sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Prevente Senhor

    


    Muitos anos já se passaram desde que o desejo de escrever uma história se transformou em a ação frenética que durou 15 dias e cem páginas escritas.

    Naquele distante janeiro de 1999, tudo veio à mente, quase como uma psicografia as ideias chegaram concatenadas e na ordem narrativa.

    Na inspiração para o personagem central, veio a lembrança de conversas de papai com amigos sobre um grande empresário da construção civil que havia quebrado e dado prejuízos a uma quantidade imensa de pessoas em meados dos anos 1970

    De tais conversas, ouvi que ele deixou o caos em Recife e foi morar no Rio de Janeiro. 

    Esse homem real me fez, de modo muito intuitivo, criar Carlos Rivera.  Em ser que tem tudo, inteligência, tino e percepção para negociar, menos escrúpulo. Um perfil semelhante ao do presidente da empresa de saúde Prevent Senior. Bem formado, ambicioso, zero de escrúpulo. 

    Voltando para o nosso personagem de ficção. Carlos Rivera ficou rico do modo  típico dos mafiosos, roubando, fraudando, usando a sua influência. Evoluiu, unindo a sua inteligência, com a inteligência outros personagens ávidos pelo bom dinheiro que recebia dele.

    O caso da Prevent Senior, ocorreu que os mortos tiveram dos seus prontuários a supressão que adoeceram da Covid-19. Lendo as reportagens dos sites, fiquei pensando quais poderiam ser as motivações.
    Manter a aura que havia implementado uma solução milagrosa para salvar os doentes ricos da Covid-19? 
    Grana? 
    Falta de ética médica? 
    Alinhamento de pensamento com uma corrente do tratamento precoce e uso de certas drogas? 

    O que parece, é que forçaram profissionais ou cooptaram outros a sumirem da certidão de óbito a questão da Covid-19.

    O nosso personagem, Carlos Rivera, bruto na ação, um gentleman no trato, descobriu uma forma de se utilizar do aparato judicial para enriquecer ainda mais.  Saiu limpando a sua biografia, mas sujeira boa, ainda deixa uma borra, é só procurar.

    Mas a impotência também transforma pessoas, a frustração pode provocar depressão ou raiva. A maioria sai sem força quando é atingido por um furacão como Carlos Rivera ou um vulcão, como é o caso da Prevent Senior. 

    Mas há pessoas que introjeta uma raiva por longos anos, mostrando uma face de paz e tranquilidade. Esse pode ser o caso do romance Decisão de Matar.

    Se interessou, vá no link e leia o primeiro capítulo.
    

     

     
       

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

A aventura do passarinho dentro da casa

    Não se sabe o que atraiu o passarinho para aquela casa. Ele chegou, pousou sobre o muro e ficou observando. Dava um pio, outro, andou para um lado, depois voltou e após algum tempo levantou voo, mas não foi para longe, pousou em uma jabuticabeira que ficava no oitão da casa.

    Outros passarinhos também se aproximaram, a jabuticabeira carregada exalava o seu perfume forte, meio azedo, o chão estava forrado de frutos.

    O passarinho ficou por ali, quando os seus amigos da natureza chegaram ele foi para uma árvore sombreadora que ficava no jardim, no entanto, a sua curiosidade fez ele se fixar na casa.

    De dentro da casa se ouvia as vozes alegres das crianças, um converseiro de dá agonia, vez por outra a voz da mãe entrava disciplinando a confusão entre os filhos. O pai estava em outro cômodo da casa, mexendo em alguma coisa. Nem ele, nem passarinho se viam ou ouviam mutuamente.

    O passarinho, pequeno, se assustou quando um sabiá, maior que ele pousou por perto, ele, por precaução, mudou de galho. Em certo instante sentiu o cheiro de uma fruta aberta e seu o seu olfato o levou a mudar de árvore e ir para uma goiabeira. Ele deu algumas picadas na goiaba, se alimentou e saiu de perto daquele fruto, foi para uma árvore que ficava mais perto da casa.

    Lá na cozinha da casa a mãe preparava o café das crianças, ela abriu dois mamões papaia, limpou as sementes e os cortou em cubos e os colocou em um prato sobre a mesa da cozinha. Saiu para vestir as crianças, o pai passou pela cozinha, saiu pela porta dos fundos e foi fazer a limpeza dos tapetes do carro. Fazia diariamente para não encher o carro de areia e de barro, o vermelho, capaz de encardir tudo.

    Ali, na garagem aberta, ele viu o passarinho voar e pousar na travessa do teto da edícula. Não lhe pareceu que ele estivesse perdido.

    O passarinho parece que havia se decidido de alguma coisa. Ficou observando o homem, que o havia ignorado, olhou para a casa e ouviu de longe as vozes alegres das crianças sendo arrumadas e perfumadas pela mãe, para irem para a escola. Todos prontos, camisas por dentro das bermudas e com os cabelos penteados para trás.

    O passarinho pulou para um caibro e se aproximou da entrada da cozinha, deu dois pulos e ficou olhando para a mesa onde estava o mamão, depois se aventurou e voou, entrou na cozinha e pousou sobre um armário alto. Em segundos pousou sobre a mesa e deu uma picadinha no doce mamão. Foi neste momento que a cozinha se encheu, os três filhos chegaram junto com a mãe.

    Da garagem o pai ouviu os filhos gritarem e aquilo despertou a sua curiosidade. O que estaria acontecendo? Quando chegou na cozinha, os três filhos estavam correndo para a sala vizinha e depois para a varanda fechada por uma janela envidraçada. Eles queriam brincar com o passarinho, que queria fugir e voava de um lado para o outro na varanda, se encontrar uma brecha para sair da casa.

    Quando o pai se aproximou, ouviu da esposa: um passarinho entrou dentro de casa.

Aquele ser miúdo estava apavorado, um dos meninos quis pegar ele, mas o pássaro se esquivou voando entre as mãos.

    O passarinho olhava para todos os lados, mirou para o pequeno corredor e se preparou para voar por ele, foi quando o homem apareceu e frustrou a sua intenção.

    O pai das crianças ficou olhando aquela agonia do pequeno pássaro, que já estava cansado, por isso se aninhou no beiral de uma porta. Cauteloso, o pai andou até o janelão e abriu uma brecha. O bicho nem se mexeu. O homem ampliou a abertura, o passarinho permaneceu quieto. O pai abriu as duas folhas de vidro e escancarou a janela, deixando a brisa varrer a casa de ar fresco, mas o pássaro ainda ficou parado. Então alguém soprou para o homem: Sai daí, e ele se afastou da janela.

O passarinho olhou, sentiu o ar fresco chegando para respirar, viu a família agrupada no outro lado da varanda e se encheu de coragem. Deu um voo curto até o beiral da janela, piou e olhou para os gigantes humanos, virou as costas e foi pousar no galho mais alto da árvore sombreadora, de onde poderia viajar.

    A mãe chamou as crianças para tomar café. A janela ficou aberta e todos foram para a cozinha. Logo as crianças seriam levadas para a escola e os pais iriam para os seus trabalhos.

    No meio do café todos se voltaram para a porta dos fundos e perto dela, pousado sobre um balanço de cordas o passarinho dava seu show de canto.

    Dois dias depois ele voltou, ao ver a família reunida, se aninhou no beiral da janela lateral da cozinha e começou a cantar.

    No dia seguinte voltou e fez novo show matinal.

    No terceiro dia uma das crianças falou alegre: Olha pai, o passarinho é amigo da gente!

    A partir daí o passarinho foi recebido com água fresca e alpiste.

 


    Abraço, Marconi Urquiza


sexta-feira, 10 de setembro de 2021

HATERS



    No Fantástico, do último domingo, teve uma reportagem sobre as ações dos Haters nas redes sociais. Em resumo, é ódio destilado e destrambelhado, correndo ladeira abaixo, em palavras ferinas sem nenhuma preocupação com quem será atingido, sob o sentimento de impunidade.

    Fiquei curioso e fui ampliar o meu entendimento. Consegui entender um pouco do termo. Há dois tipos de Haters ou Odiadores: o que agride e se sente forte por isso, e, o hater profissional, aquele que cria situações voltadas para objetivos, geralmente políticos.

    É um bulliyng em escala super ampliada e velocidade do pensamento.
    Ouvi explicações é que tais pessoas são dominadas por sentimentos de frustrações, inveja, preconceitos ou outras concepções despertadas por alguns algoritmos. Sem deixar de citar que há pessoas que são apenas más.

    No ano passado, em setembro comecei a imaginar um projeto de um romance envolvendo haters e suas consequências. Por causa disso me pus a ler e até reler alguns artigos.

    O primeiro livro que li, tem muito tempo, despertou a curiosidade sobre os crimes da internet, os dos hackers. Em Mercado Sombrio, o cibercrime e você, Misha Glenny faz uma análise de quanto nós, individualmente, podemos alimentar esse processo.

    Quando a curiosidade sobre o tema voltou a acordar, comprei mais cinco livros, alguns focados nas ações dos hackers. Não buscava a técnica, mas o modo de pensar. Dentre esses livros, li um, no qual anotei minhas impressões, que foi “Os engenheiros do caos”. Nesse, o foco do estudo são os algoritmos criados para influenciar as eleições. EUA, Inglaterra, Itália e até no Brasil.

    Achando que deveria ir atrás de mais conhecimento, comprei o romance de nome sugestivo e que se aproxima das consequências que a reportagem do Fantástico trouxe: o suicídio do filho da cantora Walkyria Santos, Lucas. No romance O Tribunal da Quinta-Feira, Michel Laub narra uma situação de tamanha complexidade e consequência.

    Aí veio a semana da pátria, corolário de muitas outras situações, algumas em que com denúncias de haver sequestro das cores, dos símbolos e das datas nacionais por grupo de uma corrente política, que não larga uma certa forma de pensar. Tal como alguém que encucou, travou em uma ideia, que se tornou impermeável a qualquer reflexão.

    Há uma frase no livro que leia a alguns dias, cuja autora fala na sigla ADM. Ela se fez entender que ADM, tal qual se julgou que o Iraque de Saddam tivesse, é uma arma de destruição em massa.

    ADM, é para Cathy O´Neil, Algoritmo de Destruição em Massa. São construções de programas de informática que se utilizam de técnicas avançadas de detecção de fragilidades, necessidades, desejos, entre outros sentimentos, para impulsionar as pessoas a comprarem além das suas necessidades e condições.
    Tudo feito, tudo articulado para enriquecer uns poucos, ou empresas, sem a menor preocupação ética e até legal.

    Vamos voltar à questão do sequestro de símbolos e sobretudo do sequestro da subjetividade, que uma vez dominada, tudo o que for diferente, fica de fora dessa bolha. Tudo que está de fora dela é motivo para ser agredido, mesmo que o pensamento encucado seja feito do pior bom senso.

    Com a visão distorcida, julgamos tudo nosso como certo e tudo que for o pensar diferente é fator, para os mais radicais, de agredirem os “opressores do seu melhor pensamento”.

    Aí, volto para entrar na questão dos haters e seu ódio sem causa, insano. Já que não há controle sobre isso, a ponta que tem que se proteger é você mesmo, em caso contrário pode se tornar uma vítima.

    Lembre de algo muito importante, parafraseando Sigmund Freud: “Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo”. Quando alguém critica tão violentamente outrem, está criticando a si mesmo.

    Não ler e se desligar do escrito, bloquear os comentários, ou agir como ex-cantora Gretchen, que responde com o mesmo tom as agressões, sem se importar com o que digam sobre ela.

    Importa dizer, se tal problema ocorrer com você, saia por uns tempos da internet e deixe os maledicentes falando só. Colha, colha provas, se desejar, denuncie essas pessoas à polícia, é preciso que o agressor perceba que se “é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências”.


    Abraço, Marconi Urquiza


Livros citados:









sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Vamos lá fazer o que será!!!!

 


            Fé na vida, fé no homem, fé no que virá

            Nós podemos tudo, nós podemos mais

            Vamos lá fazer o que será.

                                            Gonzaguinha


            Você já esteve em alguma reunião que corria alguma energia, como um rio subterrâneo, até que ele apareceu iluminando a natureza, criando vegetação e dando vida. Foi assim, foi quase desse modo, foi o que senti.

            Três anos atrás fui a uma reunião parecida, de posse de uma diretoria. Naquela noite tudo curto, sisudo, muito formal e até, tenso.

            Na última quarta fui com Cida, formos o segundo casal a chegar no Salão Capiba da AABB Recife. Mesas separadas, conforme o protocolo da Covid-19.

            Os amigos e os conhecidos foram chegando aos poucos e sentando às suas mesas, e foram se juntando, a afinidade aflorando, a saudade matando o desejo de se reunir, de contar sobre com passaram, como estão hoje, compartilhar de sua vida. 

            Eita vontade de abraçar. Eita!

            Os presentes, todos adultos, já puxados nos anos, presumo, vacinados. Havia entre eles amigos que não se viam a um e meio. Muitos ali já haviam rompido os dois anos sem se encontrarem, gente que se encontrava regularmente.

            Eita vontade de abraçar. Eita!

            A reunião prosseguiu, sisuda, como deve ser um ato solene e chegou a hora do discurso do presidente da AABB Euler, reeleito.

           Euler, ao contrário de suas intervenções curtas, trouxe um texto longo, formal. Começou a ler, em certo momento, fez imagens de um sentido mais filosófico, mas o discurso foi ganhando outro tom, que a sisudez de um discurso escrito não costuma permitir e foi ganhando o colorido da emoção.

            Ontem um menino que brincava me falou

            Que hoje é a semente do amanhã

            Para não ter medo, que esse tempo vai passar

            Não se desespere não, nem pare de sonhar

            Quando ele cantou essa estrofe de capela, o papel já repousava no púlpito, era na sua voz a força da esperança e da superação. Fé no homem, fé na vida, fé no que virá. Foi nesse momento que os presentes começaram a vibrar, como aquele rio subterrâneo, e os aplausos protocolares, sem entusiasmo, foram ganhando o colorido da vida e já não eram mais de pessoas educadas, mas de fãs. E a energia correu todos nós.

            Fé na vida, fé no homem, fé no que virá
            Nós podemos tudo, nós podemos mais
            Vamos lá fazer o que será
            Vamos lá fazer o que será

            Vamos lá fazer...

            Olha o sol nascendo!
            Viva o Sol! Viva o mar!
            Viva a saúde!
            Viva o vento! Viva a vida!

            Vamos fazer o que será!!!

            
            Abração, Marconi Urquiza



        Clique no link e veja o vídeo com Erasmo Carlos cantando a canção.

        SEMENTES DO AMANHÃ

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Abuso, abusado, abusivo

 


A primeira vez que li algo a respeito eu fiquei, assim, meio parado, refletindo sobre o conteúdo. Era como se tudo tivesse se juntado em uma palavra: Tóxico.

Tóxico. Era assim que papai falava sobre pessoas viciadas em drogas, especialmente a maconha, nos anos da década de 1960 em diante. Outras drogas ilícitas não estavam ainda infestando por Bom Conselho, naqueles anos da minha infância.

O tempo passou e um estudioso do trabalho escreveu sobre ambientes do trabalho tóxicos. Aqueles ambientes que provocam tanto desconforto que levam ao adoecimento psíquico de muita gente e o sofrimento mental para a muita gente.

Ansiedade, insônia, alcoolismo, isolamento, irritabilidade, baixa produtividade, entre outros problemas.

Na esteira que aquela leitura me despertou, vieram outras e mais outras, até que li sobre a Síndrome de Burnout. Em uma imagem simples e direta, é como se a pessoa queimasse por dentro como um fósforo aceso.

Tempos depois, esbarrei em uma matéria sobre comunicação não violenta. No contraponto disso, a comunicação agressiva é bem comum. Não precisa gritar, até em voz baixa pode se xingar, diminuir a autoestima, minar a confiança.

Hoje se sabe que a violência doméstica, física, vem precedida da comunicação violenta. É um processo lento e crescente de abuso entre pessoas. É semelhante ao que ocorre na parábola do sapo que ferve junto com a água, sem que esboce qualquer reação. A temperatura vai subindo e o animal morre sem fazer nenhum movimento para sair da panela.

Vários anos se passaram até que definisse uma percepção, a partir de uma lembrança de um jogo de futebol.

Em 1995, nós fomos jogar futebol de salão em uma cidade vizinha. Em certo momento, um jogador foi ao árbitro e disse que estava levando pancadas de um adversário. O árbitro fez ouvidos de mouco.

Na jogada seguinte levou outra e compreendeu que do árbitro não haveria nenhuma ação.

O tempo correu e o jogador, que gostava de ser duro levou uma trombada que o jogou no chão. O que deu o troco, olhou para o árbitro e esperou que ele apitasse falta e até o advertisse. Não apitou e o jogo prosseguiu sem que aquele, que andou lhe dando pancadas, tentasse de novo lhe machucar.

Mais de 20 anos depois, estava em casa, muitas recordações vieram na esteira da reflexão sobre relacionamentos abusivos, após ver uma sucessão de notícias sobre feminicídios.

Puxei o assunto na hora do café, em uma das conversas se falou de uma pessoa pública, notório por não respeitar limites. E dá indicações que o que coloca um freio momentâneo nas suas atitudes, é uma reação na mesma altura da sua agressão.

O modo abusivo de ser é desse modo, não adianta contemporizar, pois lhe dar força para o seu comportamento. É não deixar o medo tomar conta, mesmo em desvantagem. Sobretudo, não tentar agradar o abusador, que quase sempre interpreta isso como fraqueza, aumentando a sua maldade.

Esse tipo de pessoa é como se estar diante de um vampiro, ele se move e se sente forte ao sugar o nosso sangue espiritual. Não é para se consolar e parar de lutar, tal pessoa, vai sempre atrás de uma vítima, pois é um predador.

Às vezes a luta parece impossível, se isto é o que se tem no momento, se prepare, pode ser que tenha que ter uma reação “abusiva” para se livrar do abuso.

Há um risco, o risco de se tornar uma pessoa abusiva ao reagir. Mas isso é comigo ou com você e não com o abusador.


Abraços, Marconi Urquiza

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

UM GÊNIO BONDOSO



            Às vezes a gente não se dar conta que conviveu com um gênio e destes, de bom coração, altruísta. Essa constatação só veio muito tempo depois, muitos anos já havia se passado desde o primeiro encontro.

            Vou correr na memória e parar em um Sete de Setembro. Acho que foi em 1969. A época está imprecisa, a memória forte.

            O desfile de Sete de Setembro em Bom Conselho havia se transformado em um evento, evento que atrai, até hoje, multidões para vê-lo. E isto começou com essa pessoa.

            Desejando ver o desfile, eu saí de casa e corri para a praça, arrumei uma vaga em cima de um banco e fiquei vendo as escolas desfilarem. De repente, um grupo de estudantes, vestidos com batas, como cientistas, vinha trazendo a representação de um foguete em um balão. Tudo artesanal. Pode ter sido o foguete Apollo 11. Não sei o que plateia sentiu, eu fiquei extasiado.

            O pelotão de cientistas caminhou mais um pouco e entrou a banda marcial. Quando ela tocou e bailou, com seus membros tocando e fazer coreografias o público vibrou.

            Pense que ela foi embora? Acho que ela ficou de lado, tocando até todo o colégio passar.

            Foi o primeiro espetáculo popular que assisti.

            Anos depois o conheci como autoridade. Diretor do colégio estadual. Um ser inquieto, enorme nas boas intenções e um líder, que só vim a me dar conta, quando tentava ser um.

            Muito, muito tempo depois, eu soube que ele estava vivendo em Catolé do Rocha, na Paraíba e eu e Cida morávamos em Caraúbas, RN. A 70 quilômetros.

            Na manhã de um sábado o encontramos. Nos recebeu com um sorriso discreto, conversamos um pouco. Eu o achei triste. Logo depois saiu mostrando às suas criações, detalhando em cada quadro a técnica utilizada, como se nós entendêssemos daquilo.

            Mas ele era mesmo assim, fazia questão de incluir as pessoas.

            O tempo passou e nós fomos visita-lo em Bom Conselho, para onde havia retornado uns 15 anos depois. De novo, ele nos levou a um ateliê, onde ensinava a jovens, a técnica de construir vitrais com cacos de vidros. Cada obra linda. Outra vez nos deu uma aula de como utilizar a técnica. Estava contente por ter formado vários jovens, entre eles, mais de um já se desenvolvia como profissional. A sua alegria era visível. Feliz.

            Saí do encontro contente. No dia seguinte ele chegou na casa do meu sogro, coisa que fazia todos os sábados. Neste dia,também quis saber se o cunhado Pedrinho, que morava em Natal, havia chegado.

            Cinco minutos de conversa, cinco minutos de alegria e foi cumprir as suas missões de vida.

            Encostei no portão e fiquei vendo a rua e seus transeuntes, quando ele voltou com o carro na direção do centro da cidade, ao passar por mim, levantou a mão em despedida e sorriu.

            Posso dizer uma coisa, ele fez a diferença para várias gerações e para toda a cidade.  

           Fiquei por ali refletindo. Só tardiamente reconheci que Frei Dimas era um gênio. Um gênio bondoso e compassivo.

            Viva Frei Dimas. Um ser que com suas atitudes passou a vida iluminando por  onde ia.

            Abraço, Marconi Urquiza


sexta-feira, 13 de agosto de 2021

AMBOS TINHAM RAZÃO


 

            Estava sem assunto, nas últimas duas semanas ando tão voltado para esse novo trabalho que não sobra espaço no pensamento para criar textos significantes. Pode-se dizer que estou em uma seca criativa.

            Mas essa semana ocorreu algo, comum para muita gente e forte para nosso pequeno grupo de amigos. 9 pessoas. Um se irritou e saiu.

            Desde a saída dele, dentro do grupo de Whatsapp, ninguém havia postada nada e nem comentou sobre a sua atitude. Poderia entrar no detalhe e traçar um longo histórico de postagens, onde expressa a sua opinião sobre o momento político. Em outros instantes, tentando dissimular, usou o argumento que portador não merece pancada. Aqui e ali, alguém dizia algo que o contrariava e à sua visão de mundo. Eu fui um. Várias vezes.

            Ontem, quando me deslocava de casa para a AABB Recife, lembrei de uma frase, que era mais sonora que a que vou escrever: 

            "Não se argumenta com radical, não peça calma a cliente irritado. Ambos vão explodir".

            Aí, ao abrir o Whatsapp do grupo e vi que um dos amigos postou uma frase de Fernando Pessoa, linda, que lida com espírito calmo, pode trazer o bom senso e a conversa para um tom de ser apenas opiniões diferentes.

            Olha que coisa maravilhosa:

            “Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado. Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e outro outra, ou...”

            Estimulado por ter lido tanta sabedoria, corri e fui procurar no mesmo site algo significativo, nem pensei, peguei uma frase de Millôr Fernandes e postei:

            “Ninguém sabe o que você ouve, mas todo mundo ouve muito bem o que você fala”. 

            Onde as duas se complementam?

            Foi isso que me levou algumas horas, o caso batendo cabeça nas minhas lembranças.

            Amigos ou ex-amigos que se prezavam. Bons de conversa, os vi conviver com papos alegres, encontros felizes.

          O que ou por que opiniões reiteradas e divergentes provocaram tal conflito?

         Sabe, a frase de Fernando Pessoa me levou a recordar de uma quase briga, física, aos murros, pois dois homens se irritaram a um ponto, que um, para não se esmurrar com o outro foi embora. Não houve nenhuma agressão, apenas divergência de opinião e "um deles queria ser o dono da razão", e o outro, "tinha certeza que estava com a razão".

        Muito tempo depois, eu ouvi essa frase, em resposta a uma grosseria dita: 

"Você diz o que quer e, ouve o que não quer!"

         Tal frase me acompanha desde então. Se expresso um ponto de vista, devo estar preparado para ter pessoas que vão dizer a sua opinião. Pode ser a favor, neutro ou contra o que se pensa naquele momento.

      Então, é assim. Os dois amigos têm razão em opinar, só falta o que saiu do grupo querer conversar.

      Não subestime uma amizade,  nem superestime uma divergência.  Em qualquer circunstância, se apoie na humildade.


Abraço, Marconi Urquiza


Existimos: A que será que se destina?

Viktor Frankl             Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...