sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Hoje não tenho uma crônica

 


        Hoje não tenho uma crônica, até tentei escrever os sentimentos que me tomaram o coração após a morte do amigo Sérgio Ribczuk.  Ficou em amontoado de letras, abandonei a ideia.

        Nem sei o que terei. Sem sei. Em 2007, como se quisesse limpar a alma das dores da morte de papai, em 1982, eu comecei a rascunhar um livro. Inventei tanta coisa, coloquei tanta história imaginada, pesquisei em vários livro sobre o coronelismo político e quatro anos depois, achando que a ideia estava madura, parei de escrever.  

        Encostei esse projeto, quase enterrei o desejo. Desde 2011 repousava em uma gaveta, ora em um armário e por fim, em um guarda-roupa todas as ideia para escrever O Último Café do Coronel.

        Havia de tudo. Anotações soltas, um protótipo que imaginei que seria apenas reler e continuar. Três roteiros, uma enormidade de personagens, outro tanto de cenas e cenários. Tudo muito e tudo tão pouco.

        2021, setembro. Fui reler o que escrevi entre 2007 e 2011. Na releitura, desisti mais uma vez. Mas em  um dia de outubro, eu acordei com uma ideia, para minha sorte tinha comprado três cadernos, fáceis de manuseá-los e comecei. Segui uma ideia que me foi dita pelo escritor Raimundo Carrero. Por que não faz o narrador como um fantasma?

        Comecei a escrever e dezoito dias depois eu concluía o rascunho de um novo livro, pareceu-me que todos esses anos a narração foi se ajustando, se juntando, se formando em alguma parte da mente. Mas não foi um livro de quem escreveu rápido, pois ele levou 14 anos e dezoito para ficar pronto. E é apenas o primeiro rascunho.  Vários meses levarei para ter uma história arrumada.

        Não é uma biografia, não é um romance histórico. É ficção, essa dádiva que permite mulheres e homens contarem e inventarem suas histórias e por vezes, ajudarem outras pessoas em suas vidas.

        Sim, consegui finalmente largar as pesadas correntes que me prendia para falar dessa situação trágica que pegou todos da família, amigos e conhecidos e deu um nó nos corações dessas pessoas.

    

    Por fim, um grande abraço.

    Marconi Urquiza

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

De uma hora para outra, o amigo se foi

        


        De uma hora outra o amigo Sérgio Ribczuk se foi e se foi sem aviso prévio. 

        Contente,  nos veio visitar e voltou para o Paraná carregado de comida nordestina. A mais desejada e aguardada foi a buchada de bode. Não deu tempo degusta-la.

        Ficou a lembrança de uma pessoa que nos ajudou em 2003, acolheu nossa família quando vim na frente de volta a Pernambuco. 

        Alguns anos depois lá vem ele e sua amada Maris nos visitar. Depois eles vieram,  mais suas três filhas a Natal (Priscila, Paulinha e Bia). Metemos o pé na estrada e fomos vê-los.

        Mais alguns anos, recebemos o convite para o casamento de sua filha Priscila.  Lembro que pensei assim: "Ôxe, não falto de jeito nenhum". E fomos. Que viagem ótima. 

        Aí foi a vez deles receberem o convite para o casamento de Philip. Vieram, curtiram,  conversamos, tomamos cerveja.  Perguntei um monte de coisas sobre os contemporâneos de Araruna (PR).

        Aí o tempo remonta,  lá do início da amizade, nossos filhos brincando com suas filhas pequenas. Do nosso cão,  Bob, um gigante da raça Boxer, invadindo o quintal dele.

        Da enorme consideração de nos apoiar na transição da volta ao Nordeste, acolhendo nossa família em sua casa.

        O melhor de tudo é rever,  nas fotografias, o seu sorriso com as filhas,  com o neto, com os nossos netos, na hora da boa conversa e guardar na alma a amizade que aguentou o tempo e a distância de quase 3.000 quilômetros.

        
        Assim, assim mesmo: 

        Com saudade, a gente vai.
        Com saudade, a gente fica.

        Com carinho, enche a lembrança,
        O carinho lembra a querença.

        De gente, sentimos saudade.
        De gente, recebemos carinho.

        Do amigo fica a querença 
        e o
        carinho da presença n'alma.




            Abração,
          Marconi Urquiza

        

        

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Óculos para ver o mundo

 

        Óculos de ler o mundo, este é o título de um livro de poesia que meu subconsciente modificou para o transformar em: Óculos para ver o mundo. A frase me encantou tanto, que ao comentar com um amigo, veio-me à mente a capa desse e-book, e mais, o sentimento de tentar ver o mundo com outros olhos. E, agora, ao escrever, percebi que tinha modificado a frase. Se ele for procurar o livro por este título não vai achar.

        Óculos de ler o mundo x Óculos para ver o mundo. Tudo tão diferente. Minha subjetividade modificou completamente algo tão objetivo quanto o título do livro.

         Vamos imaginar o seguinte: Descemos ou saímos para a calçada e nesse momento passa um carro vermelho, digamos que seja um Ferrari, nem se precisa saber qual o modelo. O carro é um ícone de esportividade. Como objeto, ele é facilmente identificado. Tudo muito objetivo. Depois disso é só subjetividade, podemos pensar que é de uma pessoa rica, podemos imaginar que o dono ou dona, seja uma pessoa vaidosa ou mais que isto, também exibicionista. 

         Uma pessoa se associa a um clube pensando em praticar esportes, o homem prefere o futebol e sua esposa irá à natação. Ela se entrosa com outras mulheres e nos intervalos conversam sorrindo, ele joga com vinte outros homens. Ora dá um bom dia ou boa noite, termina o seu exercício, recolhe os seus objetos e vai para casa. Alguém pode dizer naquele grupo onde joga que ele não gosta de se enturmar. Talvez não pense que tenha dificuldade em se entrosar, que implica, se doar. Há pessoas que simplesmente não querem. A subjetividade rola total.

         Ao acordar de um sonho, onde pegava uma carona, nada menos que com Paul McCartney, em que ele pilotava com total imprudência, em alta velocidade e terminava sendo preso por isso. O que essa mensagem tem a me dizer? Acordei tentando achar qual é o recado do meu subconsciente. Onde estará a objetividade dentro da subjetividade do sonho?

        Nós todos somos levados pela subjetividade e precisamos estar atentos. Nem sempre será possível, mas se precisa ter uma atenção permanente, porque há pessoas, grupos, profissionais todo o tempo tentando captura-la e não é na porrada, é na sutileza. É entendendo o que valorizamos, o que gostamos, o que sentimos. Nem requer que tenhamos consciência disso tudo, estes e vários outros aspectos rodam em nossas mentes no modo automático. Modo que abre as portas para que a subjetividade seja sequestrada.

        Se o título do livro é Óculos de ver o mundo e disse antes, não foi a primeira vez que alterei para Óculos para ver o mundo, qual foi a razão para eu modificar?

        Posso tecer várias explicações, achar uma que eu aceite como a mais lógica, n entantoainda não sei a razão que mudei o título. Pode ser que ao ler tenha feito, sem prestar atenção uma interpretação e alterado a frase para que ela justificasse o que pensava naquele momento e até mais, o que sentia. 

        Posso afirmar, sem ter certeza, que a minha subjetividade modificou a frase porque era esse o sentimento que tinha há três meses, quando vi a capa e li ao título pela primeira vez. 

        Que se precisa de óculos para ver o mundo com as suas nuances, com todos os tipos de pessoas, com as dores e alegrias que rolam por aí. Com todas as necessidades e suportes que as pessoas precisam nos seus sufocos de vida.

        Ou se ter de usar Óculos de ler o mundo para capturar e entender todas as sutilezas que os olhos em estado normal são incapazes de notar.

        Vou parar por aqui, já filosofei demais, e mais que isso não sou capaz de escrever. Para encerrar, vou repetir uma frase que capturei de um livro de Gilberto Freyre e uma estrofe de um poema que escrevi: 

        Não foi tanto, decerto! Mas foi quanto.

        Decerto! Foi quando o coração 
        se abriu para querer e 
        resultado é mais que 
        uma soma percebida 
        é mais uma conta sentida, ...


         Abração,
         Marconi Urquiza

       

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Um benfeitor silencioso

        

        Faz tanto tempo que ele se foi. Nem posso dizer que conhecia bem meu pai.  Algumas situações eu sabia,  outras ouvi comentários, exemplos de fazer o bem, presenciei algumas vezes.

        Lembro que meu avô se irritou com ele por ter ajudado um notório aproveitador,  nesse tarde vovô disse: Quem tem besta não compra cavalo.

        Hoje acho engraçado,  era como um sujo falando do mal lavado. Duas pessoas que amavam ajudar o próximo. Mas não sei porque vovô se irritou.

        O tempo passou e um dia falaram, perguntando sobre eu sentir saudade de papai, calei-me, eu não sinto mais saudade dele, isso se esgotou ao longo do tempo.  Foi se depurando para ficar nos bons exemplos,  no humor sutil e nas tiradas que faziam sorrir.

        Tempos atrás quis escrever um livro sobre seu perecimento, parei por falta de condições psicológicas. 

        Neste Dia de finados,  mais uma vez mamãe se preocupou que o túmulo dele estivesse limpo e pintado. 

        Em alguns momentos pedimos aos familiares da minha esposa para fazer a gentileza de contratar alguém para cuidar do seu túmulo.  Mas todas as vezes o túmulo estava cuidado, um benfeitor anônimo já tinha feito.

        Não sabia a quem perguntar, comecei a especular,  depois desisti e deixei a vida correr.

      Outro dia um amigo falou que papai ajudou uma família a voltar de São Paulo. O filho mostrou a sua gratidão.  Eu não sabia disso, fiquei surpreso.

      Houve ocasiões em que a feira na sua casa de alguém só ocorreu porque papai emprestou o dinheiro. 

        Desconfio que em uma dessas ocasiões eu estava por perto,  pois papai se justificou sem eu pedir nenhuma explicação. 

        Foi como se diz: Se me pagar sem juros já está muito bom, mas papai tinha certeza que nunca receberia aquele dinheiro. 

        Essa história do cemitério me trouxe a certeza, que no silêncio, papai ajudou a muitos em Bom Conselho.

        Esse era um segredo dele, para ele mesmo. Nunca vi arrotar a ajuda que prestou, apenas ajudou.

        Apenas ajudou.

        E quando uma pessoa ficava se derramando em agradecimento, ele dizia: 
       - Olhe, vá cuidar de suas coisinhas, se não você me deixa vaidoso. 

        Bem, esse era seu modo de ser, de certo modo copiei isso dele.

        Abração, 
        Marconi Urquiza, 

        filho de Marne Geordemar Urquiza Cavalcanti.

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

A invasão da fome



        No dia de finados ocorreram duas situações críticas. Um morador de um conjunto habitacional no Distrito Federal filmou um homem gritando, desesperado: É Fome, por favor,  é fome.

        Neste mesmo dia, ao voltar do clube sem almoço, resolvi comer em uma padaria no trajeto.  Para os que conhecem a região da Av. Rosa e Silva, ela fica defronte ao Country Club do Recife.

        Havia terminado  de comer e estava para me levantar, quando um morador de rua entrou e me pediu comida, com pressa para não ser expulso de dentro da padaria ele me guiou pelas gôndolas, pegou uma dúzia de ovos, um quilo de arroz e um pacote de bolacha cream cracker, deixou na minha mão e saiu com a mesma velocidade que entrou.

        Paguei e entreguei a ele. Não disse nenhuma palavra e se ele agradeceu, não ouvi. Segui para casa. Ontem minha esposa retirou da bermuda o tíquete fiscal e fez uma observação que o almoço tinha sido caro, foi quando me lembrei do ocorrido e fui olhar o que tinha sido entregue ao rapaz, só então comecei a pensar naqueles menos de 10 minutos.

        Homem magro, cerca de 30 a 35 anos, altura mediana, descalço, camisa vermelha ou rubro-negra, não sei se de calça ou bermuda. Descalço.  Descalço, com pés enegrecidos. Ou queimados pelo sol ou de sujeira.  Estava descalço. A magreza acentuada dele me perseguiu ontem todo o dia.  O seu jeito determinado, era desespero, se aproveitou que naquele instante não havia vigilância.

        É Fome meu caro. É muita Fome.


        Abraço, Marconi Urquiza

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

A vida em espiral

 



        Fiquei imaginando quando a vida entra em redemoinho a partir de uma decisão nossa ou de várias decisões. Mãos e pés começam e nos impulsionam, quase sem controle, os nossos movimentos.

        É o que me parece ocorrer no livro A vida em espiral. O livro tem uma bela capa? Tem. Com ilustrações lindas, cores bem distribuídas e um acabamento primoroso? Tem de sobra. Muitos adjetivos. Justificáveis.

            Lá pelo meio do livro lembrei de outro que tratou de uma realidade cotidiana severa dos personagens: o Vidas Secas e da decisão de Fabiano de buscar sair daquela seca que lhe sugava até a alma.

        Também Amuyaakar Ndooy toma a sua decisão, assumindo riscos e transformando os seus amigos e até a sua comunidade. Decisões que vão sendo reiteradas, crescentes e de consequências a cada momento maiores e mais graves, é a vida em espiral.

        Mas, mais que isto, o livro esmiúça aspectos da vida do Senegal no período da sua narração. Aspectos como a do governo que que reprime o tráfico de yamba (maconha), cujo consumo é um costume nacional. Das comunidades muçulmanas onde o álcool entrou forte e os jovens nem querem saber dos preceitos dessa religião.

        Da miudeza humana se revelando na disputa do cargo de Imã, líder religioso do Islã, na aldeia aonde vive Ndooy, cujos grupos religiosos deixam a mesquita fechada por causa dessa querela.

        Da ganância que enche os olhos de agentes do estado senegalês e que também se tornam traficantes da maconha, como se fossem atacadistas, roubando dos traficantes pobres.

        É uma história que traz certos aspectos semelhantes ao homem ao redor do mundo: irresponsabilidade, egoísmo, amor, paixão, costumes ancestrais e machistas, aspectos da vida das periferias e personagens riquíssimos nas suas vidas, como se fossem gente que, ora conhecemos de perto, ora ouvimos falar ou que lemos sobre elas.

        O livro é um mergulho em tudo isso, aqui e ali, abre um espaço no redemoinho para o leitor respirar.

           Por fim, trago um link para uma bela e suingada canção do Olodum: 

           Canto pro Senegal


        Abração, Marconi Urquiza

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

De tanto ouvir falar, de tanto nos impactar, resolvi escrever

 





    
      “Deus me proteja de mim”

     “E da maldade de gente boa”

     “Da bondade de pessoa ruim”

     “Deus me governe e guarde, ilumine e zele assim.”

                                   Chico César – Estrofe da canção “Deus me proteja”

 

   De tanto ouvir falar, de tanto nos impactar, resolvi escrever.

            Vou falar das aventuras que só parecem teóricas, até se transformarem em chuva, depois em uma tempestade; no fim, em uma seca severa.

            Se a inflação pode ser uma chuva prodigiosa no bolso de alguns, ela vira uma tempestade severa para o bolso de muitos e se revela como uma seca violenta, caindo como uma bomba na vida da maioria dos brasileiros.

            Os conceitos como: Liberal, Liberalismo, Socialismo, do antigo Comunismo, da Socialdemocracia, do capitalismo, do Mercado (o rei mercado), Estado Mínimo, Governo, Desgoverno. Muito disso passa longe do brasileiro médio, muito disso passa a léguas da mente das pessoas, até que, mesmo sem terem o mínimo de conhecimento ou consciência específica de suas existências, sejam esmurradas pela carestia.

            Essa é a nossa realidade em 2021. O pau está dando muito forte nas costas de Chico. Lembre-se do ditado: ” Pau que dá em Chico, dá em Francisco”.

            Liberalismo, esse que a gente vê espelhado em muitos economistas, como se sente há três anos, que foi elaborado, projetado, e executado pensando em uns poucos. Em uns poucos que ganham e ganharão com essa inflação galopante.

            Para quem não sabe ou não se recorda, vou contar um episódio de inflação, agalopada, ligeira como um meme, um foguete como uma Fake News.

           1988. Eu desejava comprar um vídeo cassete em Manaus. Querendo barganhar o preço, corri as lojas da Zona Franca e próximas à Rua Guilherme Moreira, aí o mercado do dólar abriu.

            Às duas da tarde acabei entendendo que não poderia esperar para o dia seguinte, meu dinheiro não daria. Se o preço no início da manhã era de 500 dinheiros, às duas horas da tarde paguei 540 dinheiros daquele tempo pelo aparelho. 

            É assim a aventura do liberalismo, é como jogar alguém no meio de um rio sem boia e sem a pessoa saber nadar. É o que gente vê todo santo dia.

            O preço do combustível que tem afetado tanto a economia popular, é um caso exemplar, pelo lado negativo. Veja, o Brasil caminhava para ser quase autossuficiente na produção de combustível. Aí se vendeu ativos, estruturas e negócios da Petrobras. Paralisa-se linhas de produção, subaproveita refinarias e importa-se produtos refinados, mais caros.

            Depois veio a paridade brutal do preço do dólar e petróleo com o mercado livre mundial. Tudo isso, sem que haja compensação com o menor custo dos produtos fabricados pela Petrobras. É mais fácil, é mais simples, “é mais ganho”.  

            Na realidade hodierna, cai o consumo de combustível e ainda assim o ganho permanece alto e até maior que antes, em  que o preço era menor e  onde vendia mais combustível.

            Olha que armadilha o cidadão vive:

            - Preço maior: o lucro de toda a cadeia cresce por litro vendido.

            - Preço maior: a arrecadação de impostos é maior por litro vendido.  

            Tão importante oligopólio, na prática monopólio, vai querer que os preços fiquem civilizados? Os entes governamentais também?

            Neste momento, estamos sós diante do Dragão da Inflação. Mas temos que juntar forças, então vou de Zé Limeira, o Poeta do Absurdo, como um ato de coragem e vontade de prosseguir:

            “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”

 

            Abração, Marconi Urquiza.


            Escutem a canção inteira:

            DEUS ME PROTEJA

Existimos: A que será que se destina?

Viktor Frankl             Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...