sexta-feira, 30 de abril de 2021

TANGENDO BOI



                                       A Fábio Ceará. 
  
          Mexendo no estoque de papéis velhos, vez por outra acho alguma pérola. Desta vez fui atrás de um caderno para anotar alguma coisa de umas aulas de vídeo e achei uma pequena crônica. Li com os olhos críticos e sevemos dos dias hoje. Nessa primeira releitura em anos, nada enxerguei naquelas poucas palavras algo que valesse a pena. 
       Quando penso que quase não se consegue rir, pois o ambiente é de dor, de expiação e de pessimismo. Olhar através da janela e ter uma visão, mínima que seja, de um horizonte menos cinzento, é quase um milagre ou um imenso esforço de otimismo.
       Há pessoas  que são vampiros, sugam a nossa seiva, pois só assim vivem, se nutrem da nossa angústia. Só que no momento atual, isto vem em escala "planetária". É um imenso sugador de energia boa para alimentar uma central ou um buraco negro nacional que come a energia das nossas almas.
       É assim, mesmo que neguemos, ou mesmo que não consigamos sentir ou ver.
       Mas aquele velho papel, da crônica, me levou a alguns anos em que a alegria, o bom humor, o compadrio e o companheirismo, enfim, a amizade de todos os lados que era capaz absorver até a maior chatice do universo. Tudo isso, por incrível que o senso comum nas empresas creia ao contrário, ocorria junto com muito lucro e notas altíssimas de desempenho.
       Pois bem, a crônica original:

    TANGENDO UM BOI
   
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             Tem uma turma que não perde a piada e nem a oportunidade de fazer uma. Recentemente me narraram uma grande metáfora.
            Após a escolha do novo líder da ECOA*, as festividades de uma agência cresceram de modo exponencial e se tornaram mais gostosas e repletas de comida. Muita comida, muita mesmo.
            Não há esse negócio de regrar comida, tudo que se refere a comida nas festas têm o signo da fartura.
            Aí um colega mais espirituoso saiu-se com essa:

           - Sei não! Jota fez acordo com o Batalhão de Trânsito.
           - Mas como? Para quê? - Indagou espantado outro colega. 

           - Para levar a feira mensal em casa.
           - O quê? Ôoooopa, endoidou!
           - Só pode! Só de carne é uma enormidade, pois o boi ele leva tangendo pela rua.


Ótimo final de semana

Abraços,
Marconi.
                                 16/11/2011 - 18:36
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*ECOA - não lembro exatamente dos termos da sigla.
(Tangendo = conduzindo)
 

sexta-feira, 23 de abril de 2021

CHOPE CARAMELADO


Um xícara de café expresso, um chope escuro. Da incompatibilidade nasceu essa história.

Meio dado a falastrão, Querêncio chegou atrasado no futebol e ficou no banco. Viu os amigos correrem durante meia-hora. Entrou a segunda pelada e ele continuou esperando. Perdera a vez, havia agenda para a primeira pelada, mas seu atraso lhe jogou para o fim da fila.

Quando começou a jogar viu alguns amigos mais chegados indo embora. “Hoje não ter ninguém para tomar uma cerveja”. Os que estavam jogando com ele eram meros companheiros de peladas. O máximo de intimidade era o protocolar: “Como vai?”

Desejava contar a novidade que descobrira no Shopping Boa Vista. “Fica para depois, aquele quiosque tem vida longa com o seu chope saboroso”.

Após o final da pelada, ele tomou banho, arrumou as suas coisas para ir embora, mas caiu na tentação:

− Júnior, traz uma Origina gelada.

− Quantos copos?
− Só para mim, os amigos já foram – Querêncio respondeu com uma ponta de frustração na voz.
− Se o senhor vier na sexta, seu Valter costuma ficar para tomar duas cervejas.
− Beleza, vou chegar para a primeira pelada.
− Que aquele tira-gosto?
− Depois, mas hoje vou de espetinho. Tem?
− Frango, frango e queijo, carne e queijo.
− Tá bom. Quando eu pedir traga o de frango e queijo.

Deu um sorriso chocho, pois havia se lembrado do dono de uma galeteria de frango defumado, pois certa vez ao pedir um frango inteiro, foi corrigido por esse homem: “É galeto. Mas tem frango aqui, ali e lá dentro”. Pensou em dizer que ele era preconceituoso, mas deixou para lá.

Tomou a primeira cerveja, pediu a segunda. Tomou mas um copo e no final dele veio: “Puta merda, que chope bom aquele. Sábado vou lá tomar duas canecas”.

Chegou a sexta-feira e se ele se encontrou com Valter.

− Vamos tomar uma hoje?

− Vamos na quarta, amanhã vou viajar.
− Tá bem.

Péricles foi passando:

− Toma uma hoje?
− Tomo, até sete e meia.

Eles sabiam que a limitação de horário se devia a Lei Seca. Seis e meia da noite sentaram para aquele hora de bate-papo regado à cerveja. Lá pelas tantas, Querêncio disse:

− Vamos amanhã lá no Shopping Boa Vista tomar um chope?

− Quem sabe. Me liga amanhã cedo. De repente eu convenço a mulher de ir no supermercado sozinha.
− Tá bem, vou ligar.
− Pode ligar.

Cada um bebeu seu copo de cerveja. Mas agora era de Heineken. Na garganta de Querêncio desceu amargando, mas desceu gostosa.

− Essa cerveja bem gelada, como essa, é muito boa – comentou Péricles.

− É mesmo. Demorei a me acostumar com ela. Mas agora estou gostando. Só não aguento beber quando esquenta. O amargor aumenta muito.
− Só presta bem gelada – disse Péricles.
− Que comer alguma coisa? – Falou Querêncio.
− Não, daqui a pouco vou jantar.
− Beleza.

Querêncio sentiu que o assunto estava acabando. “Rapaz, vou cutucar ele, se não, nem chega na saideira”.

− Péricles, sabe esse chope do Shopping da Boa Vista?

− Sei.
− Olha, eu nunca havia tomado um como aquele. É bom demais!
− Eu gosto de chope, mas até agora para mim são dos todos iguais. Só muda a marca. Até um da Heineken que tomei em Santiago tinha gosto dos daqui, nem parecia com o gosto da cerveja.
− Não, amigo, esse é muito diferente, pois andei por outros lugares que vendem chope e o gosto é igual. Acho que a Brahma está experimentando um novo sabor.
− Será? Pode ser. – Péricles se lembrou das vezes que geriu programas pilotos de alguma melhoria no seu trabalho.

Terminaram aquele cerveja. Querêncio sentiu que Péricles estava para sair, então disse:

− A saideira?

− Só essa.

Beberam rápido. No estacionamento Péricles chamou Querêncio.

− Vamos, eu dou carona. O caminho para minha casa é o mesmo da sua.

Cinco minutos depois:

− Amanhã te ligo – disse Querêncio.

− Beleza.
− Até.
− Até.

No dia seguinte Querêncio ligou, mas Péricles não pode ir. Dez horas Querêncio chamou a esposa:

− Mirna, vamos no Shopping Boa Vista?

− Eu quero tomar um chope bom que tem lá. Chope escuro.

Meia-hora depois saíram, faltando dez para as onze horas da manhã, Querêncio chegava nos bancos altos do quiosque de chope.

− Quero um chope escuro.

Em minutos a caneca estava à sua frente. Com os lábio gulosos tomou um gole grande. “Tá diferente”. Terminou aquela caneca, pediu agora uma tulipa. O gosto não mudou. A decepção começava a chegar.

− Pode me trazer uma tulipa de chope claro?

− O senhor que algum petisco?
− Não, agora não.

A atendente colocou na sua frente o chope claro. Bebeu devagar tentando encontrar as “notas do sabor especial”. Tomou apenas a metade da tulipa e não se aguentou:

− Moça, trabalha aqui há muito tempo?

− Trabalho, um ano.
− Sabe o que é? Eu vim aui há uns dois meses e tomei um chope tão bom, mas tão bom que estou estranhando esse sabor.

− Não mudou nada. Olhe aqui – e mostrou os barris de chope.

− Tá. Acho que me enganei – evitou prolongar àquela conversa, pois não desejava passar por tantã.
− Moça, traga um pratinho de pão de queijo.

Aquecidos no micro-ondas, em um minuto os seis pães estavam prontos para serem degustados.

− Traga mais um chope claro e também a conta – pediu Querêncio.

O sabor marcante dos pães de queijo engoliu por um momento o sabor do chope e da sua lembrança.

Saiu do quiosque disfarçando a sua decepção. “Ainda vem que Péricles não veio. Ainda bem”. Um pouco depois se encontrou com a esposa.

− E aí?  Saciou a vontade?

− Não. Tô só de barriga cheia.
− Só?
− Só. O que vim buscar não tinha e parece que nunca teve.
− Vá!
− É, pela conversa da moça que atende tá tudo igual desde que ela começou a trabalhar lá.
− Ôh, Querêncio! O que você queria mesmo?
− O que eu queria? – Ele repetiu a pergunta um tanto alheio.
− Acorda, homem! O que vocês estava a fim?

Com um ar de sonhador, muito sonhador, respondeu:

− Do chope caramelado.

− Chope caramelado... E tem esse tipo?
− Um dia teve e eu bebi. Não tem mais. Vamos, dirija, estou cheio de chope.

Mirna saiu do estacionamento, pegou uma ruazinha, a Corredor do Bispo e foi dirigindo devagar por várias ruas estreitas cheias de carro dos dois lados. De relance olhou para o marido, viu que ele tentava achar a resposta do sonho do chope caramelado.

Mirna sinalizou e entrou à esquerda na Visconde de Suassuna. O trânsito no sábado estava tranquilo. Dirigia sem pressa. No sinal da Avenida João de Barros ela ouviu um murmúrio.

− Disse alguma coisa, Querêncio?

− Pensei.
− Saiu de sua boca umas coisas que não entendi.
− Deve ter saído.
− Certo. O que você pensou?
− Pensei... Pensei...
− Diz logo, homem!
− Vou dizer.

O sinal abriu e Mirna se concentrou em dirigir, só teria sinal um quilômetros depois e logo atravessariam a avenida mais movimentada do Recife.

Chegaram no Parque Amorim. O sinal Para cruzar a avenida estava fechado.

Mirna estava impaciente:

− Vai dizer ou vai ficar nesse suspense.

Um sorriso meio debochado apareceu no rosto de Querêncio antes dele falar.

− Olhe, a uns dois meses nós fomos no Shopping Boa Vista. Lembra que lanchamos e eu tomei uma enorme xícara de um café caro na São Braz? Lembra?

− Lembro.
− Você foi fazer umas compras e eu resolvi ver uma livraria. Depois de alisar os livros em sai e vi o quiosque de chope...
− E tomou um bocado de chope.
− Só tomei três. Vai querer arengar agora, é?
− Vai conta, estou curiosa.
− Tá. Cheguei lá, pedi um chope escuro e veio um sabor gostoso. Saboroso. Como diz esse povo que gosta de botar sabor café, um negócio de notas disso, notas daquilo. Pois bem, o meu chope tinha gosto de caramelo.
− Pronto, ouvi, mas você não me disse como esse chope estava com gosto de caramelo.
− Não tenho outra explicação. A minha boca misturou os gostos e transformou aquele chope em chope caramelado.
− Eita, que invenção! – Disse Mirna.

Querêncio apenas sorriu, desta vez feliz, pois havia sentido o sabor inigualável do chope caramelado. A sua iguaria única. Só quinze anos depois é que algum cervejeiro com gosto pelo café andava tentando inventar uma cerveja caramelada. Bem que poderia chamar Querêncio para ser degustador.

− Mirna, pode acreditar, foi uma invenção da boa.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

AMO MINHA TEIMOSIA

 


    Tem dias que a gente sente
    Como quem partiu ou morreu 
    A gente estancou de repente ...
                Roda Viva, Chico Buarque

    Vivemos o tempo da velocidade, das transformações tão rápidas que não conseguimos absorver na integralidade, de tal modo que gera desconforto, gera intranquilidade, insegurança e medo, tudo isto capitaneados pela Tecnologia da Informação.
    Todo mundo ligeiro, empresas, indivíduos, coletivos inventando a toda hora. Todos ávidos para despontarem, terem uma fatia das receitas e dos lucros das inovações. As pessoas aceleradas, olhando o máximo de mensagens, o máximo que a sua capacidade permite.
    
    Há dias

    Que se quer tudo, que se quer muito e sentimos que só podemos ter pouco. São tantas as novidades, tanta coisa rolando na internet que provoca uma angústia pela incapacidade natural de ter 100% do que nos chega.
    Sem que desejemos,  negando ou não a realidade, ela  vem cobrar seu dízimo nas nossas emoções.

    Há semanas

    Em que é preciso transformar essa angústia longa para que dure apenas alguns segundos e evitar que a sofrência seja um sofrer sem cura.
     Nessa aceleração toda, veio a natureza, acho que invejosa e resolveu dar um freio de arrumação. Talvez uma chamada à algumas questões que deveriam se manter bem defronte aos nossos olhos. Questões que estão sendo passadas ao largo de muitas pessoas e quando a dor chega, parece só restar o arrependimento.

     Há dias
    Há semanas

    Que é preciso lutar, em qualquer dos seus significados, somando as forças interiores das pessoas,  que se juntando as ações de muitas outras podem transformar a realidade do grão ao milhão, que pode chegar ao bilhão e a compaixão, ganhar, até sabor.

    Foi em uma transformação assim, que uma frase ganhou lindos versos, que se converteram em uma celebração à vida, em celebração à amizade.

AMO MINHA TEIMOSIA

Dizem que todo escritor
Tem a fama de teimoso
Porém sou muito
orgulhoso
Desse título com louvor
Amigo bom um valor
Que tem em poucos
abrigos
Quem preserva os mais 
antigos
Tem bem mais sabedoria
Amo minha teimosia
De viver com os amigos.

Amigo é igual poupança
Rende juro e correção
Tem lugar no coração
Quer seja velho ou criança
É corrente de esperança
De valorosos artigos
Fugi de muitos perigos
Com eles na companhia
Amo minha teimosia
De viver com os amigos.

Nesse time de amizade
Gosto sempre de jogar
Beber cerveja no bar
Ou qualquer atividade
Até pra matar saudade
Visitando jazigos
De imensuráveis castigos
Que a morte nos fez um dia
Amo minha teimosia
De viver com os amigos.

Versos - Poeta Jatobá
Mote - Marconi 

    Minha dupla gratidão. A Ademar que fez o mote chegar ao Poeta Jatobá e a este, pela linda composição.


Tenha uma Semana Iluminada.
Marconi Urquiza

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Aventura na boleia da luz vermelha

                  Na boleia viajei,
                  de hora em hora olhei
                  quanto de chão faltava,
                  se pudesse caminharia,
                  Pois mais rápido
                  que o caminhão andaria.

Sinceramente não sei o que a fez surgir, vinda lá de dentro,  espantando a poeira e o esquecimento. 
    Estava na segunda-feira em um oficina de carros, me escorei numa caminhonete e fiquei olhando o mecânico trabalhar,  de repente veio tudo de uma vez.

    Pelos idos dos anos 1980, 1983 ou 1984 morava em Afogados da Ingazeira.  Ari Braz, colega de trabalho, depois meu compadre, estava com a esposa em Recife. A minha namorada,  Cida, morava lá também. 

    As minhas viagens semanais eram a bordo do busão da Progresso.  Saia às onze e vinte e cinco da noite e nos despejava em Recife depois da cinco horas da manhã.  Nessa cantilena apareceu uma novidade,  afora alguma carona ocasional.  Na véspera da viagem ou na sexta-feira cedo, Ari disse que havia conseguido uma carona. Quando falou o horário,  pulei como menino no riacho. 

     O caminhão sai duas e meia da tarde lá de perto do posto do filho de Dr. Hermes Canto.
     Certo.
     Quanto ele vai cobrar?
     Nada, a gente paga a janta dele.

    Para ser sincero, não lembro se ocorreu essa parada.  Lembro que senti uma sede danada. Na hora de entrar no caminhão, subi primeiro e fiquei pertinho do motor. Era aquele batido alto do motor diesel nos ouvidos e o calor derretendo meus pés, o que me acompanhou a viagem inteira.

    O motorista tocou a caminhão. Conversa vai, vem, e acabou assunto.  Uma viagem lenta, acho que a maior velocidade que o dono do velho Mercedes Benz colocou, não deve ter passado de 60 km/h.

    Na boquinha da noite ele mexeu na chave e ligou as laterais,  quando escureceu forte, outro toque na chave, o farol acendeu. Parecia dirigir de farol baixo o tempo todo. Às oito e meia da noite a viagem foi interrompida.  Seis horas depois de sairmos de Afogados a gente ainda estava perto de Belo Jardim.  Quase metade da viagem. Em um carro estaríamos chegando a Recife.  Faltava cerca de 200 km.

    O conserto na estrada limitava a passagem de uma faixa por vez. Não lembro se havia mais de um trecho no Pare e Siga. Já estávamos a dez minutos nesse processo,  de repente ocorreu um rebuliço.  Gente saindo do carro, indo para a pista,  para o acostamento.  Chegou alguém e disse alguma coisa ao nosso caroneiro, ele se irritou, passou a mão debaixo do assento e arrastou uma faca com jeito de espada.

    — Fiquem aí que eu vou pegar esse safado. Estão jogando pedras nos carros. 

    Acho que se formou uma força tarefa. Depois de um tempo voltou e disse:
     Fugiram. Na semana passada teve a mesma coisa.

    Ele se acomodou, tomou um gole gigante de água e ordenou:  
     É bom vocês mijarem. Só vou parar em Recife — descemos do caminhão.  

    Olhei para o carro. Levava carvão. Carga leve. Olhei de novo. Ela tinha uma altura de 3 a 4 metros acima da carroceria.  Era assim para não dar prejuízo e aproveitar a capacidade de transportar do caminhão.  No entanto, a sua altura transformou aquele trabalho em uma viagem de alto risco, facilmente o caminhão poderia tombar, qualquer erro em uma curva ele se arrastaria na rodovia.  

    Voltamos,  ele tocou a viagem,  quando passou por Belo Jardim  deu uma regulada na luz interna, que viajava acessa, então comentou:
     Tá muito forte  rodou um botão  e cabine ficou suavemente iluminada. Luz de boate.

    Duas e meia da manhã a gente chegou em Recife,  ele manobrou o caminhão e parou em um ponto de Táxi. Agradecemos a carona, o homem balançou a mão, ao descermos engatou a primeira e saiu naquela velocidade exasperante, ao fazer a curva para entrar na Ceasa, vi a sua silhueta iluminada pela lâmpada vermelha da boleia. 

    Valeu pela aventura,  mas 12 horas de viagem para 390 quilômetros de asfalto, foi demais.

    
    Semana Iluminada.
    Marconi Urquiza


sexta-feira, 2 de abril de 2021

LOUCO PARA ABRAÇAR




    Marano não gostava do seu nome, preferia o apelido Marinho. Quando alguém lembrava desse nome estrangeiro em tom jocoso, ele se irritava.
    Há muito que não viajava. Lhe deu vontade de pegar o carro e sair sem destino certo, com paradas aleatórias. Uma viagem longa.
    No mesmo impulso do pensamento, ligou para os filhos, avisou para onde iria. Andava sozinho há tempos. Arrumou a mala, a bolsa com as roupas que trocaria na estrada. Supriu a nécessaire com os remédios e com os itens de toalete.
    O seu carro estava quase sem uso, saía pouco nele, não era raro encontrar teias de aranha nos pneus. Fez uma revisão básica. O tempo corria para a Semana Santa. Faltando três dias para o Sábado de Aleluia pegou a estrada. Concentrado e descansado, conseguiu percorrer no primeiro dia 1.100 km, no segundo dia, o cansaço chegou mais cedo e perto das cinco horas da tarde encostou em um hotel com mais 900 km na bagagem.
    Faltava cerca de 500 km. Às quatro da manhã do terceiro dia caiu na estrada. Dirigiu rápido, às onze horas ele foi vendo a Serra Majestosa.
    Entrou na cidade, deu uma volta, reconheceu algumas casas e nenhuma das pessoas que transitavam na rua. "Onde estão meus conhecidos? Morrerão?" Talvez não reconhece mais nenhum depois de 30 anos.
    Sentiu sede, lembrou do Bar do Pereira, virou o carro e foi para a rodovia que ligava a sua cidade natal com a vizinha. Viu o bar, o velho nome permanecia, o local também, haviam repaginado o prédio.
    Entrou, passou por uma porta, ao sentar chegou o garçom, pediu uma cerveja e uma batata frita.
    Daquela mesa ele via a Serra Majestosa inteira. Estava verde. Havia chovido naquela semana.
    Marinho levantou o copo e começou a beber, nisso passou um homem, que olhou para trás e foi a quatro mesas de distância. Juntou mais três e sentou. De novo olhou para Marinho, que já era servido na segunda cerveja.
    Lá na mesa do outro homem chegaram mais três amigos, quase todos da mesma idade. De cabeça baixa o nosso visitante não viu a aproximação do seu vizinho de bar.
    Quando deu por si, o homem estava a um metro dele, o olhando fixamente:
    — Pois não?
    O homem não respondeu e continuou com aquele olhar de quem via um fantasma.
    — Diga! — A voz de Marinho saiu meio irritada.
    — Venha cá, Marinho! Dê um abraço. Ei, turma, Marinho voltou!!!

    Em algum lugar um poeta começava a declamar:
       Estamos louquinhos,
       Louquinhos para beijar.
       Nem fale,
       o quanto estamos
       louquinhos para congraçar.
       Estamos louquinhos pela vida,
       Nem diga,
       louquinhos para abraçar.


      Doidinho para abraçar. Feliz Páscoa.
     Marconi Urquiza


PS:
Era para ser apenas um exercício de escrita criativa, mas se transformou no desejo, o mesmo de Marinho de reencontrar pessoas queridas.

sexta-feira, 26 de março de 2021

IMAGINE QUE SAIU DO SUFOCO

https://autossustentavel.com/2019/05/qual-e-a-sua-utopia.html

    Inspirado no mote da canção Nordeste Independente, de Bráulio Tavares e Ivanildo Vila Nova:        

    Imagine o Brasil ser dividido
    e o Nordeste ficar independente.

    Pois bem,
 
    Imagine o Brasil tão diferente,
    amando mais que matando,
    vacinando toda a gente.

    Claro que isso é uma utopia. Uma utopia feroz que nos persegue desde que uma eleição foi ganha por quem "não deveria ganhar" e onde não houve um desastre.

    Imagine um país diferente. Onde se olha a pessoa e não seu "DNA social", que a olha como um ser e não como um condenado congênito. Utopia. Pense! Pensei nessa enorme besteira.

    Imagine uma gente diferente, livre no pensamento, olhando o mundo como ele de fato é: olhando as pessoas como elas são, não na utopia que "eu me assemelho a Deus. Que sou um bendito congênito". Utopia.

    Agora idealize um país amoroso, alegre, gentil. Mas esse país não existe. O real é outro. 

    Imagine o Brasil tão diferente
    educando para
     amar a sua gente

    Imagine que ele cultiva o altruísmo, Altruísmo. O ísmo positivo se aprende e se exercita superando o ísmo negativo, incutido por uma cultura do "eu" em detrimento do "nós". Real.

    Mesmo assim, imagine. Não idealize, deseje, aja, seja realista, a mudança será lenta e longa. Precisamos de vários líderes realisticamente altruístas. Vários, é possível. No poder: raro. Milhares com poder atuando: Utopia.

    Mesmo assim:    

    Eu IMAGINO o Brasil bem diferente
    Salvando mais que matando
    Amando a sua gente.

    Pois bem, "Das Utopias":                                                                      

    Se as coisas são inatingíveis... ora!
    Não é motivo para não querê-las...
    Que tristes os caminhos, se não fora
    A presença distante das estrelas!

     Mario Quintana , Espelho Mágico. Porto Alegre: Editora Globo.1951.

    Semana Iluminada
    Marconi Urquiza
    
    

    Estas foram as últimas crônicas para você. Leu?

   Nesta você escolhe o título. A mensagem de coragem e de espírito de luta é a mesma:

    SE A VIDA NÃO FICA MAIS FÁCIL ,      TRATE DE FICAR MAIS FORTE

    

    Mais a crônica mais lida em março 2021, se não sentiu a sua mensagem.

    PARECE QUE FALTA UM PEDAÇO DE MIM    


    

sexta-feira, 19 de março de 2021

SE A VIDA NÃO FICA MAIS FÁCIL ...


Um conto dentro da crônica

 Um rasgo de esperança, um tantinho de fé 
e a teimosia para seguir na caminhada

         Era de madrugada quando Casarin printou uma postagem do Facebook. Cinco minutos depois aquele homem de meia-idade repassou para um amigo, o outro leu e apagou. Um terceiro amigo viu a postagem e jogou na lixeira do celular: "Casarin, esse Casarin devia era dormir!"

        Só que a insônia de Casarin tinha o mesmo DNA da de Getúlio: a tensão pela espera da vacina. Seis horas da manhã, com uma xícara de café na mão, Getúlio via a rua pela janela da sala. A rua embaçada pelos vapores do café fumegante, também refletia a mente em turbilhão daquele homem.

        Aquele que apagou primeiro a postagem de Casarin, mais seguro de si voltou a dormir. Acordou sem cansaço. Seria um super-homem no meio daquela toda agonia real e ampliada pela divulgação maciça do caos provocado pela pandemia?

        O dia avançou para os três, na dia seguinte começaria o final de semana. Sexta-feira à noite era o dia em que os três amigos se encontravam, não se encontram mais. Passou de um ano sem que os olhos inquietos de Casarin não se encontravam com os olhos zombeteiros do segundo amigo e os olhos inquisitivos de Getúlio.

        No sábado pela manhã Getúlio ligou, havia meses que mal passava uma mensagem genuína dele pelo Whatsapp, só era repasse, às vezes em tom agressivo. Geralmente quando era criticado, respondia acidamente. 

        Mas ligou:

       - Casarin, você ainda tem aquela postagem. Aquela do homem falando que deveria ser uma fortaleza?
       - Getúlio... - Casarin, sem querer perguntar, se pôs a pensar - Pode explicar melhor?
       - Mas, homem! Você passou antes de ontem e já tá esquecido!
         - Pior que estou. Ando com um esfregão na cabeça para não endoidar.
       - Tá, então deixa - nisso Casarin corria as telas do celular, havia transferido a ligação para o viva-voz.
        - Pera aí. Tu visse aquela merda do jogo de ontem? - disse Casarin.
      - Nem vi, o time tá tão ruim que eu desisti de ver os jogos.
        - Viu algum filme bom? - Continuou Casarin, cultivando a paciência do seu amigo.
      - Vi uma série. Signal, é boa e é meio viajada. Japonesa, Looke...
        - Getúlio, achei.
      - Fala aí para mim.
      - Se a vida não fica mais fácil... 
      - Sei o que você achar importante ela, senão não teria printado e me enviado. Mas pensasse nela direito?
      - Tenho pensado muito. Ela é um filão de força que tenho me apegado para ir nadando nessa tragédia em que estamos vivendo. Não é por ficar em casa, de não poder conversar, mas é pelo medo. Sabe, o medo. A porra do medo que adoece. 
      - Lê de novo... - Casarin leu. Getúlio se calou. Os dois pareciam ter um zumbido rolando nas suas cabeças.
        
       Nenhum falava nada e nem queriam desligar. O silêncio era tudo que tinham e desejavam do outro. Casarin pensou em soltar uma piada, Getúlio em dizer uma pilhéria. Alguém ouvia o fluxo de vento do ventilador amenizando o calor.

         - Pode ler de novo - pediu Getúlio.
        
       Casarin leu e disse:
       - Getúlio, a pessoa que aparece no print é um lutador pela vida. Só tem duas coisas normais nele: a cabeça e um dedo, com o qual comanda a cadeira de rodas. Já passou dos quarenta e continua firme. Isso deu o maior significado.
         - Sabe, é que me lembrei de uma psicóloga. Um dia eu reclamava da vida e falava da morte, ela me interrompeu e disse forte: "Mas até lá você tem que viver". Entendesse? Entendesse? - disse Getúlio.
      - Entendi - "mais ou menos", pensou Casarin. 
       - Pois é, amigo. A gente até lá, tem que viver o melhor possível e o que a gente pensa faz da vida pior ou melhor. É isso que anda me embatucando, entendeu?
      - Entendi - agora a voz de Casarin saiu enfática - Entendi, amigo. 
         - Repete a frase...
      - "Se a vida não fica mais fácil, trate de ficar mais forte!" Quer ouvir um poema?
        - Quero.

      -   "Trate de ficar mais forte"
            Quando a cruz lhe pesar
            Dificuldade da vida?
            Deus lhe ajuda a superar.
            Faça da cadeira "pernas"
            Mas não deixe de andar.
                    (Ademar Rafael Ferreira)
        


    Semana Iluminada.
    Marconi Urquiza


Autor da frase que inspirou esta crônica




Existimos: A que será que se destina?

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