sexta-feira, 24 de setembro de 2021
Prevente Senhor
sexta-feira, 17 de setembro de 2021
A aventura do passarinho dentro da casa
Não
se sabe o que atraiu o passarinho para aquela casa. Ele chegou, pousou sobre o
muro e ficou observando. Dava um pio, outro, andou para um lado, depois voltou
e após algum tempo levantou voo, mas não foi para longe, pousou em uma
jabuticabeira que ficava no oitão da casa.
Outros
passarinhos também se aproximaram, a jabuticabeira carregada exalava o seu
perfume forte, meio azedo, o chão estava forrado de frutos.
O
passarinho ficou por ali, quando os seus amigos da natureza chegaram ele foi
para uma árvore sombreadora que ficava no jardim, no entanto, a sua curiosidade
fez ele se fixar na casa.
De
dentro da casa se ouvia as vozes alegres das crianças, um converseiro de dá
agonia, vez por outra a voz da mãe entrava disciplinando a confusão entre os
filhos. O pai estava em outro cômodo da casa, mexendo em alguma coisa. Nem ele,
nem passarinho se viam ou ouviam mutuamente.
O
passarinho, pequeno, se assustou quando um sabiá, maior que ele pousou por
perto, ele, por precaução, mudou de galho. Em certo instante sentiu o cheiro de
uma fruta aberta e seu o seu olfato o levou a mudar de árvore e ir para uma
goiabeira. Ele deu algumas picadas na goiaba, se alimentou e saiu de perto
daquele fruto, foi para uma árvore que ficava mais perto da casa.
Lá
na cozinha da casa a mãe preparava o café das crianças, ela abriu dois mamões
papaia, limpou as sementes e os cortou em cubos e os colocou em um prato sobre
a mesa da cozinha. Saiu para vestir as crianças, o pai passou pela cozinha,
saiu pela porta dos fundos e foi fazer a limpeza dos tapetes do carro. Fazia
diariamente para não encher o carro de areia e de barro, o vermelho, capaz de
encardir tudo.
Ali,
na garagem aberta, ele viu o passarinho voar e pousar na travessa do teto da
edícula. Não lhe pareceu que ele estivesse perdido.
O
passarinho parece que havia se decidido de alguma coisa. Ficou observando o
homem, que o havia ignorado, olhou para a casa e ouviu de longe as vozes
alegres das crianças sendo arrumadas e perfumadas pela mãe, para irem para a
escola. Todos prontos, camisas por dentro das bermudas e com os cabelos
penteados para trás.
O
passarinho pulou para um caibro e se aproximou da entrada da cozinha, deu dois
pulos e ficou olhando para a mesa onde estava o mamão, depois se aventurou e
voou, entrou na cozinha e pousou sobre um armário alto. Em segundos pousou
sobre a mesa e deu uma picadinha no doce mamão. Foi neste momento que a cozinha
se encheu, os três filhos chegaram junto com a mãe.
Da
garagem o pai ouviu os filhos gritarem e aquilo despertou a sua curiosidade. O
que estaria acontecendo? Quando chegou na cozinha, os três filhos estavam
correndo para a sala vizinha e depois para a varanda fechada por uma janela
envidraçada. Eles queriam brincar com o passarinho, que queria fugir e voava de
um lado para o outro na varanda, se encontrar uma brecha para sair da casa.
Quando
o pai se aproximou, ouviu da esposa: um passarinho entrou dentro de casa.
Aquele
ser miúdo estava apavorado, um dos meninos quis pegar ele, mas o pássaro se
esquivou voando entre as mãos.
O
passarinho olhava para todos os lados, mirou para o pequeno corredor e se
preparou para voar por ele, foi quando o homem apareceu e frustrou a sua
intenção.
O
pai das crianças ficou olhando aquela agonia do pequeno pássaro, que já estava
cansado, por isso se aninhou no beiral de uma porta. Cauteloso, o pai andou até
o janelão e abriu uma brecha. O bicho nem se mexeu. O homem ampliou a abertura,
o passarinho permaneceu quieto. O pai abriu as duas folhas de vidro e
escancarou a janela, deixando a brisa varrer a casa de ar fresco, mas o pássaro
ainda ficou parado. Então alguém soprou para o homem: Sai daí, e ele se afastou
da janela.
O
passarinho olhou, sentiu o ar fresco chegando para respirar, viu a família
agrupada no outro lado da varanda e se encheu de coragem. Deu um voo curto até
o beiral da janela, piou e olhou para os gigantes humanos, virou as costas e
foi pousar no galho mais alto da árvore sombreadora, de onde poderia viajar.
A
mãe chamou as crianças para tomar café. A janela ficou aberta e todos foram
para a cozinha. Logo as crianças seriam levadas para a escola e os pais iriam
para os seus trabalhos.
No
meio do café todos se voltaram para a porta dos fundos e perto dela, pousado
sobre um balanço de cordas o passarinho dava seu show de canto.
Dois
dias depois ele voltou, ao ver a família reunida, se aninhou no beiral da
janela lateral da cozinha e começou a cantar.
No
dia seguinte voltou e fez novo show matinal.
No
terceiro dia uma das crianças falou alegre: Olha pai, o passarinho é amigo da
gente!
A
partir daí o passarinho foi recebido com água fresca e alpiste.
∞
Abraço, Marconi Urquiza
sexta-feira, 10 de setembro de 2021
HATERS
sexta-feira, 3 de setembro de 2021
Vamos lá fazer o que será!!!!
Fé na vida, fé no homem, fé no que virá
Nós podemos tudo, nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será.
Gonzaguinha
Você já esteve em alguma reunião que corria alguma energia, como um rio subterrâneo, até que ele apareceu iluminando a natureza, criando vegetação e dando vida. Foi assim, foi quase desse modo, foi o que senti.
Três anos atrás fui a uma reunião parecida, de posse de uma diretoria. Naquela noite tudo curto, sisudo, muito formal e até, tenso.
Na última quarta fui com Cida, formos o segundo casal a chegar no Salão Capiba da AABB Recife. Mesas separadas, conforme o protocolo da Covid-19.
Os amigos e os conhecidos foram chegando aos poucos e sentando às suas mesas, e foram se juntando, a afinidade aflorando, a saudade matando o desejo de se reunir, de contar sobre com passaram, como estão hoje, compartilhar de sua vida.
Eita vontade de abraçar. Eita!
Os presentes, todos adultos, já puxados nos anos, presumo, vacinados. Havia entre eles amigos que não se viam a um e meio. Muitos ali já haviam rompido os dois anos sem se encontrarem, gente que se encontrava regularmente.
Eita vontade de abraçar. Eita!
A reunião prosseguiu, sisuda, como deve ser um ato solene e chegou a hora do discurso do presidente da AABB Euler, reeleito.
Euler, ao contrário de suas intervenções curtas, trouxe um texto longo, formal. Começou a ler, em certo momento, fez imagens de um sentido mais filosófico, mas o discurso foi ganhando outro tom, que a sisudez de um discurso escrito não costuma permitir e foi ganhando o colorido da emoção.
Ontem um menino que brincava me falou
Que hoje é a semente do amanhã
Para não ter medo, que esse tempo vai passar
Não se desespere não, nem pare de sonhar
Quando ele cantou essa estrofe de capela, o papel já repousava no púlpito, era na sua voz a força da esperança e da superação. Fé no homem, fé na vida, fé no que virá. Foi nesse momento que os presentes começaram a vibrar, como aquele rio subterrâneo, e os aplausos protocolares, sem entusiasmo, foram ganhando o colorido da vida e já não eram mais de pessoas educadas, mas de fãs. E a energia correu todos nós.
Fé na vida, fé no homem, fé no que virá
Nós podemos tudo, nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será
Vamos lá fazer o que será
Viva a saúde!
Viva o vento! Viva a vida!
Clique no link e veja o vídeo com Erasmo Carlos cantando a canção.
sexta-feira, 27 de agosto de 2021
Abuso, abusado, abusivo
A primeira vez que li algo a respeito eu fiquei, assim, meio parado, refletindo sobre o conteúdo. Era como se tudo tivesse se juntado em uma palavra: Tóxico.
Tóxico. Era assim que papai falava sobre pessoas viciadas em drogas, especialmente a maconha, nos anos da década de 1960 em diante. Outras drogas ilícitas não estavam ainda infestando por Bom Conselho, naqueles anos da minha infância.
O tempo passou e um estudioso do trabalho escreveu sobre ambientes do trabalho tóxicos. Aqueles ambientes que provocam tanto desconforto que levam ao adoecimento psíquico de muita gente e o sofrimento mental para a muita gente.
Ansiedade, insônia, alcoolismo, isolamento, irritabilidade, baixa produtividade, entre outros problemas.
Na esteira que aquela leitura me despertou, vieram outras e mais outras, até que li sobre a Síndrome de Burnout. Em uma imagem simples e direta, é como se a pessoa queimasse por dentro como um fósforo aceso.
Tempos depois, esbarrei em uma matéria sobre comunicação não violenta. No contraponto disso, a comunicação agressiva é bem comum. Não precisa gritar, até em voz baixa pode se xingar, diminuir a autoestima, minar a confiança.
Hoje se sabe que a violência doméstica, física, vem precedida da comunicação violenta. É um processo lento e crescente de abuso entre pessoas. É semelhante ao que ocorre na parábola do sapo que ferve junto com a água, sem que esboce qualquer reação. A temperatura vai subindo e o animal morre sem fazer nenhum movimento para sair da panela.
Vários anos se passaram até que definisse uma percepção, a partir de uma lembrança de um jogo de futebol.
Em 1995, nós fomos jogar futebol de salão em uma cidade vizinha. Em certo momento, um jogador foi ao árbitro e disse que estava levando pancadas de um adversário. O árbitro fez ouvidos de mouco.
Na jogada seguinte levou outra e compreendeu que do árbitro não haveria nenhuma ação.
O tempo correu e o jogador, que gostava de ser duro levou uma trombada que o jogou no chão. O que deu o troco, olhou para o árbitro e esperou que ele apitasse falta e até o advertisse. Não apitou e o jogo prosseguiu sem que aquele, que andou lhe dando pancadas, tentasse de novo lhe machucar.
Mais de 20 anos depois, estava em casa, muitas recordações vieram na esteira da reflexão sobre relacionamentos abusivos, após ver uma sucessão de notícias sobre feminicídios.
Puxei o assunto na hora do café, em uma das conversas se falou de uma pessoa pública, notório por não respeitar limites. E dá indicações que o que coloca um freio momentâneo nas suas atitudes, é uma reação na mesma altura da sua agressão.
O modo abusivo de ser é desse modo, não adianta contemporizar, pois lhe dar força para o seu comportamento. É não deixar o medo tomar conta, mesmo em desvantagem. Sobretudo, não tentar agradar o abusador, que quase sempre interpreta isso como fraqueza, aumentando a sua maldade.
Esse tipo de pessoa é como se estar diante de um vampiro, ele se move e se sente forte ao sugar o nosso sangue espiritual. Não é para se consolar e parar de lutar, tal pessoa, vai sempre atrás de uma vítima, pois é um predador.
Às vezes a luta parece impossível, se isto é o que se tem no momento, se prepare, pode ser que tenha que ter uma reação “abusiva” para se livrar do abuso.
Há um risco, o risco de se tornar uma pessoa abusiva ao reagir. Mas isso é comigo ou com você e não com o abusador.
Abraços, Marconi Urquiza
sexta-feira, 20 de agosto de 2021
UM GÊNIO BONDOSO
Às vezes a
gente não se dar conta que conviveu com um gênio e destes, de bom coração,
altruísta. Essa constatação só veio muito tempo depois, muitos anos já havia se
passado desde o primeiro encontro.
Vou correr na memória e parar em um
Sete de Setembro. Acho que foi em 1969. A época está imprecisa, a memória forte.
O desfile de Sete de Setembro em Bom
Conselho havia se transformado em um evento, evento que atrai, até hoje, multidões para vê-lo. E isto começou com essa pessoa.
Desejando ver o desfile, eu saí de
casa e corri para a praça, arrumei uma vaga em cima de um banco e fiquei vendo as escolas desfilarem. De repente, um grupo de estudantes, vestidos com batas, como
cientistas, vinha trazendo a representação de um foguete em um balão. Tudo
artesanal. Pode ter sido o foguete Apollo 11. Não sei o que plateia sentiu, eu
fiquei extasiado.
O pelotão de cientistas caminhou
mais um pouco e entrou a banda marcial. Quando ela tocou e bailou, com seus
membros tocando e fazer coreografias o público vibrou.
Pense que ela foi embora? Acho que
ela ficou de lado, tocando até todo o colégio passar.
Foi o primeiro espetáculo popular
que assisti.
Anos depois o conheci como
autoridade. Diretor do colégio estadual. Um ser inquieto, enorme nas boas intenções e um líder, que só vim a
me dar conta, quando tentava ser um.
Muito, muito tempo depois, eu soube
que ele estava vivendo em Catolé do Rocha, na Paraíba e eu e Cida morávamos em
Caraúbas, RN. A 70 quilômetros.
Na manhã de um sábado o encontramos.
Nos recebeu com um sorriso discreto, conversamos um pouco. Eu o achei triste.
Logo depois saiu mostrando às suas criações, detalhando em cada quadro a
técnica utilizada, como se nós entendêssemos daquilo.
Mas ele era mesmo assim, fazia
questão de incluir as pessoas.
O tempo passou e nós fomos visita-lo
em Bom Conselho, para onde havia retornado uns 15 anos depois. De novo, ele nos levou a um ateliê, onde ensinava a jovens, a técnica de construir vitrais com cacos de vidros.
Cada obra linda. Outra vez nos deu uma aula de como utilizar a técnica. Estava
contente por ter formado vários jovens, entre eles, mais de um já se desenvolvia como
profissional. A sua alegria era visível. Feliz.
Saí do encontro contente. No dia
seguinte ele chegou na casa do meu sogro, coisa que fazia todos os sábados. Neste dia,também quis saber se o cunhado Pedrinho, que morava em Natal, havia chegado.
Cinco minutos de conversa, cinco
minutos de alegria e foi cumprir as suas missões de vida.
Encostei no portão e fiquei vendo a rua e seus transeuntes, quando ele voltou com o carro na direção do centro da cidade, ao passar por mim, levantou a mão em despedida e sorriu.
Posso dizer uma coisa, ele fez a diferença para várias gerações e para toda a cidade.
Fiquei por ali refletindo. Só tardiamente reconheci que Frei Dimas era um gênio. Um gênio bondoso e compassivo.
Viva Frei Dimas. Um ser que com suas atitudes passou a vida iluminando por onde ia.
Abraço, Marconi Urquiza
sexta-feira, 13 de agosto de 2021
AMBOS TINHAM RAZÃO
Estava sem assunto, nas últimas duas
semanas ando tão voltado para esse novo trabalho que não sobra espaço no pensamento
para criar textos significantes. Pode-se dizer que estou em uma seca criativa.
Mas essa semana ocorreu algo, comum
para muita gente e forte para nosso pequeno grupo de amigos. 9 pessoas. Um se
irritou e saiu.
Desde a saída dele, dentro do grupo
de Whatsapp, ninguém havia postada nada e nem comentou sobre a sua atitude. Poderia
entrar no detalhe e traçar um longo histórico de postagens, onde expressa a sua opinião
sobre o momento político. Em outros instantes, tentando dissimular,
usou o argumento que portador não merece pancada. Aqui e ali, alguém dizia algo
que o contrariava e à sua visão de mundo. Eu fui um. Várias
vezes.
Ontem, quando me deslocava de casa para a AABB Recife, lembrei de uma frase, que era mais sonora que a que vou escrever:
"Não se argumenta com radical, não peça calma a cliente irritado. Ambos vão
explodir".
Aí, ao abrir o Whatsapp do grupo e vi que um dos amigos postou uma frase de Fernando Pessoa, linda, que lida com espírito calmo, pode
trazer o bom senso e a conversa para um tom de ser apenas opiniões diferentes.
Olha que coisa maravilhosa:
“Encontrei hoje em ruas,
separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado. Cada um me contou a
narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me
contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era
que um via uma coisa e outro outra, ou...”
Estimulado por ter lido tanta
sabedoria, corri e fui procurar no mesmo site algo significativo, nem pensei, peguei
uma frase de Millôr Fernandes e postei:
“Ninguém sabe o que você ouve, mas todo mundo ouve muito bem o que você fala”.
Onde as duas se complementam?
Foi isso que me levou algumas horas, o caso batendo cabeça nas minhas lembranças.
Amigos ou ex-amigos que se prezavam.
Bons de conversa, os vi conviver com papos alegres, encontros felizes.
O
que ou por que opiniões reiteradas e divergentes provocaram tal conflito?
Sabe,
a frase de Fernando Pessoa me levou a recordar de uma quase briga, física, aos murros, pois dois homens
se irritaram a um ponto, que um, para não se esmurrar com o outro foi embora. Não
houve nenhuma agressão, apenas divergência de opinião e "um deles queria ser o
dono da razão", e o outro, "tinha certeza que estava com a razão".
Muito tempo depois, eu ouvi essa frase, em resposta a uma grosseria dita:
"Você diz o
que quer e, ouve o que não quer!"
Tal
frase me acompanha desde então. Se expresso um ponto de vista, devo estar preparado
para ter pessoas que vão dizer a sua opinião. Pode ser a favor, neutro ou contra o que se pensa naquele momento.
Então,
é assim. Os dois amigos têm razão em opinar, só falta o que saiu do grupo querer
conversar.
Não subestime uma amizade, nem superestime uma divergência. Em qualquer circunstância, se apoie na humildade.
Abraço, Marconi Urquiza
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