Não é um título original, peguei emprestado de Marcela Guimarães.
Há algum tempo,
antes deste maio, havia lido alguma coisa a respeito do tema. Não sei dizer o
que li com clareza, só recordo o contexto e o assunto.
O
texto de Marcela é que me deu o título da crônica. O
artigo está na revista Continente, de setembro do ano passado. A matéria fala
de um projeto de uma zine, um tipo de revista eletrônica, criada pela autora, que é
fotógrafa.
Por
causa da pandemia, chegaram ao mesmo tempo as revistas represadas durante vários
meses. Essa, abri a cerca de um mês, sabe, li com aquela agonia dos tempos
atuais, passando por cima das frases, olhando basicamente as imagens e suas
legendas. Uma típica leitura da internet, três linhas, já se pula para outra
postagem.
Mesmo
assim, o assunto não foi para a porta de saída, sentou-se na sala como um
visitante insistente. Muitos dias após a primeira e apressada leitura essa
visita se levantou e disse:
- Olha,
veja de novo. Está muito interessante - peguei, folheie e pus a revista
no meio das outras. O visitante permaneceu invisível até dois dias atrás, foi quando reabri a revista e lá veio ele de novo:
- Pode
ler, vai gostar - então li, lendo.
O
texto perpassa aspectos culturais, sociais, femininos, masculinos, argumentos
sobre saúde e higiene. Sem deixar de citar que é também um negócio.
Ao ter atenção para a matéria fiz uma viagem na minha própria estranheza de menino adolescente, quando em certo momento dos meus 13 anos vi os primeiros pelos pubianos nascendo, da vergonha de ser visto minha mãe ao tomar banho com meus irmãos e ela me olhar nesse novo corpo.
Andando
na rua, na adolescência dos anos 1970, achava estranho que muitas meninas
tivessem vastos pelos nos braços e nas pernas. Algum tempo depois observava
nessas pernas as marcas da raspagem à Gilette[1].
Até percebia em várias outras, que os pelos dos braços estavam descoloridos com o uso de água oxigenada volume 20.
Lembro de um arquétipo da minha adolescência entre os rapazes da minha terra, que era o uso do bigode. Quanto mais vasto, mais apreciado. Havia também o uso da barba. Eu não tinha nenhuma dois em abundância. Na barba desciam uns pelos espaçados pelos lados do rosto, que a muito custo se pareciam com costeletas. Para bigode, coitado, era uma risca de giz de preto. Uma coisa mínima. Ainda assim, insisti em usar.
Voltando
ao texto de Marcela, me situo na parte em que a autora observa como as mães levam
as filhas ao ginecologista, como as orienta a se depilarem, em alguns casos,
até antes dos 15 anos.
Uma questão cultural se formou. Mais à frente, a matéria remete a outros aspectos: influência de namorados, maridos, amantes, da sociologia do trabalho, entre outros. Impondo, mesmo para quem não queria tanto, um padrão sem pelos para as mulheres a ponto de provocar dificuldade de se realizar o exame toxicológico para as motoristas profissionais, pela ausência de pelos a serem coletados.
Marcela
incorporou várias fotografias na matéria, a maioria de axilas. Também nessa
altura da leitura recordei de um certo estranhamento de minha parte. Vejam. Os
homens não usam camisetas com frequência, as mulheres usam muitas blusas sem
mangas, de alças. Ao se ver em público pelos nas axilas, isto entrou naquele estado
mental de olhar diferente por causa da cultura da depilação feminina, também
assimilada pelos homens. É como uma afronta aos cânones visuais do nosso tempo.
Muitas
vezes apenas expressar um ponto de vista pode nos tornar vítimas de
impropérios, de perseguições, do ódio insano que se vê a todo instante. Mesmo
em algo tão pessoal, como optar por ter ou não pelos expostos, pode parecer “uma
grave infração penal”. O que tende a tornar mais conveniente ou seguro se esconder ou
seguir a ordem das massas. O danado é que às vezes isso se torna inevitável.
Muito
se fala das tribos, do modo exponencial que cresceram no ambiente da internet.
Tornou-se mais fácil se juntar as pessoas com as mesmas predileções e
radicalizar contra quem pensa e age diferente.
Como
tantas outras crenças limitantes que recebemos pela vida, ser o que se deseja,
ou usar o que se quer, gera impacto na nossa vontade. Fazer cara de paisagem
não é uma tarefa fácil, mas pode ser a alternativa de se ser o que se deseja.
[1]
Gilette – Marca da lâmina de barbear.
Ótimo final de semana
Marconi Urquiza
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Perfil no Instagram (mais visual)
https://www.instagram.com/mulheresadultastempelos/
Link da revista eletrônica(visual e com depoimentos):
Revista: Mulheres adultas têm pelos
Link da matéria na revista Continente (artigo completo):
Mulheres adultas têm pelo





