sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

A bola nos unia

       

       A gente sabe que final do ano é o momento das viagens para os reencontros com familiares e que na medida que os pais morrem tais encontros vão, paulatinamente, escasseando.

     Por anos, do início da adolescência até começarmos a sair para estudarmos fora, o oitão da igreja Matriz pelo lado da rua Conselheiro João Alfredo era nosso campo de futebol lá em Bom Conselho.

      Começava por volta das sete horas da noite e ia até acabar a novela Irmãos Coragem. Ali se dava nosso encontro diário, só interrompido quando as barracas para a festa do Natal eram montadas.

       Assim, regado pela Copa do Mundo de 1970, todo menino ali era um craque nos seus sonhos.

       A bola rolava solta, descia e subia ladeira.

       Do lado cima as janelas da casa do seu Barretinho e os janelões da casa paroquial, cujo inquilino, nada menos que o padre Carício.  O temido, exigente, cabuloso e para mim o chato que me dedurava a papai por banalidades.

         Do lado de baixo, uma ladeira, e se a bola acertasse a rua Manoel Borba a gente teria que correr uns quinhentos metros  atrás da bola.  Em tempo, só tínhamos uma.

        Dita as posições dos gols marcados com sandálias havaianas, não se podia chutar forte.  Regra mais importante que o pênalti, aliás, uma raridade, não havia marcação de nenhuma área de perigo de gol.

      Não para jogarmos futebol, mas no começo do mês, eu e meus irmãos - Marcello e Marden - nos encontramos com o nosso amigo Joseilson, encontro provocado por um amplo encontro com os bom-conselhenses liderado por outro amigo daquele tempo do campo de paralelepípedos da rua João Alfredo, Antiógenes, o missionário do reencontro.

      Do trabalho, poucos respondem, mas é possível reencontrar amigos diletos já passados  dos cinquenta anos de idade.


     

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

A bola do Natal



     

            

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     Papai Noel já não era parte da fantasia, mas o desejo de um presente no Natal perdurou por muito tempo.

     Nessa época eu comprei na feira livre de Bom Conselho uma camisa branca cujo colarinho tinha as cores do Fluminense, meu time do coração naquele tempo.
     
     Juntei uns trocados e pedi para pintar o escudo do time na camisa. Agora ela era "oficial".
      
     Nas peladas da rua eu jogava com ela satisfeito.  A bola era a Canarinha. Nunca vi uma que pegasse tanto efeito e todo chute parecia uma tomba, ou seja, uma bomba.
       
     "Mas que nada", na bola capotão, mal saia do lugar.
     
     Quando chegou a bola Dente de Leite, mais pesada, o vento da serra de Santa Teresinha já não dava tanto efeito, mas a danada pulava feito burro brabo e quando descia a ladeira, meu velho, nem Jairzinho pegava. 
      
     Bola Canarinha, bola Dente de Leite, bola capotão, mas faltava realizar meu sonho, ter a minha bola de couro.
       
     Com a mesadinha curta eu só sonhava e desejava, as vezes falava que queria uma.  Nessa época papai estava bem apertado de grana, eu não tinha nenhuma expectativa de ganhar uma.
      
Resultado de imagem para desenho de uma bola de futebol    O Natal ainda estava longe, mas chegou antes, em uma madrugada de  outubro de 1972.

    Foi uma manhã extraordinária, quando acordei ela estava lá, na cabeceira da cama. Reluzente, Marrom, Cheinha, Cheirosa, sonhada como nenhum outro brinquedo, era a "minha bola de couro". A agarrei, meu coração saltitou, saí aos pulos do quarto abraçado com ela e fui para a "cadeira do papai" brincar de quicar no piso da sala de jantar.
    
   Nem prestava para jogar no calçamento, mas foi lá que ela cumpriu a sua missão de fazer um monte de meninos felizes.



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                                         Feliz Natal minha gente!  




22/12/2017

Fonte: Bola. Disponivel em www.educolorir.com

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Já imaginou

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    Estou com essa frase rodando na minha cabeça há muito tempo: Imagina o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente.

     Quem lembra? Nordeste Independe, poema de Ivanildo Vila Nova e Bráulio Tavares.

    Na época significava o desejo de um Nordeste valorizado, apoiado pelo Estado Brasileiro e um Nordeste que desse a sua população uma vida materialmente mais rica.

    Quando a ouvi, em 1986, na voz de Elba Ramalho, trazia o orgulho de um sonho, sonho de uma vida melhor.

    Foi um ato de rebeldia de um repentista e um poeta gritando para dizer: a gente pode cuidar de nós mesmos.

      Mas o tempo passou e em certo momento um político na moita começou a investir por aqui.  Em outras regiões havia suas benesses, sem uma comunicação ampla, cada pedaço se achava mais prestigiado que a outra região até que tudo foi escancarado, o progresso no Nordeste entrou em slow motion e voltou a fazer sentido a frase do deputado Justo Veríssimo: 
       

      Pobre! Tenho horror a pobre! *

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     Justo Veríssimo, personagem do humorista Chico Anísio.
    
     

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Estalei a língua ao beber

                                        Imagem relacionada

     Tem coisa mais típica que estalar a língua quando se bebe um gole de uma bebida saborosa?  Não tem.
     Eu disse para vários amigos que estou brincando com a revisão/edição/preparação do texto do romance de ficção que escrevi: "A puta rainha".

     Mas esta não é uma crônica para literatas, é de descoberta.

     Desde março do ano passado venho me dedicando a escrever este romance, leitura novas, releituras e muita leitura de ficção.
     Acho que nunca li tanto olhando a técnica de cada escritor.  Não o olho do crítico e sim o olhar do aprendiz.
     Uma coisa mudou significativamente, mesmo lendo um livro ruim, eu passei a respeitar e valorizar o esforço de quem o escreveu. Além disso passei a comprar nas livrarias livros novos, o escritor precisa ter a remuneração para o deleite que tenho ao ler seu livro. Por fim,  passei a ler devagar. Passei a sentir cada sabor de uma palavra, da construção de uma imagem, da emoção de um personagem e do escritor, que sente a mesma emoção quando se transmuda escrevendo seu texto.
     Sou fã de três escritores, bem mais de perto que outros ótimos escritores.  Gabriel Garcia Marquez, Mário Vargas Llosa e o Velho Graça.
     Graciliano Ramos, Velho Graça.
     Era um fã que havia lido pouco as suas obras. Amigos como pode ser fã sem beber na fonte?
     Era fã só de ler o que se falava dele. Absurdo, também acho, mas tão comum nos dias atuais, onde se critica sem conhecer o objeto criticado.
     Aí comecei ler Vidas Secas e o livro mais que narrar vidas pobres é escrito para que a pobreza seja sentida a cada frase. É verdade, ali, naquela história, não cabe enfeite e Graciliano Ramos queria transmitir exatamente essa impressão.
     Li o livro de apenas 128 páginas em 30 dias.  Lia pouquinho por vez, li como se estivesse com pena de gastar o último  grão de mostarda da terra.
     Agora estou lendo Angústia, outra escrita primorosa, suave, saborosa e descobri algumas coisas, eu imitava o estilo dele, nos diálogos  e em várias outras construções narrativas só tendo lido Infância e, lá se vão 13 anos. Intuição, penso eu.
     Quer ler algo bom, mas bom mesmo, leia o Velho Graça.  Se municie de um dicionário e saboreie o melhor do melhor.
      
Marconi Urquiza.

Em tempo:
      Tarcizo Leite,
      Pensei em você quando nos encontramos na biblioteca da AABB Recife e me perguntou sobre as crônicas que haviam sumido. Esta é a razão desta crônica.
       Muito obrigado pelo estímulo.

     

sábado, 15 de julho de 2017

A doçura do espírito

    
    
    Hoje eu descobri que perdi a doçura do meu espírito, meus últimos anos de trabalho no BB e outras vicissitudes da vida tornaram meu espírito árido e ao estudar sobre as sombras da gestão e da ética me tornei crítico, muito crítico.

     Mas hoje encontrei o amigo Luisinho, Luís Aprígio dos Anjos, colega de trabalho no BB de Surubim, uma pessoa doce e a primeira pessoa que lia um livro estudando-o, estranho na época para mim, coisa que faço hoje como escritor amador em busca de ideias para uma narração literária.

     Aí depois de 10 anos, na querida Surubim, reencontro ele e ele fica alegre, eu também, aí é ele me diz que eu escrevi um poema para ele, nem lembrava que eu havia feito, ele me trouxe com essa  recordação a minha melhor essência, essa docilidade que herdei do meu avô e do meu pai, dos meus tios, de muita gente, de tanta gente que convivemos pela vida.

    Já dei livro que não foi lido, mas que o presenteado falava de memória para mim a dedicatória que fiz para ele.

      Eita Luisinho, você me fez muito feliz ao recordar a doçura da alma.

Marconi Urquiza
    
     

quarta-feira, 10 de maio de 2017

GOD ON TRIAL - O Julgamento de Deus



O julgamento de Deus - Poster / Capa / Cartaz - Oficial 1         Há alguns anos eu vi o anúncio de um filme na Sky, mas nunca havia tido a coragem de assisti-lo, pois todas as vezes que iniciava me lembrava do Holocausto, das cenas de um documentário onde corpos magros eram levados nas costas de um nazista para uma fossa comum.

      Eram corpos tão depauperados, cuja magreza permitia o soldado nazista os transportar como se levasse um saco vazio.

      O Holocausto foi tão severo que praticamente fez sumir uma língua, o iídeche, mas o judeu tinha a partir da sua religião uma fé que era um povo escolhido por Deus. Eles haviam feito um pacto com Deus para os proteger.

       Mas a perseguição a eles era milenar e veio a Segunda Guerra Mundial e essa perseguição ganhou escala de produção industrial.

       Então três anos atrás consegui ver na internet o filme, cujo nome original é GOD ON TRIAL, às vezes eu ficava tentado parar o filme para que não avançasse e não visse a frustração imensa pela quebra do pacto com Deus, outras vezes queria parar para refletir sobre a sensação de traição que sentiam; queria parar, também, para me dar tempo para refletir de quando a fé é confrontada com uma realidade brutal, como a de um campo de concentração.

       Mas fui assistindo ao filme e os judeus do pavilhão montaram um tribunal e passaram a julgar Deus, enquanto listas de quem iria para câmara de gás no dia seguinte eram anunciadas. 

       Tem uma parte do filme onde um dos condenados à morte diz que se achava invulnerável, não ligava nada para o destino dos judeus, pois se achava alemão, até que na noite anterior o pegaram sem que ele soubesse ter qualquer traço de sangue judeu.

       É uma história repleta de significados, muito boa para avaliarmos se, certas certezas, são de fatos certas.

       Deixei dois links se você quiser assistir.

       Grande abraço, Marconi

http://www.dailymotion.com/video/xlb6u2_o-julgamento-de-deus-parte-1-de-2_shortfilms

http://www.dailymotion.com/video/xlb736_o-julgamento-de-deus-parte-2-de-2_shortfilms

     



     

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Meu encontro com Belchior

       


      Eu me encontrei pela primeira vez com Belchior em 1976 quando cantou "Sou apenas um rapaz latino-americano". Cantava diferente, quase declamava, como​ em uma poesia, o modo diferente causou uma estranheza imensa, mas as suas letras tocaram meu coração, eram músicas que diziam algo para meu espírito.

        E esses encontros se sucederam porque virei fã, comecei com a mesada comprar seus discos.

        Quando vim morar em Recife, vindo do interior, de Bom Conselho, aqui no Pernambuco, os poucos happy hour eram cult, pois eram regados com as canções de Belchior, sentávamos na frente do prédio, com aqueles tira-gostos poucos e simples que a grana de estudante podia pagar, regada pela mesma falta do money que fazia com que cada copo de cerveja fosse muito devagarinho bebido para a festa não acabar cedo. 

       A partir de 1980, 1981 pareceu que ele sumiu do radar e não acompanhei mais seus lançamentos. Aí em meados de 1997 eu vi um lançamento dele, já em CD, aqueles sucessos com novos arranjos, que me deu um certo desgosto, ele havia acelerado o ritmo das canções, algumas ficaram boas, outras me soaram ruim. Mas guardei, tenho até hoje o CD.

         Não lembro qual ano, se 1998, se 2000, não lembro. Estava em São Paulo, aguardando um voo para Belo Horizonte ou para Brasília, mas é detalhe menor. Estou zanzando pelo Aeroporto de Congonhas, depois de passar pelo paraíso, a Livraria Laselva, me impaciento e saí andando de novo, aí vejo Belchior, sem fãs por perto, indo em um guichê, depois noutro, aí ele caminha em minha direção, eu reduzi a passada, até pensei: como ele é baixinho, sabe, me deu aquele nervoso e quis dizer:
      "Ei Belchior, como ouvi suas músicas, como eles me encantaram, como elas foram importantes na minha vida".

       Não disse, a timidez foi maior.


       Mas agora eu vou dizer e peço uma brecha no universo que leve para sua alma:
      "Ei, Belchior, rapaz! Você não sabe como fui feliz ouvindo suas canções. Tu sabe que eu ainda tenho uns disquinhos lá em casa? Sabe não! Pois eu tenho e faz 40 anos."


        Vai com Deus macho!
Marconi Urquiza.
       

terça-feira, 18 de abril de 2017

Captura da Decência

O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer.... Frase de Albert Einstein.


Eu alimento o monstro e o monstro me alimenta.

(Sobre o ciclo "produtivo" da corrupção).

Uma rede, uma cadeia, um enraizamento. Uma gramínea que corre silenciosa capturando a decência.
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À guiza dos depoimentos de Emílio e Marcelo Odebrecht.


quarta-feira, 29 de março de 2017

O SILÊNCIO DE UMA DOENÇA

Nunca despreze as pessoas deprimidas. A depressão é o último estágio da dor humana.... Frase de Augusto Cury.

      A morte por suicídio do colega Flaviano do Banco do Brasil trouxe para todos os seus amigos e conhecidos uma surpresa ruim, depressão, imagino que tenha sido esse o seu mal.
     
     A atenção a esse mal depende tanto da pessoa, quanto das pessoas próximas, da família, de quem ama o doente e, talvez, também da empresa.

       Ao contrário do pensamento de alguns, a depressão não é coisa de gente fraca, ela pode ser orgânica ou psicológica, de toda forma ela depende de bons profissionais para a sua cura, depende do doente, depende da sua esperança, de seu propósito de vida, depende da família, depende dos amigos, depende dos colegas. Enfim, muitos podem ajudar.

       Mas o silêncio que ela acompanha vem da vergonha da pessoa dizer que a tem, vem, muitas vezes, da frieza como a pessoa é recebida e seu mal é encarado.

       No meio corporativo se alguém revelar isso é visto, quase sempre, como fraco. Diante dessa realidade quase todos se calam e aprofundam a sua angústia, pois....

     É preciso ser macho, é fundamental mostrar-se uma fortaleza, é preciso esconder o choro, é preciso ser o super-herói, pois desejar alguma compreensão de seus companheiros de trabalho é uma heresia, ter um mínimo de compreensão dos chefes é um sonho, apenas uma fantasia.

       Assim o silêncio, tão útil para acalmar a mente vira uma arma terrível, um canhão apontado para o próprio peito.

       Sabe como compreendi isso?

     Quando pressionei um colega sem trégua, não consegui extrair nada de útil dele, o afundei ainda mais e comecei a achar ele fraco, incompetente, mas o pior, eu estava no mesmo processo e findou que eu é que fui "punido", rebaixado, quando eu deseja uma nova oportunidade para recomeçar.

      Mas o trabalho não é coisa para gente que precise de ajuda, ali é matar ou matar, se fraquejar... Mas era preciso  prosseguir com a vida.

   No entanto, eu não sabia que estava com esse mal, eu não tinha compreendido que tinha feito mal àquele Zé, até que fora do circuito de gerentes eu tive tempo para entender que eu estava muito doente e não era só dela, o corpo estava muito adoentado.

     Restou buscar ajuda, combater o medo, trazer a raiva de volta e alterar a perspectiva da vida, que eu também era importante.

    Mas a maior lição de tudo isso é que comecei a olhar a alma dos meus amados colegas, até mesmo de muitos que não gostava, para ver se havia algo secreto afetando seu espírito, virei, sem dizer a ninguém um combatente tenaz para não deixar que esse silêncio aterrador fizesse mais uma vítima.

Abraço a todos.
Marconi​ Urquiza.

quarta-feira, 8 de março de 2017

O assalto e o esconderijo

Você só sabe até onde pode ir quando já foi.... Frase de Luis fernando verissimo.

.......................
Por causa do assalto ao BB Agamenon em Recife ontem.
                         ............................
Nesse mesmo assalto ou em outro, nem dei, foram tantos:
Gritaram subindo as escadas: É um assalto!!!! É um assalto!!!!
Muita gente correu para a copa e para o banheiro.
 
Marconi! Nosso amigo Marconi! Inventou de verificar o acontecimento com os próprios olhos.
São Tomé.
Viu e voltou.
Tarde de mais.

Dona Bela fechou a copa. Alguém fechou o banheiro feminino.
Fred passou a chave no banheiro masculino.
Marconi ficou subindo e descendo o degrau onde fica a geladeira.

Até que!!!
"Todo bom filho tem sorte, todo bom marido, não"
Surgiu uma caixa de papelão, dessas de fogão.
Ele colocou-a até a cintura e ficou ao lado da geladeira.

Dizem!!! Dizem!!!
"não posso afirmar porque não estava presente"
Que um ladrão no momento que estava entrando no suporte bateu na caixa duas vezes " toc, toc" e perguntou: o que é isso.
Daí surgiu aquela voz forte, destemida:   "é        u m a       c  a i x a"
Por Euler Araújo de Souza.
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Bem, foi quase assim!
Abraço, Marconi Urquiza.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Você é banal?

Nada é mais prejudicial ao pensamento próprio do que uma influência muito forte de pensamentos alheios.... Frase de Arthur Schopenhauer.

Você já parou para refletir como as atitudes não éticas, como sonegar informações ao cliente ou o induzir a comprar um produto ou serviço para cumprir uma meta ser tão comum que parecem normais a muitos profissionais?

Hannah Arendt ao analisar o nazista Adolf Eichmann disse que em sua defesa que "estava apenas cumprindo ordens", semelhante as declarações de outros líderes nazistas no Julgamento de Nüremberg.

Ele "se lembrava perfeitamente de que só ficava com a consciência pesada quando não fazia aquilo que lhe ordenavam - mandar milhões de homens, mulheres e crianças a morte, com aplicação e o mais meticuloso cuidado (p.37)".

Você conhece alguém com esse perfil?

Segundo Phil Zimbardo (p. 404) Arendt se surpreendeu integralmente ao dizer que Eichmann parecia absolutamente comum:


"Meia dúzia de psiquiatras havia atestado a sua 'normalidade' - 'Ele é, pelo menos, mais normal do que eu fiquei depois de examiná-lo', teria exclamado um deles, enquanto outros consideraram seu perfil psicológico, sua atitude quanto à esposa e aos filhos, mãe e pai, irmãs e amigos, 'não apenas normal, mas inteiramente desejável (p.37)".

Você já conviveu com alguém assim, ser um amor de pessoa até receber ordens e se transformar em um dedicado e maldoso cumpridor das metas?

Então Arendt nos trouxe uma grande lição:


O problema com Eichmann era exatamente que muitos eram como ele, e muitos não eram pervertidos, nem sádicos, mas eram e ainda são terrível e assustadoramente normais. Do ponto de vista de nossas instituições legais e nossos padrões morais de julgamento, essa normalidade era muito mais apavorante do que todas as atrocidades juntas, pois implicava que [...] esse era um tipo de novo criminoso [...] que comete seus crimes em circunstâncias que tornam praticamente impossível para ele saber ou sentir que está agindo de modo errado (p.299). Foi como se naqueles últimos minutos [da vida de Eichmann] estivesse resumindo a lição que este curso da maldade humana nos ensinou - a lição da terrível banalidade do mal, que desafia as palavras e os pensamentos (p.274).


Para Phil Zimbardo, Arendt foi a primeira a negar a orientação que a maldade vem dos traços de loucura dos malfeitores e a violência despropositada dos tiranos como traços constitutivos de seu modo de ser pessoal. Ela observou que isso muitas vezes decorre da fluidez com a qual as forças sociais podem levar pessoas normais a realizarem atos terríveis (p. 405) e menos terríveis, mas atos no mínimo não éticos.

Aqui fica um alerta, dita por C. S. Lewis:


[...] que uma poderosa força de transformar o comportamento humano, empurrando pessoas para além dos limites entre o bem e o mal, advém do desejo básico de estar 'dentro' e não 'fora" e segundo isso nos arma uma armadilha que quebra os freios da moralidade e da ética para ser aceitos em um 'Círculo Interno', pois segundo ele 'um palpite virá. [...] Será o palpite de algo, que não está bem de acordo com as regras técnicas do jogo honesto, algo que o público, o ignorante e romântico público, jamais compreenderia. Algo ante o qual até os de fora da própria profissão estariam propensos a fazer um rebuliço, mas é algo, diz seu novo amigo, que 'nós' - e com a palavra 'nós' você tenta não corar de puro prazer -, algo que sempre fazemos. (Zimbardo, 2007, p. 365)

Aqui fica o meu próprio alerta: esteja sempre, sempre, sempre atenta, sempre atento ao canto da sereia.

Abraço e ótimo final de semana,
Marconi Urquiza

Referências:
    

Links:
http://www.prisonexp.org/book/
http://www.socialpsychology.org/




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O chiado da rede. Uma história de futebol.

Não sei, só sei que foi assim! (Em: O Auto da Compadecida)... Frase de Ariano Suassuna.

Quem jogou pelada já pegou cada tipo de campo, essa é uma dessas histórias!

Quando tínhamos em torno de 17 anos a turma da rua e do Colégio Frei Caetano montou um time para jogar peladas.

Certa vez Adeildo, penso que foi ele, marcou conosco um jogo na Barra do Brejo.

A Barra é um povoado que fica na beira de um rio, cujas margens são escarpadas na rocha, a sua faixa de terra mais plana e estreita é toda ocupada com a praça, a igreja e o pequeno comércio, mais casas. O resto sobe a ladeira.

Aí nosso time chegou e foi procurar Adeildo e a gente sequer cogitou saber qual o local do campo.

Não lembro que hora começou o jogo, mas foi cedo, só na luz natural.

Depois de uns minutos ele saiu com seu Fusca, zero, 77, com um som roadstar, fitas cassetes da melhor qualidade, a TDK, e  um dos sucessos do momento: Agepê.

Era o homem subindo a ladeira na primeira e nós atrás nos carros dos nossos pais.

Com os motores fracos daquela época era um piado só subindo a ladeira íngreme.

Acho que após, sei lá, 10 minutos, ele dirigiu o carro para debaixo de uma árvore e elevou  o som do Fusca.

Nós estacionamos por perto e fomos fazer o "reconhecimento do capim". Literalmente era um cercado formado de um capim baixo para gado. 

Eu lembro que cheguei perto do gol, pequeno, para um campo que pretendia ser do tamanho "oficial".A gente começou caminhar nele, era tão plano que parecia um tobogã.

Andamos alguns metros, ficamos observando o campo no que parecia ser o grande círculo. Visualizamos o gol do lado de baixo e logo fomos chamados para nos arrumar.

O outro time já tinha subido a ladeira pronto.

Não recordo a cor da camisa do time da Barra, não sei se era tricolor, rubro-negra, eu sei que a nossa era uma camisa Hering branca, improvisada de padrão de time de futebol, com os números pintados nas costas por serigrafista. É tudo que eu lembro.

Começamos o jogo defendendo a barra de cima.

Aí começou o segundo tempo, em uma espirrada de um zagueiro do glorioso Barra do Brejo, nós achamos um gol em um escanteio.

Atacar ladeira acima era muito melhor, a bola ficava quase colada nos pés, mas defender ladeira abaixo era uma desgraça, a bola teimava em não ir para o ataque. E o jogo correu assim por muito tempo. Só para vocês terem uma ideia.

Da barra de cima para a de baixo devia ter um declive de 30°. Mas no meio do campo tinha muitas barrocas, fruto das destocas. O cara vinha correndo e de repente faltava chão, a perna dobrava, ou a gente rolava ou caia de joelhos.

Bem, o campo vinha descendo e quando chegava perto do gol do lado de baixo ele subia como em uma lombada, depois, ainda mais abaixo ficava a barra.

O nosso goleiro era o Arthur, que costumava jogar bem. Mas o jogo era tão ruim, se não fosse o gol achado, os times iriam jogar cem anos sem nem chutar direito.

Mas de repente um cara do Barra do Brejo saiu correndo sozinho no meio campo e sobe aquele morrinho e chuta.

Mas a bola subiu, subiuuu, subiuuuu, ganhou altura e nós da defesa paramos, já esperando os meninos que estavam atrás do gol irem pegar a bola.

Nesse ínterim Arthur deu alguns passos e parou e ficou quieto, com a mesma confiança que nós: tiro de meta.

Mas de repente ele se virou para trás, colocou a mão no queixo e disse: foi gol!
Gol como Arthur? Não sei, foi gol. Gol!

Ali mesmo fizemos uma conferência: E como você descobriu que foi gol? Como eu descobri? Eu ouvi o chiado da rede. Chiado da rede? Sim, eu ouvi o som chiiiiiii, aí me virei.

Mas não era para ser gol Arthur, uma bola dessas! Mas foi. 

Aí alguém gritou, olhem a barra! Nós olhamos e balançamos os ombros, como se dissesse e daí? Olhem a barra, a pessoa insistiu e aí nós vimos.

Primeiro ela ficava mais abaixo do morrão artilheiro e depois ela parecia um cesto, um jacaré em pé com a boca aberta.

A barra tinha uma inclinação para trás que aumentava o ângulo quando a bola vinha do alto e quando o cara chutou ela disse para a bola venha cá minha menina e a abraçou.

Pronto! 1 x 1.

Aí me lembrei de Jackson do Pandeiro: Esse jogo não pode ser um a um .... Era para ser mesmo zero a zero.

Abraço e ótimo carnaval.
Marconi Urquiza

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Os bichos de BC, outros apelidos e Zé Mole.

Lá na minha infância tinha uns amigos de papai com alguns apelidos derivados de outros animais,  a começar por ele.

Dr. Gia (rã grande), era o meu pai. Gordo e dono de uma farmácia, da turma dele tinha Pavão. Homem vaidoso, bem apessoado, de origem humilde e bem casado.

Outro grande amigo de papai era o Bicho Velho, Zé Bicho Velho. Homem magro, alto e com a cara de velho desde de novo.

Naqueles tempos tinha ainda o Barrão, machante, como era chamado os açougueiros por lá. Trabalhava no mercado da carne, sujeito gordíssimo, que suava às bicas, tanto que a sua pele parecia eternamente brilhosa.

Havia até um primo do meu pai, chamado de Bode Velho, pois sua voz era extremamente grave, tanto o timbre da voz quanto seu rosto carcomido pelo tempo lembravam um bode berrando.

Mas protagonizei um caso cabuloso quando soube a história de Zé Mole, sabe aquele negócio de politicamente incorreto e incrivelmente inconveniente? Foi o que ocorreu!

Zé Mole era freguês da farmácia do meu pai e ex-inspetor de quarteirão. Na época já era bem idoso, eu o atendia e tinha a curiosidade de conversar com ele. 

Freguês habitual e pontual no pagamento, ele chegava falando alto no final das sextas-feiras, fazia as suas compras e se mandava, mas deixava um rastro de sua irritação congênita. Falava tão abusado que ninguém queira atendê-lo.

Mas calhou que minha curiosidade foi maior que a prudência, pois já fazia um tempo que havia ouvido a história que originou o seu apelido.

Disse papai que ele estava em uma festa quando foi chamado para dá jeito em homem que fazia arruaças. Zé Mole chegou no cara e foi usar a sua autoridade e deu voz de prisão, mas foi surpreendido.

Quando ouvi isso de papai e sua recomendação para não falar com ele do assunto eu me calei durante meses, até que não consegui me aguentar e parti para comprovar a história, o  porquê o chamavam de Zé Mole e na lata eu perguntei a ele, que me olhou atravessado e eu insisti:

"Ou Zé Mole" - olhe a intimidade para um homem de 80 anos, eu que tinha 17 anos. "Ou Zé Mole é verdade que você foi dá ordem de prisão a um bêbado e ele sapecou-lhe um tapa no pé da orelha e você caiu e ao levantar disse teje solto?"

Eu havia todo tempo repetido e rido  ao lembrar dele: "Teje preso! Teje solto! Teje preso! Teje solto!"

Mas o seu olhar atravessado mudou para um olhar de raiva, fechou a cara, empurrou os remédios em minha direção e saiu da farmácia batendo a bengala com força para nunca mais voltar. 

Sabe aquele negócio de ficar com a boca fechada que não engole mosquito?

Pois é, eu faltei a aula de Einstein!

Se A é o sucesso, então A é igual a X mais Y mais Z. O trabalho é X; Y é o lazer; e Z é manter a boca fechada.... Frase de Albert Einstein.




OS SAQUES NO ESPÍRITO SANTO

       

        Anteontem no Linkedin Gilliard Leal postou uma foto e seu comentário de um saque em uma loja da Ricardo Eletro e aí se instalou uma longa discussão, com muitas postagens sensatas, outras emocionais, radicais, com acertos e exageros.

      O episódio lembra o caso de Abreu e Lima, inclusive no arrependimento dos envolvidos.

      Nas postagens apareceu falta de caráter, culpa do povo que vota em políticos corruptos, da cultura brasileira de levar vantagem e se aproveitar das oportunidades, mesmo que elas sejam ilegais, como no caso dos saques; até isenção da responsabilidade dos nossos líderes para a influência na cultura brasileiro de levar vantagem em tudo.

      Fiz alguns comentários, com base em dois livros, um que li e outro que estou lendo: Tolerância Zero e O Efeito Lúcifer. Também aproveitei uma citação de um comentário e lembrei de outro livro que li quando fazia o mestrado e tentava encontrar um estudo científico que me ajudasse entender alguns comportamentos no trabalho: Teoria das Janelas Quebradas.

     Todos os livros de alguma forma se relacionam com a psicologia social e sociologia comportamental, assuntos pelos quais sou fascinado. Gosto de entender os comportamentos macro, aquela coisa que nos envolve e muitas vezes só nos damos conta do que fizemos quando a merda já fedeu.

      Não me aprofundando no aspecto da individualidade, estes saques não foram motivados pela necessidade, alguns de má índole iniciam os saques, a maioria (com as suas responsabilidades individuais) entram neles pelo Efeito Manada e só depois é que se dão conta do que fizeram, o que provocou, em ambos os exemplos, a devolução das mercadorias.

      Estes fatos e os estudos citados revelam como somos suscetíveis às influências das circunstâncias, como as situações nos impelem a agir para o bem ou para o mal.

    Inclui o link para quem desejar conhecer a polêmica.

Ótimo final de semana.
Marconi Urquiza

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Cheiros

   

C H E I R O S 

Cheiro de fumaça de café quente,
Cheiro de pão fresquinho,
Cheiros que estão na alma da gente.

Cheiros...
Do leite tirado na hora.
Cheiro do gado no curral.

Cheiro de infância... 
Cheiro da chuva molhando a terra. 
Eu-menina sorrindo na enxurrada.

- Às vezes o dia tem cheiros de ontem! 

®Verluci Almeida
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Amiga leitora, amigo leitor, em algum momento você parou para pensar nos cheiros dos seus lares?

Dois, três, talvez entre quatro e cinco anos eu escrevi uma crônica intitulada de Sons e tive do amigo Djalma Xavier a mais bela resposta a uma crônica minha, dele veio o belo libelo à sua família ao dizer sobre os cheiros da sua casa materna,  do cheiro do amor do seu lar em Pesqueira.

Todo lar tem seus cheiros, o cheiro da cozinha, dos quartos, das roupas, cheiro das pessoas e nos mais antigos vai aparecer até cheiro de lenha queimada.

Mas cheiro do amor, tão claramente declarado, tão amorosamente dito por Djalma e depois de ter passado tanto tempo parece não ser a regra comum.

Da família parece mais comum na idade adulta falar das carências, falar das mágoas, dos sacrifícios materiais e por aí vai, mas de amor?

Bem! De amor é mais escasso, por isso é uma joia rara e por isso é que enalteço OS CHEIROS LÁ DE PESQUEIRA.

      Um Cheiro meu povo!

Um grande abraço e ótimo final de semana,
Marconi Urquiza

domingo, 22 de janeiro de 2017

Agenda da Ausência.

              Quem está ausente, teme e tem todos os males.... Frase de Miguel de Cervantes.    
   Quando ouvi do professor da disciplina de Políticas Públicas no mestrado de Gestão Pública dizer que só vai para a agenda dos governantes quando o problema pode lhe condenar perante a opinião pública eu fiquei sem entender claramente o seu raciocínio: É só assim que há as ações de governo? Então depois comecei a prestar atenção nas situações que provocavam coletivas à imprensa ou os comunicados formais.

     Por causa dos problemas recentes nos presídios eu tenho lido muitas opiniões pelo fato de que eles viraram território das facções, o estado faz que manda e os internos fazem que são mandados.

     Por causa de tais problemas veio o dilema político-legal: deixa os caras se matarem ou intervem gastando uma fortuna?

     Mas aí surgiu a opinião internacional e as piores comparações contra o Brasil forçando o governo a agir, pelo menos na comunicação.

    A questão maior é que os problemas internos nos presídios tem um perna musculosa fora deles, são milhares de agentes anônimos dispostos a agirem em nome da chefia das facções, até já estão se infiltrando nos órgãos do Estado e isso é um problema muito mais grave e que vem sendo reanotados na agenda pública a cada crise e há muito tempo.

    Alguns dos colunistas que li nos jornais, blogs e sites de notícia, como é também da opinião de alguns estudiosos da segurança pública é que o Brasil pode estar entrando na mesma rota da perturbação da ordem institucional que ocorreu na Colômbia  dos anos oitenta e noventa, cujo maior expoente foi o narcotraficante Pablo Escobar, o que por si não exige maiores explicações.

    Se tal realidade estiver mesmo ocorrendo e não for combatida com uma Politica de Estado, de longo prazo e que ultrapassa governos, correremos o risco de vivenciarmos anos de muita agonia.

Abraços e bom final de semana.

Marconi Urquiza



sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Modas de Menino

        Cada qual sabe amar a seu modo; o modo, pouco importa; o essencial é que saiba amar.... Frase de Machado de Assis.
         
   Saí dos 57 anos e viajei para os 17, onde meus olhares de curiosidade, mais que de cobiça se voltavam para as meninas.
    
      Eram seres estranhos, todo um continente a ser descoberto e se me perguntar: Descobriu? Amei, mas estou ainda tentando descobrir.
     
      É um universo enorme. Não vou descobrir.
    
     Mas essa viagem para os 17 anos começou na sexta passada em BC, minha terra natal e da minha adolescência.
     
     Passou uma jovem com seus quadris levemente pronunciados, nem retos e nem em excesso, mas com um caminhar que os fazia erguer ritmados, em um requebrado tão natural quanto gracioso.
   
     E o que fez enaltecer esse seu atributo natural foi a roupa, estava vestida em uma calça leve e flexível e não nas habituais armaduras, apertadas, que chamamos de jeans.

     Na hora eu fiz uma analogia nada graciosa, comparei os quadris subindo e descendo a duas cartucheiras do velho oeste, cheias de brilho e de balas.

     Aí foi quando voltei aos 17 anos, curioso e doido para sentir o cheiro e o gosto da pele daquelas meninas que rodavam na Praça Pedro II e sem compreender, patavinas, do coração de uma mulher.

Abraço e bom final de semana.
Marconi Urquiza

BC - Bom Conselho (PE)

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Diz Suzy, mulher, tás boa?

      
     Na realidade mais pura, tudo na vida é único, mas há passagens que são absolutamente únicas. A que vou narrar é uma dessas. 

      Neste sábado eu e Cida, Victor e sua noiva, Milena, fomos ao casamento de Suzy, Suzana.
   
     Conhecemos Suzy ainda bebê, engatinhando, com meses de nascida.
   
     Eu e Cida estávamos recém-casados quando começamos auxiliar os  pais de Suzy a cuidar dela lá em Afogados da Ingazeira, por causa dela nos tornamos amigos e compadres, com Ari e Sylvinha sendo padrinhos do nosso filho Victor.

     Em função de Suzy tive a primeira lição do capítulo do livro da vida de como ser pai.

     Mas meu trato e habilidade com crianças era zero, zero. Zero e com bebês menos ainda, pois eu não sabia como pegar uma criança no colo, eu tinha o maior medo que Suzy se quebrasse toda quando estivesse nos meus braços.
    
     No verbo e no dengo a coisa era ainda pior, mas achei um jeito de me comunicar com ela e assim que a via saia dizendo: "Diz Suzy, mulher, tás boa?"
     E assim foi pelo menos por mais um ano. Dia desses comentando com minha esposa ela me disse que Suzy gostava do meu trato "adulto" e até me chamava de Con.

     Mas, ao que parece, esse jeito sem aquelas palavras de dengo existia um  trato amoroso, carinho e respeito àquele serzinho que nem falava, mas que sentia.

    Pois, enfim, afora os nossos filhos ela é até hoje o único bebê que tivemos o prazer de convivermos na tenra infância e que tivemos a honra de sermos convidados e de vê-la casar.

    Oxalá sejamos convidados para os batismos.
Jampa, 07 de janeiro, às 16.25h
Abraço e bom final de semana.
Marconi Urquiza

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Jogador de Usina

    Futebol moderno é que nem pelada. Todo o mundo corre e ninguém sabe para onde.... Frase de Neném Prancha.     

    Jogador de usina é sinônimo de grosso, de jogador que só dá bicões ou chutões.

    Tem coisas que parecem só ocorrer em mesa de Bar. Ontem estava na Bodega do Abel e ao ver um jogador do time sub-20 do Vasco da Gama cobrar um falta e chutar para bem longe  do gol eu disse: cobrou um tiro de meta e ouvi de outro freguês do Abel emendar: é jogador de usina.

     Aí eu viajei no tempo, nos tempos de Boca do Acre-AM em 1992.

    Depois de muito anos jogando pelada de "alto nível" eu fui convidado por um amigo para jogar uma partida amistosa no Km 120 da estrada Boca do Acre (AM) x Rio Branco (AC).

   Logo após o meio-dia do domingo eu peguei Melquidesec na velha Boca do Acre e seguimos de Fusca, azul, 1982 pela estrada empoeirada para nosso jogo de futebol, acontece, acontece que o Km 120 não era o Km 120. Aliás era, mas no sentido Rio Branco  a Boca do Acre.

   Parados no meio da estrada, com a floresta nos cercando, ficamos perdidos, mas a vontade de jogarmos nos mandou até a uma estalagem que ficava bem na fronteira entre os dois estados e lá perguntamos sobre um campo de futebol no nosso Km 120, aí o homem estranhou, lá é a reserva dos caboclos, mas eu soube que ia ter um jogo aí embaixo, nas terras de uns gaúchos. 

   Com essa dica seguimos para lá, aportamos lá perto da duas da tarde. Para minha decepção, eu que fora convidado a jogar e me achava um ótimo zagueiro só entrei no segundo tempo e nem foi o tempo todo, talvez 30 minutos. Na verdade, eu acho  que nem foi 20 minutos, talvez 15.

    Bom vamos para o jogo!

    Primeiro: entrei de volante.

    Segundo: nem toquei na bola. Literalmente, não toquei na bola!

  Terceiro: o campo era tão pequeno que parecia mais um mini-campo, mas tinha 11 jogadores de cada lado. Uma superpopulação "carcerária."

    Quarto: foi o único jogo na minha vida de defesa para defesa.

    Havia dois xerifões, dois zagueiros que só sabiam bater tiro de meta ou a dá chutões, não tinha esse negócio de dominar a bola e dá um bom passe. Era um jogo de barra a barra. O grandão de lá corria de dava um bicão, o grandão de meu lado deixava a bola passar e dava outro bicão.

   A bola ia para um lado e para o outro, lá no meio do campo eu parecia mais um torcedor de tênis no meio da quadra, que vira a cabeça incessantemente de um lado para o outro. Eu nunca vi tanto míssil em minha vida.
     
   Foi a pior pelada da minha vida. No auge da frustração até me sentei no capim reclamando de uma câimbra no meu humor.

   Olhe! Pense! Pense! Naquele vulto branco só indo e vindo, pense naquele vulto esfumaçado, um fantasma indo e vindo para me assombrar pela eternidade só de pensar em um jogador de usina!

Abraço, 
Marconi Urquiza

Existimos: A que será que se destina?

Viktor Frankl             Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...