sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

2021 - A VERDADE EXISTE?


                                    Disponível em: https://www.justificando.com/2018/11/30/a-era-da-pos-verdade-e-seu-antidoto/

    Não sei se ocorreu com você, se ocorreu saber de um fato e ficar doidinho para conversar com um amigo, com uma amiga, com uma pessoa que vai compreender o que você pensa. Compreender, que não significa concordar.

    Nesta semana li uma frase que me deixou doidinho, como eu queria conversar com dois ou três amigos sobre aquela frase, como eu queria ouvir deles os seus pontos de vista! Mas é impossível, devo me contentar apenas em expressar o meu pensamento, a minha visão e não a minha verdade.

    Uma vez, em uma conversa com um amigo, nela a gente discutia sobre a frase: "Verdade dos fatos". Ele sabiamente me retrucou ao dizer que não existia verdade, apenas fatos. Não aceitei, fiz uma série de argumentos e em certo momento entrou outro assunto e a verdade ou a verdade dos fatos saiu da moda.

    Com o passar dos anos, com a maturidade engrossando a pele, e fatos e mais fatos se sucedendo, a "verdade" virou apenas um vocábulo. "Verdade" passou a ser o que se comunica. Se não há contestação, ou quem ler, ou ouvir, ou ver e não duvida, temos aí uma "verdade".

    Muitos meses atrás, estava me preparando para escrever um romance e comecei ler livros, artigos, tudo que me ajudasse a construir o enredo. Até comprei alguns livros. o primeiro  a ler foi: Sobre a Verdade, de George Orwell. É composto por vários artigos em que ele critica a imprensa, os governos da Inglaterra, critica as meias verdades, as verdades distorcidas. A omissão de quem poderia comunicar, o que fato seria o fato, não o fato comunicado.

    A parte visível daquele iceberg na trama serão as Fake News. O desejo é desenvolver a narrativa indo para as motivações de quem divulga, de quem estimula, cria, de quem, sem meter a mão, lidera as Fake News. Tudo isto se confrontando com os efeitos, reais, "não verdadeiros", nas vidas dos atingidos.

    Bem, aquela frase que citei no início desta crônica é essa: "A verdade nunca escapa... Se ela não aparece no que é dito, ela transborda no que é feito" (Gilberto Nunes - Psicanalista).  Foi essa frase que transformou a minha semana, o meu pensar, as minhas reflexões. 

    No Brasil, a maior criadora de "verdades" de todos os tempos foi a operação Lava Jato. A imprensa foi o grande instrumento utilizado para propagar essas "verdades". O instrumento da "verdade", melhor, a ferramenta "verdade". Ferramenta. Ferramenta da indução de nossas percepções.

    Pois bem, é a ferramenta por excelência da comunicação. Mera ferramenta de convencimento, que vem desde  a criação da propaganda política, nos trazendo a "verdade verdadeira". Com nome e sobrenome. Os fatos são outros quinhentos.

    Lembrando da frase e pensado em uma realidade brasileira, cheguei à conclusão que as palavras da Lava Jato transbordaram. A "verdade", aqueles fatos reais vieram em borbotões e muitos de nós, muitos negamos o que lemos, o que foi divulgado. Onde estarão os fatos? São reais? Isto é, são de "verdade?" 

    A verdade existe?

    Aí veio a pandemia da COVID. Mas que "merda!" "Ninguém foi enganado, você ouviu tudo isso antes". É o novo mantra, a nova "verdade". Ninguém foi enganado, se votou por que se quis. Foi auto engano? Ou a demonização de um grupo e de seus adeptos que nos convenceu? 

    As palavras transbordaram e negar sempre é mais fácil que aceitar o real, das palavras que viraram uma enxurrada que estão mostrando o caos no Brasil.

    Se eu pudesse viralizar a frase que me motivou a escrever esta reflexão, a repetiria com frequência. Repetiria antes, bem antes de cada eleição, insistiria, insistiria desejando motivar as pessoas a refletirem antes que as nossas armadilhas naturais sejam ativadas por argumentos manipuladores, fazendo com que certas crenças se transformem em votos.

    Por fim repito a frase atribuída ao senador americano Hiram Johnson: "Em um estado de guerra, a primeira vítima é a verdade". 

    A crítica, a reflexão, agora é com cada um.    


    Semana Iluminada,
    Marconi Urquiza

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

CEM ANOS DE PERDÃO



Este conto, que mais se parece com uma crônica, o que ele tem de especial para mim?

Em algum momento da minha infância eu brinquei com os brinquedos elétricos de meus primos, brinquei com seus carrinhos de plástico estilosos, e senti uma inveja danada por eles serem da capital. Mais que isso, como eu cobicei os seus brinquedos. Como eu os queria para mim!

Muitos anos depois, eu comprei três carros de corrida, à pilha, e quando os meninos dormiam, eu é que ia para a varanda brincar com aquela Ferrari, dando cavalo de pau no piso encerrado.

Este conto me trouxe a lembrança: Eu também tive meu carrinho "elétrico", mesmo aos 34 anos.

Com vocês Clarice Lispector, com a sua enorme sensibilidade.

Semana Iluminada,
Marconi Urquiza
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CEM ANOS DE PERDÃO

Quem nunca roubou não vai me entender. E quem nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender. Eu, em pequena, roubava rosas.

Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes. “Aquele branco é meu.” “Não, eu já disse que os brancos são meus.”

“Mas esse não é totalmente branco, tem janelas verdes.” Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades, olhando.

Começou assim. Numa das brincadeiras de “essa casa é minha”, paramos diante de uma que parecia um pequeno castelo. No fundo via-se o imenso pomar. E, à frente, em canteiros bem ajardinados, estavam plantadas as flores.

Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo.

Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria, ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la. Se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques. Não havia jardineiro à vista, ninguém. E as janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume.

Então não pude mais. O plano se formou em mim instantaneamente, cheio de paixão. Mas, como boa realizadora que eu era, raciocinei friamente com minha amiguinha, explicando-lhe qual seria o seu papel: vigiar as janelas da casa ou a aproximação ainda possível do jardineiro, vigiar os transeuntes raros na rua. Enquanto isso, entreabri lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido. Entreabri somente o bastante para que meu esguio corpo de menina pudesse passar. E, pé ante pé, mas veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam os canteiros. Até chegar à rosa foi um século de coração batendo.

Eis-me afinal diante dela. Paro um instante, perigosamente, porque de perto ela ainda é mais linda. Finalmente começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos.

E, de repente – ei-la toda na minha mão. A corrida de volta ao portão tinha também de ser sem barulho. Pelo portão que deixara entreaberto, passei segurando a rosa. E então nós duas pálidas, eu e a rosa, corremos literalmente para longe da cas

O que é que fazia eu com a rosa? Fazia isso: ela era minha.

Levei-a para casa, coloquei-a num copo d’água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.

Foi tão bom.

Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava.

Também roubava pitangas. Havia uma igreja presbiteriana perto de casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão densa que impossibilitava a visão da igreja. Nunca cheguei a vê-la, além de uma ponta de telhado. A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se escondem: eu não via nenhuma. Então, olhando antes para os lados para ver se ninguém vinha, eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-a dentro da sebe e começava a apalpar até meus dedos sentirem o úmido da frutinha. Muitas vezes na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura demais com os dedos que ficavam como ensanguentados. Colhia várias que ia comendo ali mesmo, umas até verdes demais, que eu jogava fora.

Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.

– Clarice Lispector, no livro “Felicidade clandestina”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Pinceladas de Amor

      Um irmão ligou para uma das irmãs e disse: "Olha, isso aqui tá uma bagunça!" Dias depois essa irmã foi naquele local e constatou a desordem.   Estavam amontoados: roupas, medicamentos, móveis, objetos pessoais, fotografias, postais, tudo. Restos de lembranças, restos de afeto, Pinceladas de amor.
     
    Uma das irmãs voltou com os restos de uma fotografia em forma de painel, a outra levou pequenos objetos da mãe. Um baú era para o irmão mais velho, lembranças do pai. Pinceladas de saudade.

    Algum dia, 48 anos antes, cinco, dos sete irmãos entraram. De adolescentes a crianças, entraram naquela casa. Nos anos seguintes, outros dois se juntaram:  irmão e irmã.

     A casa. Gradeada, garagem, varanda, salas, a mesa onde todos faziam as refeições. As namoradas, os namorados foram chegando, netas e netos preenchendo o afeto, gritando e brincando, enchiam de sons a casa.
     
     As pinceladas de amor cresceram.

     A casa foi modificada, mais bonita, mais aberta. A mesma casa, uma casa diferente. Dos primeiros moradores, restaram três. Dois se foram, a casa ficou do tamanho do mundo. Gigante, vazia, sem alegria, sem gente a lhe dar voz, cheiro, presença. O amor agora chora. As lembranças eram de uma saudade irremediável. 

    Juntou-se tudo, de qualquer modo e levaram dali. O choque daquilo tudo junto, colocados sem os cuidados. Sem os sentimentos entranhados na alma. Olhar triste que exprimia o afeto incompleto. Quem os levou, quem os arrumou de qualquer jeito não captou, não poderia captar quanto de amor todos aqueles objetos, inanimados, tinha de vida. 

    Alguns buscando pedaços que lhe trouxessem afago para o peito. Pedaços de objetos, das lembranças que enchessem os corações. 
  
    Vida morta, vida posta, vida que segue. "Olha, isso aqui tá uma bagunça". Era o coração chorando, com as lágrimas escondidas sob uma constatação. Eram as Pinceladas de amor teimando para não serem caiadas (*).

Pinceladas de saudade,
pinceladas de Amor.
Lembranças que se entranham,
lembranças que se ama.
Pincelados de amor,
Pinceladas de Saudade.

Semana Iluminada.
Marconi Urquiza

(*)
Caiadas. Caiar: pintar, encobrir com tinta derivada da Cal Virgem.

Pinceladas de uma família 

Fotografias de agosto de 2009.















Da esquerda para a direita.
 Filhos: 
1ª fila: Washington, Aparecida, Michele, Nivaldo, 
2ª fila: Sueli, Maria Luíza, Pedro. 
Sentados: José (Seu Zé Barros) e Dona Judite.

Fotógrafo: Creio, ter sido eu mesmo.

    

Da esquerda para a direita.
Netos: 
1ª fila: Philip Urquiza, Raphael Urquiza, Igor Gonçalves Costa, Victor Urquiza.
2ª fila: Bhianca Lins, Fernando Ferro, Tanagra Ferro, Victor Ferro.
3ª fila: Maria Clara Rabelo, Paloma Gonçalves Costa, Ana Luíza Rabelo, Raina Gonçalves Costa
4ª fila:  Thiago Lins, José de Araújo Costa (Zé Barros), Raissa Azevedo Costa, Dona Judite Leonília de Azevedo.

Atrás da câmera: Eu.

     

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Resiliente como vara de marmeleiro

 

Um dos maiores exemplos de fora interior
Nelson Mandela

   Ouvi na infância que devemos ser como vara de marmeleiro, que entorta mas não quebra. 

    A crônica desta semana não é um texto memorialista ou literário. Esta mais próximo de uma reflexão.
   
    Algumas vezes eu recebo pedido para escrever sobre algum tema. Um amigo me pediu para escrever sobre derrota e resiliência.  Disse-lhe que já começaria a pensar no assunto.  Naqueles minutos de nossa conversa pelo Whatsapp eu estava em processo de revisão e ajuste do romance A Puta Rainha.  Uma tarefa de compilação.  Minutos depois fui tomar água e encostei a barriga na meia parede da área de serviço. Fiquei ali olhando a avenida,  os prédios do bairro Rosarinho.  

     Eu pensava no tema colocado pelo amigo, de repente, como em outros momentos, veio o início da escrita. Saí acelerado para não perder aquele impulso inicial. Assim nasceu um CONTO (link do final).

     Depois fiquei refletindo. O melhor seria que a gente vivesse sempre com o olho no real, sem alimentar expectativas sonhadoras ou nenhuma. E que dentro desse real estivéssemos preparados emocionalmente e economicamente para os infortúnios.  Que o plano B não fosse apenas um desejo, que desde sempre ele funcionasse em paralelo. Possivelmente, a resiliência seria mais fácil e rápida. 

     Mas, como seres normais, que às vezes até percebe que alguma tempestade está chegando, no entanto tem a emoção,  dentro dela a negação.  Isto aconteceu comigo, a minha auto ilusão me custou muita dor e exigiu muito mais energia para escapar do buraco perigoso de uma depressão. 

     A resiliência deve ser um processo,  maduro, refletido,  pensado de modo constante,  trabalhando alternativas realistas, olhando o mundo como ele é. 

     Como ela não é um processo mental aleatório,  pode ser que a pessoa necessite de ajuda, é fundamental reconhecer e ter humildade quando sentir que sozinha o caminho vai ser um buraco sem saída. 

     Mas a resiliência é também um ato de fé, daquela fé que move uma pessoa na busca pela luz, que produz calma e que pode rege-la na busca pela superação. 

     Há outro fator, que ajuda na resiliência, é se manter vigilante.  Nas relações abusivas,  seja no assédio moral,  sexual no trabalho. Seja em um convívio de alguma casa (não lar), o abuso é um fator paulatinamente crescente, por que uma esperança vã toma o lugar da vigília.  Em algum momento o medo toma conta de tudo, inviabilizando qualquer reação. 

    Esse é outro fato a quebrar a resiliência. O medo insano, o doentio. Por isso é necessário se manter atento e reagir antes que uma paralisia emocional acorrente qualquer espírito de luta. 

    Essa foi uma das grandes dificuldades que tive de tratar deste tema. Pois ser resiliente, para mim, é usar um conjunto de atributos. 

     Se de todo modo, não se imaginar um caminho para ser resiliente, use a Santa Teimosia, aquela que está no fundo do coração,  aquela que é significante para ter um sentido de vida.   

Pois bem:

   Paz, não é ciência,
       Sentimento menos ainda.
       Conhecer não é ter sapiência,
       Caindo precisa se levantar,
       Para superar recorra à resiliência.

       
Semana Iluminada, 
Marconi Urquiza 

EIS O CONTO:

A paz desejada

 A PAZ DESEJADA


Algum dia, em algum momento, France acordou com um sonho que dizia que seu pai morreria. Foi forte, naquela manhã não se assustou.

Vivia em um turbilhão no emprego novo, diferente do ambiente de camaradagem que vivera até então.

Regras escritas não faltavam, regras a ser aprendidas também não. Regras, as quais só à custa de tempo, reflexão e experiência viriam a ser conhecidas.

Sentia uma dificuldade enorme no novo emprego, em certo momento, depois de muitos meses pensou em desistir. Era um sobrevivente e tentava sobreviver naquele mundo novo, briguento e brigado.

Nada do ambiente amigo que havia experimentado era presente nesse mundo novo, ela pensava que um trabalho com base na amizade, cordialidade e diálogo produzia mais. Estava se enganando.  Os patrões não queriam isso, trabalhavam para que a disputa entre seus empregados produzissem riqueza para a empresa. Se alguém abusasse, fora. Se alguém se tornasse inconveniente, fora. Se alguém se tornasse um arquivo vivo, virava alvo. Se não destruíssem a sua alma, valia o físico. Zero de risco.

France, depois de muito tempo se adaptou, tanto que que progrediu. No entanto, manteve em sua alma aquela porção de ingenuidade: confiar nas pessoas.

Mas essa confiança a traiu, quando viu que estava ferrada disse para si que era preciso fazer alguma coisa: sobreviver.

Arrumou as coisas e foi trabalhar em outro lugar. “Preciso olhar para frente. As coisas lá de detrás já foram”. Isso foi se transformando em um mantra: olhar sempre para frente.

Um dia a chamaram. No meio da conversa uma frase parecendo solta foi dita. Ela tocou na mente de France. Pensou em indagar, só pensou. Pensou e engoliu. Nesse tempo a teimosia santa já fazia parte do seu kit para sobrevivência.

Se alguém mais chegado a chamava de teimosa, ela dizia: “Não sou teimosa, sou persistente”.  Quando ouvia: “Mas como persistente?” Ela se calava, não queria dar munição a ninguém.

Um dia, sabe, um dia ela ouviu: “France, você tem que se reinventar”. Ela olhou para a interlocutor e ficou pensando: “Ele não me conhece, nada sabe da minha vida. Me reinvento há dez anos”.

Tais reinvenções nada tinham a ver com a percepção daquele seu chefe. Tudo que tinha feito era demonstrar que não estava obsoleta. Mas ela tinha um problema. Os seus valores eram considerados arcaicos. A sua adesão aos valores novos era seletiva. Travava quando achava que alguma atitude seria desonesta, mesmo sacrificando algum ganho.

Certo dia disseram que ela estava fora, France afundou. Ficou meses perdida nos seus pensamentos. A sua ingenuidade a impediu de se defender. A raiva deu lugar para a tristeza e lambeu a porta da depressão.

Depois de muito tempo, ela disse: “Não posso ficar nessa tristeza mais três dias”.

Fez uma escada no barranco e foi levantando degrau a degrau. Quando o buraco ficou para trás, ela se encontrou com seu algoz. O impulso fez ela querer agredi-lo, foi salvo por que aquele homem percebeu o perigo e saiu sorrateiramente.

“Ele tem costas largas, eu tenho raiva”.  Pensou em se vingar. Era preciso mostrar o seu valor. Planejou tudo. Tudo. 

Um tempo depois ela se sentou no sofá da sua casa. Estava agitada, agradecendo a Deus não ter agredido a quem achava que sido o ordenador da sua desgraça.

O seu viver, a duras penas estava se reorganizando. Lutava com poucos recursos, usava toda a sua inteligência e os seus conhecimentos para tocar a nova vida.

Aos poucos o ódio foi sendo domado, aos poucos France foi percebendo a sua força. A sede de vingança foi sendo controlada, até que um dia se encontrou com seu desafeto. Olhou para ele, fez questão de cumprimentar, desejou dizer toda a raiva que sentiu, apenas disse: Bom dia.

Selou para o seu coração a paz desejada.

Marconi Urquiza

31/01/2021 – 15:32h

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Dona Neia

     
Foto extraída do perfil do Facebook: Neia Leduc

Quantas vezes a gente se encantou com alguns exemplos de vida? Muitas, poucas,  algumas?
     O assunto poderia ser o voluntariado,  mas o que li vai além deste termo e não representa toda a essência da história de Dona Alcidineia. 
     Sou voluntário para revisão das entrevistas realizados para vários projetos do Instituto Museu da Pessoa (https://museudapessoa.org/). Li e revisei 16 entrevistas.  Algumas longas, entre 20 a 30 páginas de A4, chegando algumas delas a 10.000 palavras. Outras bem reduzidas,  mal dava 5 páginas do mesmo tamanho. Na maioria havia pretensão de que pessoas trouxessem fatos significativos: para elas, para as empresas,  para os leitores. 
    Li várias do projeto Memória da Petrobras.  A maioria delas, as pessoas estavam tão amarrados ao dia a dia da empresa,  temerosos como poderiam ser interpretadas na sua fala que, se não fosse o contrato com as empresas,  o Museu da Pessoa poderia dispensá-las. Nada ou pouco acrescentam.  Em tempo: As que revisei.
   Um outro grupo foi do Laboratório Aché. Nestas ficou claro a extrema preocupação em falar bem e pouco. São as mais reduzidas. Na minha opinião, vazias de significados. Para mim se tornou evidente que os entrevistados estavam, para lá de vigilantes. Como se os entrevistadores fossem o braço mais severo do lado punitivo da empresa.  Sou eu interpretando. 
    Teve uma entrevista realizada com a gestora da Associação do Edf. Conic, de Brasília. Foi a primeira de uma gestora social em que um braço empresarial não estava por trás e o que percebi: respostas soltas,  pensadas pela mulher sem outras preocupações. Também senti que o trabalho que ela faz tem profundo significado para a sua vida. Interno. Do seu âmago.  "Conic, a praia de Flávia." Dei este título à entrevista. 
   Nesta semana recebi a entrevista de Dona Alcidineia dos Santos Leduc. É preciso que a leia quando estiver disponível.  Não dá para resumir. É o voluntariado e liderança social no sentido mais puro. Da entrevista sai um sentimento profundo de uma atuação alegre, de onde se sente que a sua energia busca o engrandecimento de outros semelhantes, na recuperação de pessoas tragadas pelas drogas, capaz de criar uma escola de samba onde a música não é acompanhada pela bebida. Carnaval sem bebida alcoólica. Já viu um negócio desses?
     Na entrevista precisamos levantar palavras-chave e marcarmos passagens que nos chama atenção. Uma das frases me fez lembrar de um poema que inicia assim: "Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade". Aí, quando encerrei a revisão eu fiquei pensando e disse para mim, esta frase tem um sentindo mais profundo que apenas a interpretando pelo lado físico.
      Veja:
      - "Carregar mudança é carregar entulho (isto no sentido físico)" 
    Você já pensou, no sentido metafórico, que levar mudança é levar entulho? Já imaginou,  já? 
      Já no final da entrevista há uma pergunta padrão, o que a pessoa entende de mais especial na sua vida, no seu local, no que faz. É uma pergunta aberta e ampla. 
     Dona Neia foi na lata ao responder:
   - Aqui em Sete Barras (SP) o que tem especial é o "bom dia" e o "boa tarde". Fora daqui não tem isso. Falamos de 2011.
   Quase de imediato lembrei de um sinhozinho, caminhante do Parque Jaqueira, caminhando ao contrário do fluxo e a cada pessoa ele dizia: "Bom dia ainda existe". Uns minutos depois veio como um filme os gestos e voz de Padre Arlindo, de Tamandaré,  aqui em Pernambuco:
    - Bom dia! Boa tarde! Boa noite! - Assim mesmo, vibrando.
    Não sei se já pensaram nesta indagação.  Qual o impacto positivo de um "bom dia" dito com vibração no humor de uma pessoa? Você mesmo.
   Quem sabe eu não tenha um tesouro, outra entrevista para revisar, como essa de Dona Neia , repleta de significado, na próxima semana!

Semana Iluminada, abração!!
Marconi Urquiza 

LINKS DAS CITAÇÕES
A entrevista de Flávia:
Link do Museu
Poema de Edson Marques
Neia Leduc
Vídeos do Padre Arlindo

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

No exercício da paciência



      Gatinho lindo e desconfiado.
      Fotografia de Ana Reguart

      VENCER O CORONAVÍRUS?
      SÓ MESMO COM A CIÊNCIA 
      SÓ HAVERÁ PERDEDORES 
      COM ATOS DE PREPOTÊNCIA.
      É A HORA DA RAZÃO 
      DA FÉ,  DA VACINAÇÃO,     
      DA MÁSCARA,  DA PACIÊNCIA. 
      Ademar Rafael a nos inspirar em termos paciência. 

      CHUVA NO LAGO,
      CADA GOTA,
      UM LAGO NOVO. 
      Alice Ruiz a nos lembrar a ter esperança.     

    Estava perdido,  não tinha assunto e ao mesmo tempo não há falta de um. É como padecer no paraíso. 
     A vacinação começou. 
     Em 1987, em algum domingo de maio, eu estava na casa do meu sogro.  Naquela noite eu fui dormir depois das onze horas. Havia dormido um pouco mais de um hora e meia quando eu e minha esposa fomos acordados.
    A vizinha recorreu à minha sogra e ela nos chamou para levar o neto, pois o menino não parava de vomitar, dessa vizinha à casa dos pais em Maceió. Distante 180 quilômetros. 
    A uma e meia da manhã, eu ainda disse a Cida: "Queria ter dormido mais um pouquinho".
    Fazia pouco tempo que tínhamos comprado um Monza usado e detonado,  o que só saberia depois. 
    Um pouco depois da uma e meia da madrugada a gente estava na estrada,  cheio de adrenalina a nos tirar o sono.
     Entre quatro e quatro e meia da manhã a gente chegava na frente da casa dos pais do garoto. De lá fomos ao hospital,  o menino não tinha nada, só saudade. Perto de seis da manhã recusamos um convite para cochilar. Imaginei que às sete e meia estaríamos comendo cuscuz com leite em Bom Conselho. 
     Sonolento, com os vidros do carro abertos, iniciamos a volta.  Passamos por Satuba e começarmos a subir a ladeira que nos colocaria no planalto a caminho de Atalaia. Todas em Alagoas. 
    Nessa subida,  com reflexo zero, eu me assustei com uma Kombi que fez uma curva passando pela nossa pista. Com isso fiz um movimento brusco e perdi o controle carro, dei um cavalo de pau para não cair no barranco, o carro deslizou de lado e bateu na calha de água do acostamento.  Travou. O jeito foi pedir socorro ao pai do menino. Cida foi atrás, eu fiquei no carro.
     Com duas garrafas de água mineral e um pacote de bolacha fiquei na rodovia das seis da manhã até o meio-dia. Chegamos na casa do sogro às três da tarde.
     Para quem estava com apenas 27 anos,  acelerado,  naquela manhã recebi a maior aula de paciência até hoje. Nada a fazer,  vigiar o carro para não ser furtado e esperar o socorro. 
     Esse episódio voltou ao meu coração nesta semana ao conversar com minha mãe de 82 anos, ansiosa para ser vacinada. Uma ansiedade ainda maior do que a que lhe acompanha. 
      Sabe, fiquei pensando, pensando...
      Qual lição aquele acidente, do qual escapamos ilesos, pode nos ensinar hoje?


Semana Iluminada, repleta de bons augúrios.
Marconi Urquiza


      
    


     

Existimos: A que será que se destina?

Viktor Frankl             Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...