Tempos atrás eu escrevi a crônica Escritório de Conversas Avulsas, que era na farmácia de papai em Bom Conselho. Hoje imagino que aquele comércio era muito mais que atender os clientes, lhes vender medicamentos, fazer curativos, aplicar injeções, orienta-los em alguma dúvida, poderia se dizer que praticava o que hoje se diz como marketing de relacionamento. Mas isso é resumir a dimensão de tudo que ali ocorreu anos a fio.
Veja, há uns quatro anos eu fui para uma festa popular que é o Carnaval de Zé Puluca. Evento que ocorre em Bom Conselho no domingo anterior ao carnaval oficial. No sábado, daquele ano, se organizou a saída de um antigo bloco de carnaval da cidade, coisa da saudade, o Xipê. O nosso esquenta ocorreu na casa da viúva de Arcôncio Camboim, dona Socorrinho Guerra. No meio da conversa veio um dos filhos do casal, não lembro o nome, e me disse mais ou menos assim:
— Papai só chegava da fazenda, almoçava e já ia para a farmácia do seu pai. Como ele gostava de ir lá.
Eu fiquei contente, a minha reação foi tímida e a surpresa sincera. Na semana passada eu recebi um áudio de Luiz Clério, o editor do jornal A Gazeta, de Bom Conselho, noticiando, quase de imediato, uma situaçao que tinha ocorrido minutos antes.
A notícia me fez viajar para a adolescência, as lembranças chegaram como estivesse vivendo aqueles momentos.
Era quase sempre uma hora da tarde. Melhor é dizer, depois do almoço. Era frequente eu vir cobrir papai na farmácia após o meio-dia. Papai que tinha o hábito de cochilar à tarde, saia do comércio e nos colocava para ficar tomando conta dele até perto das três da tarde.
Quase todas as vezes, ao chegar ele já estava sentado, na cadeira vizinha ao balcão em L da farmácia. Já estava com o primeiro caderno do jornal aberto e os outros protegidos sob a sua perna.
Quando eu lia aquele jornal, li saltando as notícias, apenas as que me interessava mais, um pouco mais demorado no caderno Viver. Ele, não, lia metodicamente tudo, tudo. Cada linha, cada palavra. Quase sempre sem conversar, poucas palavras. Respondia aos cumprimentos e voltava à leitura.
Duas horas depois dobrava o Diario de Pernambuco e o devolvia. Se levantava, ia até a entrada da farmácia e ficava por lá alguns minutos observando o que se passava na rua. Depois devagar ia para a calçada, atravessava a rua e subia a praça como se fosse dono do tempo.
De fato foi, viveu lúcido e bem até os 95 anos.
Esse leitor foi o Naduca, Arnaldo Cavalcante de Miranda.