou em soltar uma piada, Getúlio em dizer uma pilhéria. Alguém ouvia o fluxo de vento do ventilador amenizando o calor.

         - Pode ler de novo - pediu Getúlio.
        
       Casarin leu e disse:
       - Getúlio, a pessoa que aparece no print é um lutador pela vida. Só tem duas coisas normais nele: a cabeça e um dedo, com o qual comanda a cadeira de rodas. Já passou dos quarenta e continua firme. Isso deu o maior significado.
         - Sabe, é que me lembrei de uma psicóloga. Um dia eu reclamava da vida e falava da morte, ela me interrompeu e disse forte: "Mas até lá você tem que viver". Entendesse? Entendesse? - disse Getúlio.
      - Entendi - "mais ou menos", pensou Casarin. 
       - Pois é, amigo. A gente até lá tem que viver o melhor possível e o que a gente pensa faz da vida pior ou melhor. É isso que anda me embatucando, entendeu?
      - Entendi - agora a voz de Casarin saiu enfática - Entendi, amigo. 
         - Repete a frase...
      - "Se a vida não fica mais fácil, trate de ficar mais forte!" Quer ouvir um poema?
        - Quero.

      -   "Trate de ficar mais forte"
            Quando a cruz lhe pesar
            Dificuldade da vida?
            Deus lhe ajuda a superar.
            Faça da cadeira "pernas"
            Mas não deixe de andar.
                    (Ademar Rafael Ferreira)
                


    Semana Iluminada.
    Marconi Urquiza


sexta-feira, 12 de março de 2021

"PARECE QUE FALTA UM PEDAÇO DE MIM"

Marne Urquiza

    
Em um ano tão difícil quanto o atual, alguém enfrentou a sua luta.
    Como fugitivo, o rapaz magro, meio cabeludo, de barba por fazer, com um filho a caminho andava nervoso. Tão prudente, tão comedido, chegou em casa e disse:

    − Hoje eu vou, hoje eu vou...
    − Para onde? 
− A esposa olhou para ele sem entender aquela agonia.
    − Eu vou... − era tudo que ele conseguia dizer.

    Saiu dali e se sentou na frente da casa. O seu rosto estava lívido, na noite anterior havia escutado uma canção na novela Roque Santeiro. Na sua mente ela tocava sem parar, em repetição sem trégua a música recomeçava na primeira estrofe, mas ele às vezes balbuciava outra:

    É duro ficar sem você
    Vez em quando
    Parece que falta um pedaço de mim
    Me alegro na hora de regressar
    Parece que vou mergulhar
    Na felicidade sem fim

    Naquele dia não viajou e o rapaz foi ficando. Ficou. 

    Um dia de agosto ele fez as contas, três anos, três anos e oito meses sem ir na sua terra. Desde 15 de novembro de 1982 não passava nem perto. Na mesma semana ele disse a esposa:

    − Sexta nós vamos a Bom Conselho.
    − E aquele povo por lá?
      − Nós chegamos sexta-feira de noite e saímos no domingo de madrugada.

    Assim ocorreu, chegou cedo em Garanhuns e esperou que a noite crescesse, lá pelas nove horas da noite entrou no carro e foi conduzindo devagar. 60 km/h. Quase uma hora de viagem. Já perto da fazenda de Catarina, as luzes da igrejinha apareceram, as da encosta da Serra de Santa Terezinha também. Centenas de casas humildades subindo a ladeira.
    Uns dez minutos depois passou pelo posto de Bernardo, na praça Frei Caetano a imponente igreja matriz surgiu no horizonte.
    "Cheguei", chegou, seu coração saltitava. A estrofe da música não era ouvida, mas muito sentida. "É duro ficar sem você", a frase chicoteava seu coração, que para não chorar preferiu se manter calado. Naquele início de noite se lembrou da madrugada de mais de três anos antes, quando entrou dirigindo um carro cheio de policiais mortos de cansados e ele encharcado de adrenalina se mantinha acesso. Recordou ter passado o dia acordado, de que deitou-se no início da madrugada e teve a sua noite mais longa na vida. 36 horas sem dormir.
    A viagem prosseguiu, passou pela ponte do colégio, subiu pela rua Sete de Setembro, quando viu a Praça Pedro II, olhou para o imenso espaço, quase sem ninguém, naquela noite fria de agosto. Virou na esquina, para a esquerda e deixou o carro descer a ladeira. Cinco minutos depois entrou na casa do sogro, de onde só saiu no domingo às cinco horas da manhã. Passou pela frente do cemitério, sem disposição de ir olhar o túmulo do pai.

    Na manhã do sábado não saiu do quarto, não era para ninguém vê-lo. A casa era muito movimentada nesse dia. Ele não cabia dentro da saudade. Não cabia dentro do seu silêncio. O tempo passou, muitas outras vezes voltou ali, centenas. A cada ida o tempo ia esgaçando a sua saudade e os seus sentimentos não eram mais de dor, apenas a alegria de rever pessoas queridas.

    Mas trinta anos depois, estava em um bar jogando conversa fora e tomando umas cervejas. O magro, que já era obeso, ouviu a música inteira sem o bloqueio da saudade e das lembranças dolorosas. Apenas ouviu, depois se voltou para um amigo e disse:

    − Eu pensei que essa música dissesse outra coisa, passei tantos anos a interpretando de outra forma.
    − Como, não entendi?
    − Você ouviu a música?
    − A de Elba?
    − É.
    − O que tem ela?
    − É que ela faz eu lembrar de papai. Pois quando eu ouvi pela primeira vez fiquei com a impressão de que ele falava da saudade de quem morreu...
    − É. Só entendi da saudade do seu pai.

    Então o ex-magro balbuciou:

    É duro ficar sem você
    Vez em quando
    Parece que falta um pedaço de mim
    Me alegro na hora de regressar
    Parece que vou mergulhar
    Na felicidade sem fim.


    Foi cantando e sentido a voz engasgar. O amigo colocou a mão sobre o seu braço  e disse:
    
− Agora eu entendi.


    Bem, essa é uma parte da minha própria história.

    Semana Iluminada.
    Marconi Urquiza

O LINK da canção:

De volta para o aconchego (Dominguinhos e Nando Cordel)

         Para melhor compreensão da narrativa








sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

2021 - A VERDADE EXISTE?


                                    Disponível em: https://www.justificando.com/2018/11/30/a-era-da-pos-verdade-e-seu-antidoto/

    Não sei se ocorreu com você, se ocorreu saber de um fato e ficar doidinho para conversar com um amigo, com uma amiga, com uma pessoa que vai compreender o que você pensa. Compreender, que não significa concordar.

    Nesta semana li uma frase que me deixou doidinho, como eu queria conversar com dois ou três amigos sobre aquela frase, como eu queria ouvir deles os seus pontos de vista! Mas é impossível, devo me contentar apenas em expressar o meu pensamento, a minha visão e não a minha verdade.

    Uma vez, em uma conversa com um amigo, nela a gente discutia sobre a frase: "Verdade dos fatos". Ele sabiamente me retrucou ao dizer que não existia verdade, apenas fatos. Não aceitei, fiz uma série de argumentos e em certo momento entrou outro assunto e a verdade ou a verdade dos fatos saiu da moda.

    Com o passar dos anos, com a maturidade engrossando a pele, e fatos e mais fatos se sucedendo, a "verdade" virou apenas um vocábulo. "Verdade" passou a ser o que se comunica. Se não há contestação, ou quem ler, ou ouvir, ou ver e não duvida, temos aí uma "verdade".

    Muitos meses atrás, estava me preparando para escrever um romance e comecei ler livros, artigos, tudo que me ajudasse a construir o enredo. Até comprei alguns livros. o primeiro  a ler foi: Sobre a Verdade, de George Orwell. É composto por vários artigos em que ele critica a imprensa, os governos da Inglaterra, critica as meias verdades, as verdades distorcidas. A omissão de quem poderia comunicar, o que fato seria o fato, não o fato comunicado.

    A parte visível daquele iceberg na trama serão as Fake News. O desejo é desenvolver a narrativa indo para as motivações de quem divulga, de quem estimula, cria, de quem, sem meter a mão, lidera as Fake News. Tudo isto se confrontando com os efeitos, reais, "não verdadeiros", nas vidas dos atingidos.

    Bem, aquela frase que citei no início desta crônica é essa: "A verdade nunca escapa... Se ela não aparece no que é dito, ela transborda no que é feito" (Gilberto Nunes - Psicanalista).  Foi essa frase que transformou a minha semana, o meu pensar, as minhas reflexões. 

    No Brasil, a maior criadora de "verdades" de todos os tempos foi a operação Lava Jato. A imprensa foi o grande instrumento utilizado para propagar essas "verdades". O instrumento da "verdade", melhor, a ferramenta "verdade". Ferramenta. Ferramenta da indução de nossas percepções.

    Pois bem, é a ferramenta por excelência da comunicação. Mera ferramenta de convencimento, que vem desde  a criação da propaganda política, nos trazendo a "verdade verdadeira". Com nome e sobrenome. Os fatos são outros quinhentos.

    Lembrando da frase e pensado em uma realidade brasileira, cheguei à conclusão que as palavras da Lava Jato transbordaram. A "verdade", aqueles fatos reais vieram em borbotões e muitos de nós, muitos negamos o que lemos, o que foi divulgado. Onde estarão os fatos? São reais? Isto é, são de "verdade?" 

    A verdade existe?

    Aí veio a pandemia da COVID. Mas que "merda!" "Ninguém foi enganado, você ouviu tudo isso antes". É o novo mantra, a nova "verdade". Ninguém foi enganado, se votou por que se quis. Foi auto engano? Ou a demonização de um grupo e de seus adeptos que nos convenceu? 

    As palavras transbordaram e negar sempre é mais fácil que aceitar o real, das palavras que viraram uma enxurrada que estão mostrando o caos no Brasil.

    Se eu pudesse viralizar a frase que me motivou a escrever esta reflexão, a repetiria com frequência. Repetiria antes, bem antes de cada eleição, insistiria, insistiria desejando motivar as pessoas a refletirem antes que as nossas armadilhas naturais sejam ativadas por argumentos manipuladores, fazendo com que certas crenças se transformem em votos.

    Por fim repito a frase atribuída ao senador americano Hiram Johnson: "Em um estado de guerra, a primeira vítima é a verdade". 

    A crítica, a reflexão, agora é com cada um.    


    Semana Iluminada,
    Marconi Urquiza

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

CEM ANOS DE PERDÃO



Este conto, que mais se parece com uma crônica, o que ele tem de especial para mim?

Em algum momento da minha infância eu brinquei com os brinquedos elétricos de meus primos, brinquei com seus carrinhos de plástico estilosos, e senti uma inveja danada por eles serem da capital. Mais que isso, como eu cobicei os seus brinquedos. Como eu os queria para mim!

Muitos anos depois, eu comprei três carros de corrida, à pilha, e quando os meninos dormiam, eu é que ia para a varanda brincar com aquela Ferrari, dando cavalo de pau no piso encerrado.

Este conto me trouxe a lembrança: Eu também tive meu carrinho "elétrico", mesmo aos 34 anos.

Com vocês Clarice Lispector, com a sua enorme sensibilidade.

Semana Iluminada,
Marconi Urquiza
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CEM ANOS DE PERDÃO

Quem nunca roubou não vai me entender. E quem nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender. Eu, em pequena, roubava rosas.

Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes. “Aquele branco é meu.” “Não, eu já disse que os brancos são meus.”

“Mas esse não é totalmente branco, tem janelas verdes.” Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades, olhando.

Começou assim. Numa das brincadeiras de “essa casa é minha”, paramos diante de uma que parecia um pequeno castelo. No fundo via-se o imenso pomar. E, à frente, em canteiros bem ajardinados, estavam plantadas as flores.

Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo.

Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria, ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la. Se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques. Não havia jardineiro à vista, ninguém. E as janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume.

Então não pude mais. O plano se formou em mim instantaneamente, cheio de paixão. Mas, como boa realizadora que eu era, raciocinei friamente com minha amiguinha, explicando-lhe qual seria o seu papel: vigiar as janelas da casa ou a aproximação ainda possível do jardineiro, vigiar os transeuntes raros na rua. Enquanto isso, entreabri lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido. Entreabri somente o bastante para que meu esguio corpo de menina pudesse passar. E, pé ante pé, mas veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam os canteiros. Até chegar à rosa foi um século de coração batendo.

Eis-me afinal diante dela. Paro um instante, perigosamente, porque de perto ela ainda é mais linda. Finalmente começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos.

E, de repente – ei-la toda na minha mão. A corrida de volta ao portão tinha também de ser sem barulho. Pelo portão que deixara entreaberto, passei segurando a rosa. E então nós duas pálidas, eu e a rosa, corremos literalmente para longe da cas

O que é que fazia eu com a rosa? Fazia isso: ela era minha.

Levei-a para casa, coloquei-a num copo d’água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.

Foi tão bom.

Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava.

Também roubava pitangas. Havia uma igreja presbiteriana perto de casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão densa que impossibilitava a visão da igreja. Nunca cheguei a vê-la, além de uma ponta de telhado. A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se escondem: eu não via nenhuma. Então, olhando antes para os lados para ver se ninguém vinha, eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-a dentro da sebe e começava a apalpar até meus dedos sentirem o úmido da frutinha. Muitas vezes na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura demais com os dedos que ficavam como ensanguentados. Colhia várias que ia comendo ali mesmo, umas até verdes demais, que eu jogava fora.

Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.

– Clarice Lispector, no livro “Felicidade clandestina”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Pinceladas de Amor

      Um irmão ligou para uma das irmãs e disse: "Olha, isso aqui tá uma bagunça!" Dias depois essa irmã foi naquele local e constatou a desordem.   Estavam amontoados: roupas, medicamentos, móveis, objetos pessoais, fotografias, postais, tudo. Restos de lembranças, restos de afeto, Pinceladas de amor.
     
    Uma das irmãs voltou com os restos de uma fotografia em forma de painel, a outra levou pequenos objetos da mãe. Um baú era para o irmão mais velho, lembranças do pai. Pinceladas de saudade.

    Algum dia, 48 anos antes, cinco, dos sete irmãos entraram. De adolescentes a crianças, entraram naquela casa. Nos anos seguintes, outros dois se juntaram:  irmão e irmã.

     A casa. Gradeada, garagem, varanda, salas, a mesa onde todos faziam as refeições. As namoradas, os namorados foram chegando, netas e netos preenchendo o afeto, gritando e brincando, enchiam de sons a casa.
     
     As pinceladas de amor cresceram.

     A casa foi modificada, mais bonita, mais aberta. A mesma casa, uma casa diferente. Dos primeiros moradores, restaram três. Dois se foram, a casa ficou do tamanho do mundo. Gigante, vazia, sem alegria, sem gente a lhe dar voz, cheiro, presença. O amor agora chora. As lembranças eram de uma saudade irremediável. 

    Juntou-se tudo, de qualquer modo e levaram dali. O choque daquilo tudo junto, colocados sem os cuidados. Sem os sentimentos entranhados na alma. Olhar triste que exprimia o afeto incompleto. Quem os levou, quem os arrumou de qualquer jeito não captou, não poderia captar quanto de amor todos aqueles objetos, inanimados, tinha de vida. 

    Alguns buscando pedaços que lhe trouxessem afago para o peito. Pedaços de objetos, das lembranças que enchessem os corações. 
  
    Vida morta, vida posta, vida que segue. "Olha, isso aqui tá uma bagunça". Era o coração chorando, com as lágrimas escondidas sob uma constatação. Eram as Pinceladas de amor teimando para não serem caiadas (*).

Pinceladas de saudade,
pinceladas de Amor.
Lembranças que se entranham,
lembranças que se ama.
Pincelados de amor,
Pinceladas de Saudade.

Semana Iluminada.
Marconi Urquiza

(*)
Caiadas. Caiar: pintar, encobrir com tinta derivada da Cal Virgem.

Pinceladas de uma família 

Fotografias de agosto de 2009.















Da esquerda para a direita.
 Filhos: 
1ª fila: Washington, Aparecida, Michele, Nivaldo, 
2ª fila: Sueli, Maria Luíza, Pedro. 
Sentados: José (Seu Zé Barros) e Dona Judite.

Fotógrafo: Creio, ter sido eu mesmo.

    

Da esquerda para a direita.
Netos: 
1ª fila: Philip Urquiza, Raphael Urquiza, Igor Gonçalves Costa, Victor Urquiza.
2ª fila: Bhianca Lins, Fernando Ferro, Tanagra Ferro, Victor Ferro.
3ª fila: Maria Clara Rabelo, Paloma Gonçalves Costa, Ana Luíza Rabelo, Raina Gonçalves Costa
4ª fila:  Thiago Lins, José de Araújo Costa (Zé Barros), Raissa Azevedo Costa, Dona Judite Leonília de Azevedo.

Atrás da câmera: Eu.

     

Existimos: A que será que se destina?

Viktor Frankl             Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...