sexta-feira, 21 de outubro de 2022

DISTOPIA SENSACIONALISTA

 

Fonte: https://gizmodo.uol.com.br/estamos-vivendo-uma-distopia-tecnologica/

            Já pensou, você abre o Zap e aparece a imagem de Pinoquio e a chamada: A Lei de regulação da mentira foi sancionada.

        Já pensou como seria o regogizo na política. A mentira regulamentada, as eleições sabiamente conduzidas pelos postulantes. A população se tornaria sábia com a contribuição dessa regulamentação.

        Seria uma distopia fenomenal, verdade. A verdade como vocábulo cairia para a caverna das linguas mortas e sumiria dos dicionários e das mentes de todos nós. Aí, ao clicar no zap predileto você leria, na abertura da imagem: A mentira regulamentada pelo Lei XXXX/2100, e você acreditaria se quisesse. Não seria iludido.

        Como não haveria nenhum contraponto da mentira contra a palavra morta, o mundo olharia para tudo com a confiança plena que seria tudo assim, fluído, pacificado pela mentira, não haveria briga. Para que brigar se a mentira estará regulamentada.

        De boca cheia as pesquisas eleitoriais ocorreriam assim: Pesquisa Eleitoral depositada no Ministério da Mentira, regulamentada pela Lei XXXX/2100. Pense na paz, que paz seria. Tudo ficaria mais produtivo, a energia só seria gasta com coisa boa, benéfica e produtiva. 

        Quando  alguém dissesse: isto é um mentira; todos caíriam em risada, alguém faria um meme, os haters endoidariam: Que isso, Mentira?  Não existe!!!! E quase resgataram da sua defuntisse a palavra sumida no dicionário das línguas mortas.

       É preciso regulamentar a mentira. Uma mentira: perdão objetivo; duas mentiras: perdão parcial, a pessoa teria que contar mais quatro mentiras em 1 minuto. Três mentiras: Sem perdão, ficaria suspenso da internet 1 ano.

       Assim, a regulamentação teria que ser uma armadilha para que a palavra sumida no dicionário das línguas mortas fique para sempre presa.

        Portanto, indique para seu parlamentar federal que faça a lei que regulamente a mentira, tudo isso em nome da paz. 

        Assim, haveria dois benefícios imediatos: 

        O primeiro. Não haveria nenhum estresse e nem ansiedade para se saber se a mentira é apenas mentira ou se ela uma mentira distópica, cabeluda, prejudicial. 

        O outro: a tranquilidade, pois todos estariam mentindo. Para que briga, discussões, agressões, xingamentos? Todos, ao contrário de hoje, estarão do lado certo, correto. Ao lado mentira.

        Aí, um dia, Cem anos depois, um pregador entra na internet desse tempo, comandada pela Inteligência Artificial e começa a pesquisar o desconforto que vem ocorrendo há vários anos. 

        As pessoas insatisfeitas, as máquinas insatisfeitas, comida demais para alguns, comida pouca para um montão. Ele se sente angustiado, seus fieis aumentando exponencialmente, mas já não têm a cara de felicidade, os céus tão prometidos já não alimentam as almas, os seus céus tão almejados para os tempos vindouros também. A palavra sagrada, repetidas como bastião do universo, está virando descrença. 

        Aí ele abre um livro em busca de socorro, precisa mudar o rumo daquela insatisfação. Aí vai passando as páginas, ele sabe de tudo aquilo, ele tem aquele livro decorado, é capaz de dizer tudo sem nem abri-lo. Para que abriu, se sua mente funciona como um computador quântico?

        Nisso ele se depara com uma palavra. Corre na base universal dos livros sagrados, tudo virtual, a palavra estava lá, quem a resgatou do dicionários das linguas mortas? É preciso achar esse culpado e unir o rebanho de novo, trazer o rebanho rumo a si mesmo e ao controle da felicidade. Deu um comando e a apagou. A enterrou mais uma vez.

        Amigo e confidente da maior autoridade do pais, sentiu que deveria atualizar a Lei da Mentira, disse uma mentira e correu para dizer a sua angústia, mas como dizer.

        Aí a distopia mais uma vez surgiu, alguém achou um livro antigo, ainda de papel, estava dentro de uma casa, em um buraco, envolto em um plástico, preservado. "Quem morou aqui?" E foi atrás de responder a essa pergunta, cada vez que buscava, mais portas achava para abrir, cada vez que lia um nome, outros tantos apareciam e um emaranhado foi se formando, já não tinha rumo quando comentou a sua angústia para um Homem Santo. "O que você procura, filho? O nome de quem era esse livro. Por que procura? Por causa disso, leia aqui, não tem no livro novo."

        O Homem Santo espichou o olhar, sem se dar conta que estava conectado à sua imensa rede da Internet, sob o comando da Inteligência Artificial para propogar tudo que dizia. Baixou a cabeça e leu, seus óculos dotados de câmera também leram.

        "O que te angústia?" Ele perguntou com a voz doce, alisando o papel fino, suave. "Leia aqui", o fiel angustiado apontou e o Homem Santo leu, sem se dar conta que havia acionado seu imenso púlpito. "Você está preocupado com isso, com isso aqui, é? Ligue não."

        Aí o fiel disse: "Não, não é essa, é aquela", e aponta a frase, prontamente lida pelo Homem Santo: "Dizei a verdade e a verdade vos libertará", então repetiu em tom de pregação: "Dizei a verdade e a verdade vos libertará", e aí como se tivesse pregando, disse: "Fiel, a verdade vos libertará". Então deu um toque e se desligou da rede, mas a inteligência artificial atuou.

        Aquilo ficou propagando 24 horas sem nenhum bloqueio, Homem Santo teve um desmaio e foi parar em um hospital, oito dias depois, ainda debilitado foi pregar e o que ele ouviu da multidão, ao entrar no púlpito: "Fiel, a verdade vos libertará", ali mesmo ele tocou no intercomunicar e disse: "Senador Jesu, mude urgente o nome da Lei da Mentira, para a Lei da Verdade. É só o que fiéis estão dizendo".

        “Mentira tem pernas curtas” 

        E anda por linhas tortas

        Seu dicionário usado

        Representa línguas mortas

        Não tem a perenidade

        E sabe que verdade

        A sua grande comporta.

                                Ademar Rafael.


                E a distopia se completou.


        Até a próxima, Marconi Urquiza

                

        

        

        

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

ESTADO ÚTIL

        


        Na última terça-feira encontrei-me com o professor Charles. Nós de vez em quanto nos encontramos na biblioteca da AABB. É sempre um bom papo. Perguntou-me sobre a empresa que ajudo a administrar, como ela está e em certo momento se falou sobre o papel do Estado.

        Quando ele concluiu seu raciocínio eu entrei com uma opinião bem pessoal, algo que veio naquele momento supetão, nunca havia pensado antes nestes termos. Acho que se somou a uma série de reflexões que venho, aleotariamente, fazendo nos últimos meses.

        Veja, vou fazer uma introdução simples. Por Estado entendo aquela entidade em que se somam a União, Estados, Distrito Federal e os municípios. E tudo, tudinho que está sob a gestão do poder público. 

        Há muita coisa nesta relação: Justiça, Saúde, Educação, Segurança Pública e Nacional, Política, Congresso Nacional, etc. É tudo isso e muito mais.

        Voltando para a conversa. Ela suscitou a lembrança de um clichê da Economia e também da Política: Estado Mínimo. Quando o Estado sai de quase tudo. 

        Em outros termos, é o Estado em que o "mercado" toma conta e ele ficando para agir com o "essencial" das suas funções. Mas o que é essencial para uma população? O que é essencial para tempos de crise? O que é essencial em um país, enfim?

       Na conversa com o professor entrou o assunto dos setores estratégicos que devem ficar sob a gestão do país: Energia, Água, por exemplo. Quais mais?

        Em um país como o Brasil, heterogêneo ao extremo, as necessidades dos grupamentos sociais são muitos diferentes. Como o Estado, essa entidade de Poder, de organização temporal, espacial, de regulação atua?

        Como o Estado atua? Como o Brasil atua? 

        Em linhas gerais, mesmo que não esteja afinado com os termos da Economia, pense: 

        - Qual é a lógica do "mercado"?

        - Qual dever a lógica do Estado e de suas entidades?

        - Qual deve a ação concreta do Poder Público em todos os seus pontos de atuação?

        Quando estava, eu mesmo, tentando responder a estes questionamentos veio à lembrança de uma frase lida no início dos anos 1980, que para mim foi tão significativa que nunca esqueci da sua essência. 

        A li no livro A Primavera de Praga, de Pavel Tigrid. Em certo trecho ele escreveu, vou parafrasear, pois não lembro exatamente da frase. Mas vale a pena ler a sua essência: 

        A democracia é quando o Estado buscar equilibrar a força do mais forte em apoio ao mais fraco. 

        Então como deve ser o Estado, o Estado Brasileiro?

        Como deve ser?

        Naquela conversa com o professor saiu essa ideia: O Estado tem que ser útil. Útil para quem precisa, para quem não tem força e nem recurso. Também para agir onde e quando a necessidade existir, onde e quando a necessidade exigir. Útil para atuar na emergência, útil para transformar a realidade de carências que crassam Brasil afora.

       Enfim, o Estado tem que ser útil, verdadeiramente útil para a população e não apenas para alguns dessa população.

        Tudo que ouvi falar sobre o modelo de Estado havia lido e ouvido em aulas,  esta foi a minha ideia e não tem nenhuma teoria por trás,  apenas um sentimento. 

        Por hora, é só. 

        Abraço,  Marconi Urquiza. 


        Obs: Aberto à crítica. 

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        Abraço, Marconi Urquiza

        Marconi Urquiza

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

O Game do Inexplicável

 


        Vivemos em um país com tantas carência sociais que parece um mundo inteiro que não cabe nas palavras dos candidatos.

        Comecei a ouvir, aqui e ali, as pequenas entrevistas que surgem, filtradas nas reportagens da televisão. Frases e mais frases vazias, ditas por necessidade de dizer, desatreladas do querer fazer ou das dificuldades que tais intenções esbarrarão no futuro.

        O que mais toca meu coração é a falta de convicção.

        Por outro lado, não de hoje, mas, como todos sabemos, que o que há propagações de vídeos e palavras multiplicadas milhões de vezes pelas redes sociais, pelo Whatsapp e outros meios de comunicação digital. Onde quase tudo virou um game. 

        Não passa de um jogo onde tudo vale para ganhar, onde a palavra tudo vale, menos para fazer o bem a enorme população carente que anda a passar fome. Mas há um algo que é dado com abundância, todo santo dia: o ódio. 

        Muito tempo atrás, uma inquietação rondou meu espírito. Uma inquietação que levou anos, mais de 40 anos em busca de uma explicação, para a qual apenas constatei bem recente, que aquilo tudo veio de um processo histórico, de uma cultura eivada por uma valorização da violência, mas, ainda assim, o que achei é incompleto.

        Estava imaginando, nesta semana, que escreveria a crônica como se um conto fosse. Fiz o primeiro rascunho e foi um menino de 9 anos, sentado no meio de dezenas de adultos, comendo na varanda de Arnaldo os pedaços de queijo que eram para os homens envolvidos em uma conversa tensa, após o resultado da eleição de 1968. E ele percebeu algo inexplicável e desconhecido.

        A cidade, mais do que estava rachada, mais do que nunca, naquele ano, esteve perto de uma guerra fraticidade entre os partidários dos dois maiores grupos políticos daquele tempo. 

       Dali se evoluiu para aqueles homens poderosos, daquela pequena cidade, como uma solução para pacificar: a eleição de candidato único. A história mostra que o efeito foi ao contrário da ilustre tentativa de pacificação.

        Vamos voltar para o menino de 9 anos que cresceu ouvindo muitos adultos falando em política, na parte da política que é para ganhar, na parte dela que é pura apelação. Ele não entendia por que tudo naquela cidade, que envolvesse qualquer coisa que arranhasse eleição lhe parecia haver raiva. Uma raiva introjedada, que em tempos de "paz", ou seja, entre as eleições, ficava escometeada, escondida sob capas de um frágil verniz. Era ódio puro, como fogo de munturo, só esperando uma pequena brasa para queimar tudo.

        Agora volto para 2022, 2010, 2006, passando por 2014 e 2018. O que se tem em todos estes anos ? Eleições. O que há em todos eles? Manipulação.  

      O que ocorreu antes e ocorre em 2022? Ocorre. Indução ao Ódio. 

        Foi este sentimento que aquele menino de 9 anos não compreendia, mas percebia e que não sabia como identificar aquela energia visceral que corria nos comícios de sua cidade. Tal percepção ele levou para a vida.

        Depois este sentimento ficou muito claro para o menino que foi se transformando em adulto. O que nunca ficou claro, foi por que se odiava tanto naquela cidade, se quem era odiado não tinha feito mal aos odiadores.

        E hoje? Acho que ainda estou preso nas impressões daquele menino de 9 anos, na busca por uma resposta, ansiando por uma explicação. 

        Esta realidade foi para mim o game do inexplicável.

         E você, alguma vez você foi estimulado a odiar e odiou, mesmo sem ter um motivo?

        Bem, por hoje é o que tenho. Ótima semana.

        Abracço, Marconi Urquiza


        

        

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Ele se chama Paulo Reglus



Estarei preparando a tua chegada
Como o jardineiro prepara o jardim
para a rosa que se abrirá na primavera.
                        A frase é de Paulo.

        
        Lá no início dos anos 1990 se iniciou uma jornada na busca para ser educador, logo de cara fui apresentando a um livro,  dos mais difíceis que li e um dos mais profundos também. 

        A filosofia era uma disciplina distante,  só conhecia de ouvir falar,  ainda assim, em sussurros. Era tão estranha quanto era escassa a bagagem intelectual para compreender textos que arranhassem uma reflexão mais profunda. 

        Tal livro foi tão difícil e demorado de se ler, tanto quanto foi Um Ensaio sobre a Cegueira. 

        O que eles têm em comum? Não se pode os ler com pressa, se houver tal tentativa, ou o leitor abandona a leitura, ou volta para o início na busca da compreensão. 

        Na leitura de Ensaio sobre a Cegueira foi assim, depois de quase 100 páginas de uma leitura com zero de compreensão, ir ao início foi a saída.  Isto depois de duas tentativas leituras de livros de José Saramago: O Evangelho segundo Jesus Cristo e O Homem Duplicado. 

        Vamos para o livro inicial. A sensação ao ler era que estava diante de um redemoinho ou de uma escada em caracol em que os degraus se sucediam interruptamente frase após frase.  A vontade de abandonar era imensa, a teimosia equilibrava tamanha força, no final, foram quase 90 dias de um esforço como se caminhasse 20 subidas à serra de Santa Teresinha. 

        Não é por nada, não.  É subida dela é íngreme,  até carro pia.

        A leitura fruiu penosa, sem entender a realidade que o escritor buscava me fazer, como leitor, refletir. A compreensão, parcial, apenas ocorreu nas últimas páginas, ainda assim, descontextualizada pela minha história de vida até então. Que vivia dentro de uma realidade bem distinta da situação circunsdante nas cidades nordestinas nas quais vivi até 1995.

        Muitos anos, muitos se passaram,  chegou o Tik Tok, o YouTube já era realidade, até que em 2020 assisti no Instagram Sérgio Cortela falando desse autor em uma das suas apresentações. Comecei a ver alguns vídeos,  pequenos trechos selecionados. Em um deles, aquele ancião,  de cabelo grande, barba imensa, completamente grisalha. Com um modo de falar suave atraiu meu interesse.

        Vi um vídeo, outro, outros e passei a semana pensando nele,  naquele domínio de pessoa que é Senhor de Si, do seu saber. No entanto, com tanto saber ele não era arrogante, como parece ocorrer com muitas pessoas de elevado saber intelectual. Ele era diferente, de uma serenidade pacificadora por compreender que o seu saber servia a muitos.

        Já pensou em alguém, assim, top,  mas que é humilde? Foi assim que tive uma admiração, não de ouvir dizer, mas da compreensão da sua mensagem. 

        Não sei se já desconfiam quem é ele. Lá vai. O livro é Pedagogia do Oprimido; O mestre: Paulo Freire

        Para encerrar, trago uma frase dele para refletirmos:
Quando a educação não é libertadora, o sonho do Oprimido é ser opressor.

        Já pensou a respeito? Amplie a reflexão para outros pontos da "liberdade doutrinada" em que vivemos. * Noam Chomski

        Por hora, é só. 

        Abraços,  Marconi Urquiza 


Frase de abertura, siga o link: Paulo Freire

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Chuva na tarde

          


            Devagar ela chegou
            Sem alarde sem trovão
            A nuvem foi desfiando
            Igual pano de algodão
            Relâmpago também
            não veio
            Mas o Rio ficou cheio
            E ficou molhado o
            Chão.  
                
                Ademar Rafael Ferreira

        
        A chuva começou fininha, desceu primeiro nas ladeiras das serras que rodeiam a cidade. Depois ficou um tempo caindo no vale, molhou a estrada de terra e fez aparecer as gotas nas folhas das árvores, que foram escorregando e formando bolhas ao cair sobre o solo.

        Depois a chuva levantou voo e foi se espraiando em direção à cidade, tendo cara de chuva geral. Na direção do sertão chovia, no agreste mostrava a mansidão de chuva molhadeira, na zona da mata daquela cidade, entranhada no sopé da serra, tinha chegado mais forte e seu rastro criado uma leve enxurrada.

        Na cidade, ela foi colocando as pessoas para dentro das casas, muitas foram para frente do comércio, dos terraços e das janelas das casas olhar a divindade que chegava em forma de gotas suaves, alguns diriam que perfumavam a terra, de onde subia um cheiro agridoce.

        As pessoas mal acostumadas em não serem abraçadas pela chuva buscavam guardas-chuvas, sombrinhas e alguns se lembraram que outrora tiveram uma capa de chuvas, mas não tinham. A estiagem é a ordem natural daquelas terras teimosas e de serras caprichosas que gostam de esfriar o tempo ao anoitecer.

        Mas naquela tarde, o frio, o friozinho gostoso da boca da noite, chegou mais forte e antes de quatro horas da tarde. As pessoas começaram a procurar os cantos quentes aonde estavam. Teve gente que deixou o comércio meia porta, as janelas abertas para ventilarem as casas foram fechadas, as porta escancaradas em busca de uma fresca, fechadas rapidamente.

        Alguém, com mania de escutar a natureza, cutucou o vizinho de abrigo e disse: 

       — Você está escutando? — O outro negou com a cabeça, depois se concentrou e então voltou-se para o conhecido com ares de estranheza.

        — O que é para escutar?

        — A chuva.

        — Ah! A chuva estou escutando.

        — O que ela está cantando?

        — Agora você endoidou. Já visse chuva cantar? — O outro nada respondeu, apenas pensou: "Ele não compreende, não compreende."

        Lá longe, rua acima, um menino chegou na frente de sua casa e sentiu o frio lhe beijar o rosto, entrou dentro dela e voltou com um casaco. Na frente da porta foi escorregando, devagar, com as costas fazendo a vez de apoio e aos poucos esticou, mas com tanta preguiça, que as pernas não obedeceram, quase não se senta no chão. No fim  se apoiou na meia parede da varanda e parou o seu tempo para observar a chuva descer mansa, sem fazer as minúsculas enxurradas que tanto o divertia.

        Mas a chuva não tava nem aí, entrou pela noite, a noite inteira pingou as suas pétalas, ao amanhecer bateu as asas gigantescas, levantou voo e foi bendizer outro lugar.


        Por hoje, é só.

        Abração, Marconi Urquiza


sexta-feira, 15 de julho de 2022

Tudo que tínhamos era o vazio

                


        Naquela noite, 11 de novembro de 1982, fomos jantar. Ao redor da mesa estavam: eu, meus dois irmãos e mamãe. Não sei qual foi a razão e eu virei a cabeça para o lado esquerdo e vi a imensidão da sala,  onde todos os móveis estavam afastados, encostados nas paredes.

        A sala virara um salão, enorme, muito maior que seu tamanho real. Ao voltar a olhar para a mesa papai não estava. Era o silêncio e o vazio.

        Veio 2022, li a notícia do assassinato do cidadão em Foz do Iguaçu,  ouvi a viúva falar, a câmara focada pertinho do seu rosto, ansiava por captar a dor, mas captou o amor.

        No outro dia um amigo juntou  um áudio com a citação de um filme, o Sniper Americano, e foi chocante. Uma pancada no cucuruto, uma introspecção imediata. Horas em um silêncio que só compreende já precisou refletir profundamente. Todo contexto do diálogo do filme se sintetizou em uma frase contundente, : Lá fora tem uma guerra, se prepare. Não seja mais uma vítima, está é por minha conta. Cuidados com as provocações.

        Tudo,  tudo isso me fez mergulhar. Mergulhei nas recordações de quando escrevia páginas de dores do romance O Último Café do Coronel. 

        Imaginava, imaginava naqueles dias de escrita concentrada a dor, a angústia,  a agonia e as balas que um corpo recebeu e pereceu. 

        Para escrever fui buscar um simulacro do que doeu e matou.  Claro,  não morri. Mas a angústia daquilo que desejava expressar em uma criação literária foi bem real.  

        Então voltei a pensar na viúva,  para aquele lar no domingo à noite, caminhei pelo mesmo sentimento de 40 anos antes. O jantar daquela família, se é que ocorreu, teve um olhando para o outro e sentindo um vazio indescritível. 

Por hora,  é só.
Marconi Urquiza 

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Tomei um Calote



    
    Quem nunca tomou?

    Mesmo assim vou teorizar em cima de uma teoria que aprendi, isto para começar a conversar.

    Há pelo menos três tipos de calote:
    - O moral,  daquela pessoa que não paga por que é mala;
    - O material. A pessoal entrou em dificuldade.  Ficou sem recursos;
    - O moral + material. A pessoa até teria um pouco de vontade,  mas a grana anda curta.

    Ah! Tem mais um: O sacanial. Minha teoria. A pessoa não paga porque quer sacanear com seu credor.

    Em abril tomei um calote de R$ 310,00. Limpamos duas camas box e um sofá. Era a terceira vez que atendíamos essa cliente. 

    Uma dos colchões tinha uma mancha de sangue,  não saiu.  É o tipo de mancha que cai na afirmação de ser impossível a sua retirada. 

    Antes da conclusão do serviço a cliente saiu do seu apartamento e não assinou o check list final. 

    Serviço concluído,  esperávamos o pagamento.  Não pagou, conversei com ela, dei opções,  não pagou. Não quis pagar. Tive dificuldade de dialogar com ela.

    Os dias passaram e fiz algumas tentativas visita-la pessoalmente, por falha minha, não concretizei. Um detalhe relevante.  Todo o contato e negociação foram feitos pelo WhatsApp. 

    Nesses dias da inadimplência fiquei imaginando, imaginando que ela deu calote por estar sem faturar,  pois a sua renda depende da corretagem de imóveis.

    Aí,  vejo no Instagram que ela viajou para São Paulo,  foi a um evento nacional para corretores de imóveis. Faz parte do seu esforço profissional. Até compreendi. Na próxima oportunidade que for a João Pessoa vou procura-la, pensei. Sem ressalvas nenhuma.

    Na última sexta-feira me organizei para ir até essa cliente, mas a falta de foco e outros afazeres tomaram  conta da minha atenção, mas,  eis que vejo, umas dez da manhã uma postagem dela no Instagram estando no Aeroporto de Recife, eu estava em João Pessoa. Minha ação acabou ali mesmo.

    No domingo,  sou seguidor dela, vejo ela postando toda feliz fotos em Cafarnaum, em Israel. Na terça foi a  vez de aparecer olhando o Mar Morto. A semana inteira é com fotos em Israel e na Palestina. Epa!

    A viagem deve ter custado uns 3 mil dólares (Em torno de 15 mil reais), aí veio uma pergunta à minha mente, cristalina, incisiva: Por que ela não pagou?

    Por que ela não pagou o serviço?

    Sabe aquele turbilhão de pensamentos que assola uma pessoa quando se sente indignada, cheguei a conclusão que tenho todas as certezas e nenhuma resposta que esclareça o calote:

    - Não quis, pura e simples; 
    - Ficou insatisfeita com o serviço; 
    - Desejava que fosse cortesia; 
    - Naqueles dias estava sem grana; 
    - É  mal caráter.

    Só saberei a razão indo até ela. Já marquei. Dia 20.07.22, nesse dia tentarei zerar as minhas certezas.

    Por hora é só. 
    Abração,  Marconi Urquiza. 





Imagem disponível em:
https://www.mensagenscomamor.com/frases-sobre-indignacao


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