Um
xícara de café expresso, um chope escuro. Da incompatibilidade nasceu essa
história.
Meio
dado a falastrão, Querêncio chegou atrasado no futebol e ficou no banco. Viu os
amigos correrem durante meia-hora. Entrou a segunda pelada e ele continuou
esperando. Perdera a vez, havia agenda para a primeira pelada, mas seu atraso
lhe jogou para o fim da fila.
Quando
começou a jogar viu alguns amigos mais chegados indo embora. “Hoje não ter
ninguém para tomar uma cerveja”. Os que estavam jogando com ele eram meros
companheiros de peladas. O máximo de intimidade era o protocolar: “Como vai?”
Desejava
contar a novidade que descobrira no Shopping Boa Vista. “Fica para depois,
aquele quiosque tem vida longa com o seu chope saboroso”.
Após
o final da pelada, ele tomou banho, arrumou as suas coisas para ir embora, mas
caiu na tentação:
−
Júnior, traz uma Origina gelada.
−
Quantos copos?
−
Só para mim, os amigos já foram – Querêncio respondeu com uma ponta de
frustração na voz.
−
Se o senhor vier na sexta, seu Valter costuma ficar para tomar duas cervejas.
−
Beleza, vou chegar para a primeira pelada.
−
Que aquele tira-gosto?
−
Depois, mas hoje vou de espetinho. Tem?
−
Frango, frango e queijo, carne e queijo.
−
Tá bom. Quando eu pedir traga o de frango e queijo.
Deu
um sorriso chocho, pois havia se lembrado do dono de uma galeteria de frango
defumado, pois certa vez ao pedir um frango inteiro, foi corrigido por esse
homem: “É galeto. Mas tem frango aqui, ali e lá dentro”. Pensou em dizer que
ele era preconceituoso, mas deixou para lá.
Tomou
a primeira cerveja, pediu a segunda. Tomou mas um copo e no final dele veio:
“Puta merda, que chope bom aquele. Sábado vou lá tomar duas canecas”.
Chegou
a sexta-feira e se ele se encontrou com Valter.
−
Vamos tomar uma hoje?
−
Vamos na quarta, amanhã vou viajar.
−
Tá bem.
Péricles
foi passando:
−
Toma uma hoje?
−
Tomo, até sete e meia.
Eles
sabiam que a limitação de horário se devia a Lei Seca. Seis e meia da noite
sentaram para aquele hora de bate-papo regado à cerveja. Lá pelas tantas,
Querêncio disse:
−
Vamos amanhã lá no Shopping Boa Vista tomar um chope?
−
Quem sabe. Me liga amanhã cedo. De repente eu convenço a mulher de ir no
supermercado sozinha.
−
Tá bem, vou ligar.
−
Pode ligar.
Cada
um bebeu seu copo de cerveja. Mas agora era de Heineken. Na garganta de
Querêncio desceu amargando, mas desceu gostosa.
−
Essa cerveja bem gelada, como essa, é muito boa – comentou Péricles.
−
É mesmo. Demorei a me acostumar com ela. Mas agora estou gostando. Só não
aguento beber quando esquenta. O amargor aumenta muito.
−
Só presta bem gelada – disse Péricles.
−
Que comer alguma coisa? – Falou Querêncio.
−
Não, daqui a pouco vou jantar.
−
Beleza.
Querêncio
sentiu que o assunto estava acabando. “Rapaz, vou cutucar ele, se não, nem
chega na saideira”.
−
Péricles, sabe esse chope do Shopping da Boa Vista?
−
Sei.
−
Olha, eu nunca havia tomado um como aquele. É bom demais!
−
Eu gosto de chope, mas até agora para mim são dos todos iguais. Só muda a
marca. Até um da Heineken que tomei em Santiago tinha gosto dos daqui, nem
parecia com o gosto da cerveja.
−
Não, amigo, esse é muito diferente, pois andei por outros lugares que vendem
chope e o gosto é igual. Acho que a Brahma está experimentando um novo sabor.
−
Será? Pode ser. – Péricles se lembrou das vezes que geriu programas pilotos de
alguma melhoria no seu trabalho.
Terminaram
aquele cerveja. Querêncio sentiu que Péricles estava para sair, então disse:
−
A saideira?
−
Só essa.
Beberam
rápido. No estacionamento Péricles chamou Querêncio.
−
Vamos, eu dou carona. O caminho para minha casa é o mesmo da sua.
Cinco
minutos depois:
−
Amanhã te ligo – disse Querêncio.
−
Beleza.
−
Até.
−
Até.
No
dia seguinte Querêncio ligou, mas Péricles não pode ir. Dez horas Querêncio
chamou a esposa:
−
Mirna, vamos no Shopping Boa Vista?
−
Eu quero tomar um chope bom que tem lá. Chope escuro.
Meia-hora
depois saíram, faltando dez para as onze horas da manhã, Querêncio chegava nos
bancos altos do quiosque de chope.
−
Quero um chope escuro.
Em
minutos a caneca estava à sua frente. Com os lábio gulosos tomou um gole
grande. “Tá diferente”. Terminou aquela caneca, pediu agora uma tulipa. O gosto
não mudou. A decepção começava a chegar.
−
Pode me trazer uma tulipa de chope claro?
−
O senhor que algum petisco?
−
Não, agora não.
A
atendente colocou na sua frente o chope claro. Bebeu devagar tentando encontrar
as “notas do sabor especial”. Tomou apenas a metade da tulipa e não se
aguentou:
−
Moça, trabalha aqui há muito tempo?
−
Trabalho, um ano.
−
Sabe o que é? Eu vim aui há uns dois meses e tomei um chope tão bom, mas tão
bom que estou estranhando esse sabor.
−
Não mudou nada. Olhe aqui – e mostrou os barris de chope.
−
Tá. Acho que me enganei – evitou prolongar àquela conversa, pois não desejava
passar por tantã.
−
Moça, traga um pratinho de pão de queijo.
Aquecidos
no micro-ondas, em um minuto os seis pães estavam prontos para serem
degustados.
−
Traga mais um chope claro e também a conta – pediu Querêncio.
O
sabor marcante dos pães de queijo engoliu por um momento o sabor do chope e da
sua lembrança.
Saiu
do quiosque disfarçando a sua decepção. “Ainda vem que Péricles não veio. Ainda
bem”. Um pouco depois se encontrou com a esposa.
−
E aí? Saciou a vontade?
−
Não. Tô só de barriga cheia.
−
Só?
−
Só. O que vim buscar não tinha e parece que nunca teve.
−
Vá!
−
É, pela conversa da moça que atende tá tudo igual desde que ela começou a
trabalhar lá.
−
Ôh, Querêncio! O que você queria mesmo?
−
O que eu queria? – Ele repetiu a pergunta um tanto alheio.
−
Acorda, homem! O que vocês estava a fim?
Com
um ar de sonhador, muito sonhador, respondeu:
− Do chope caramelado.
−
Chope caramelado... E tem esse tipo?
−
Um dia teve e eu bebi. Não tem mais. Vamos, dirija, estou cheio de chope.
Mirna
saiu do estacionamento, pegou uma ruazinha, a Corredor do Bispo e foi dirigindo
devagar por várias ruas estreitas cheias de carro dos dois lados. De relance
olhou para o marido, viu que ele tentava achar a resposta do sonho do chope
caramelado.
Mirna
sinalizou e entrou à esquerda na Visconde de Suassuna. O trânsito no sábado
estava tranquilo. Dirigia sem pressa. No sinal da Avenida João de Barros ela ouviu
um murmúrio.
−
Disse alguma coisa, Querêncio?
−
Pensei.
−
Saiu de sua boca umas coisas que não entendi.
−
Deve ter saído.
−
Certo. O que você pensou?
−
Pensei... Pensei...
−
Diz logo, homem!
−
Vou dizer.
O
sinal abriu e Mirna se concentrou em dirigir, só teria sinal um quilômetros
depois e logo atravessariam a avenida mais movimentada do Recife.
Chegaram
no Parque Amorim. O sinal Para cruzar a avenida estava fechado.
Mirna
estava impaciente:
−
Vai dizer ou vai ficar nesse suspense.
Um
sorriso meio debochado apareceu no rosto de Querêncio antes dele falar.
−
Olhe, a uns dois meses nós fomos no Shopping Boa Vista. Lembra que lanchamos e
eu tomei uma enorme xícara de um café caro na São Braz? Lembra?
−
Lembro.
−
Você foi fazer umas compras e eu resolvi ver uma livraria. Depois de alisar os
livros em sai e vi o quiosque de chope...
−
E tomou um bocado de chope.
−
Só tomei três. Vai querer arengar agora, é?
−
Vai conta, estou curiosa.
−
Tá. Cheguei lá, pedi um chope escuro e veio um sabor gostoso. Saboroso. Como
diz esse povo que gosta de botar sabor café, um negócio de notas disso, notas
daquilo. Pois bem, o meu chope tinha gosto de caramelo.
−
Pronto, ouvi, mas você não me disse como esse chope estava com gosto de
caramelo.
−
Não tenho outra explicação. A minha boca misturou os gostos e transformou
aquele chope em chope caramelado.
−
Eita, que invenção! – Disse Mirna.
Querêncio
apenas sorriu, desta vez feliz, pois havia sentido o sabor inigualável do chope
caramelado. A sua iguaria única. Só quinze anos depois é que algum cervejeiro
com gosto pelo café andava tentando inventar uma cerveja caramelada. Bem que
poderia chamar Querêncio para ser degustador.
−
Mirna, pode acreditar, foi uma invenção da boa.