sexta-feira, 2 de maio de 2025

Passagens

 



          Nesta semana vi o vídeo (reels) no Intagram do Pedro Pacífico (@bookster). Ele fez uma analise dos comentários da Amazon sobre cinco livros que ele considera entre os melhores que leu. Aí foi comentando cada ponto das opiniões inseridas pelos leitores.

        Tempos atrás li, não sei onde vi, pois faço leituras aleatórias de observações, comentários, notícias (a maior parte), resenhas de futebol (algumas), algumas notícias que envolvem a política brasileira (já li muito este ponto. Muito.) Não leio tudo que me chama atenção, mas entre as leituras majoritárias, estão as manchetes que me atraem.  Este é um "segredo" para capturar a nossa atenção. O título. Ou nos dias hoje, o tema mais polêmico, a maior baixaria ou o mais negativo, entre outros pontos.

        A leitura antiga dizia, mais ou menos assim: Quais livros você leu que foram importantes para você? Quero ampliar de livros, para quaisquer outras leituras. Comecei a lembrar de algumas enquanto estava escrevendo.

        Em 1995 fui transferido de Palmeirina (PE) para Barboza Ferraz no Paraná. Antes dela ocorrer eu havia passado quase seis meses lendo as famosas CICs, em resumo, as instruções normativas que o Banco do Brasil determinava e orientava as condutas dos funcionários, dos processos e dos negócios.  Comecei pela CIC Administração e finalizei com a CIC Crédito. Por que li? Por que sentia uma carência de conhecimento dos elementos normativos para eu ter uma gerência correta.

        Calhou ter sido transferido quando a leitura ainda estava, na maior parte atualizada. Então esses conhecimentos estavam fresquinhos na cabeça. Mas eis que viajei. Pela primeira vez na vida viajei para São Paulo e de lá para Curitiba. Teve um momento que o avião baixou, perto do aeroporto de Guarulhos e vi as edificações se perderem no horizonte. O gigantismo de São Paulo passeou pelos olhos naqueles poucos minutos.

        Enfim, cheguei a Curitiba para pegar o voo para Maringá. Era agosto de 1995, mas a cidade não estava muito fria, Maringá estava quente, entre 32 e 35 graus.  Um calor pesado e abafado. Esses períodos em pleno inverno tem nome: veranico. Veranico, pois duram poucos dias e logo vem uma frente fria a exigir que vistamos as roupas de frio.

        Estava passeando pelo Aeroporto Afonso Pena e me aproximei de uma banca de revistas, nela vi vários textos curtos sobre Administração de Empresas. Comprei dois, por serem com poucas páginas os li enquanto não ocorria a chamada para ir a Maringá.  Tais publicações, de quatro páginas, me serviram de guias para o mundo novo que seria trabalhar em um estado com a fama de desenvolvido, com uma economia forte e com gente com pensamentos diferentes dos nossos, no contexto daquela época. 

        Foram estas publicações, curtas, que me deram um norte para gerir melhor, agregando uma intuição forte com conhecimentos técnicos. 

        Nesta época eu era 90% intuição. Uma sensibilidade enorme para ver as pessoas, os contextos e criar soluções a partir disso. Funcionou bem durante muito tempo.

        Vou dar um pulo gigante no meu tempo de vida. Vinte anos, aproxidamente, após o nosso retorno do Paraná para Pernambuco, que ocorreu em 2003, fui deixar Cida na Igreja Nossa Senhora do Carmo. No seu dia é feriado em Recife. Na ida vi na Avenida Guararapes vários sebos ambulantes embaixo das marquises dos prédios, então voltei e estacionei o carro ao lado dos Correios. Segui para lá e fui passear por aquele enorme "saguão" com os livros expostos no chão.

        Nesse passeio vi vários livros, de tudo que é tipo. Queria e não queria comprar, tenho a mania de comprar livros novos para que o autor ganhe uma laminha com minha compra. E fui passeando. Interessante, havia algumas pessoas também olhando e todas silenciosas. Ali não tinha papo e quando tinha, era em voz baixa. E fui passeando, parava, olhava, seguia em frente, quase no final daquele trecho de exposição dos livros vi um título, parei, fiquei olhando para ver detalhes, me agachei e o peguei. O livro estava com a capa se rasgando, detonado. Folhei um pouco e o coração exigiu que comprasse. 

        — Moço, quanto é este livro?

        — Cinco reais.

        — Cinco reais?

        — Cinco reais - paguei e ele me deu uma sacola plástica para levar o livro.

        Naquele mesmo dia comecei a ler. E fui lendo cada vez com maior interesse, pois o livro me ajudava a entender tanto o momento em que vivia quando as crises que passei alguns anos antes.

        Na minha infância e adolescência ouvi muitas vezes lá em casa, Fulano está em crise da meia idade. Não compreendia o quer era tal coisa, carecia de explicação e contextoNão tive, só a informação; Fulano tá em crise braba e é da meia-idade. O tempo passou eu esqueci da tal crise da meia idade, nem quando aos 38 anos entrei em uma crise pesada sem entender o problema, pois parecia não ter causa externa.

        Depois tive outra aos 48 anos, nessa já estava fazendo psicoterapia, que ajudava, mas não resolvia. 

        Foi nesse contexto que o livro que achei no sebo entrou como uma leitura importante para mim, quase salvadora. Era lendo e a mente se abrindo para a compreensão do ocorreu e ocorria. Então é isso? É isso? E fui me aprofundando na leitura, cada vez mais esclaredora das dores que tive e ainda dava seus cutucões.

        Quando cheguei ao fim da leitura, pensei em duas coisas: aqueles foram os cinco reais mais bem usados na vida e o senhor que me vendeu o livro, tinha um tesouro em mãos e não sabia. Agora estou com ele aqui comigo enquanto escrevo esta crônica. Folhas se soltando, capa rasgada, lombada em parte solta, mostrando os caderninhos colados. Mas isto não muda, ele é um tesouro que a autora nos deu para compreender parte da vida.

        Gail Sheeny, é a autora dessa preciosidade: Passagens - Crises previsíveis da vida adulta.

        Bem, como o vi nesta semana, cutucando o meu acervo desorganizado, lembrei do bem que me fez.

        Abração, Marconi.





        

    

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Hoje eu vou falar de livros




                   Há livros que ficam dias, alguns anos e até a vida inteira na lembrança de um leitor.

                Sou fã de Graciliano Ramos e dele quando penso na arte de uma escrita, seca como o enredo, seca como os personagens, sem rebuscamento, apenas as palavras colocadas com precisão. Parafraseando Graciliano, palavras são para dizer e não para enfeitar. Na leitura que fiz de Vidas Secas só identifiquei uma leve metáfora envolvendo o Sol. Este livro para mim é uma obra de arte, pela forma como as palavras e a construção do texto se encontra com a realidade dos personagens no sertão e na seca. Sou um leitor que ler rápido, fruto do hábito e de um bom vocabulário adquirido em uma vida de leitura. Mas Vidas Secas eu li devagar. É um livro que li com reverência, poucas páginas por dia. Um livro que merecia uma leitura como se aprecia uma pintura, em que se ver os detalhes e não uma vista rápida como ocorre na rua.

             A pouco anos li o que era para ser um roteiro de um filme e virou livro de Ariano Suassuna. O humor, o personagem Malaquias Pavão, o malandro sertanejo, cheio de manhas para vender uma cachaça falsa pelas feiras das cidades sertanejas. O livro, O Sedutor do Sertão, também é uma obra de arte, repleto de ilustrações que provoca no leitor um encontro com a imagem que saltam das palavras para as gravuras que estão nas páginas do livro. Que rir, rir muito, leia este livro.

            Sabe, li 13 livros de Gabriel Garcia Marquez, era tão fã que comprei dois livros em espanhol, editados em Bogotá. Um deles foi  La mala hora, que levei seis meses para concluir a leitura. Tinha frase que era preciso adivinhar, tinha de tentar captar o contexto para entender muitas passagens do livro. Isto fruto das expressões idiomáticas empregadas por Gabo. Durante anos qualquer livro que via do Gabo eu comprava, sem hesitar. Bem, vários me encantaram, cito dois: Amor em tempo de cólera e principalmente Crônica de uma morte anunciada. A analogia que faço é, ao ler este romance, como estivesse vendo um filme. Dele também gostei da forma como criava seus textos, parágrafos curtos, linguagem acessível. Sem ser imitador, me inspiro nele para criar algumas passagens dos meus romances, contos e até crônica.

            Estava para ir para Belo Horizonte em 2007, aguardava no Aeroporto dos Guararapes a hora do voo então subi ao primeiro andar e fiquei circulando por lá. Só queria ocupar o tempo. Passei direto para o ponto de observação das chegadas e partidas dos aviões. Me entediei e voltei a andar, em um dos corredores encontrei uma livraria, pequena, ainda cheia de livros. Hoje os livros nesse mesmo aeroporto ocupa uma pequena seção de uma loja. Fiquei folheando revistas, no limite que era permitido, poucas páginas por vez, até que me deparei com um romance de Mario Vargas Llosa.  Muito tempo antes eu tinha lido A Guerra do fim do mundo, cujo enredo é sobre o massacre em Canudos. Fiquei encantado com este livro. Aí a vista se encontrou com Travessuras da menina má, li a quarta capa que falava de um amor de mão única. Um homem que amava uma mulher. Comprei e comecei a ler no avião, passei a semana lendo. Fiquei impressionado com a história e como ela foi contada, mas até hoje creio que o livro traz é uma história real. Sei que um escritor do gabarito de Llosa faria uma ficção tão primorosa, excepcional, mas como leitor, meu sentimento é: Aquilo foi real. Ótimo, ótimo romance.        

            Mais recente, menos de um mês li dois livros, um deles foi Os perigos de imperador. Neste livro Ruy Castro mistura textos do diário do Imperador Pedro II, reportagens de um jornal americano na viagem que ele fez aos Estados Unidos em 1876, também do poeta Sousandrade, opositor de Pedro II. A história é séria, mas contada em detalhes e com leveza sobre o atentado que ele sofreu em Nova Iorque. Para mim, uma coisa fenomenal, que nada conhecia da personalidade do imperador. A sua leveza, uma visão de futuro, um homem de letras e artes como ele se autodenominava. 

            Ainda bem que li este livro depois de O Rei de Havana, do cubano Pedro Juan Gutiérrez. Comecei cheio de expectativa, o título me levou a crer que a história teria um tipo herói, um personagem grandioso, até uma história edificante. Com aquele viés da auto ilusão, que o mundo é apenas de cores e bons cheiros, comecei a ler e fui entrando pela história, e fui avançando, preso à curiosidade e torcendo que a vida do Reinaldo, o Rei de Havana, desse uma virada, só piorou. O livro traz a situação de uma família pobre, desagregada, com vizinha prostituta que ganha mais que um trabalhador normal em Cuba, de uma mãe que vivia a gritar, quase louca e uma avó que emudeceu da desgraça em que vivia. Quando lembro do livro, ainda sinto o amargar do fel da realidade narrada. É dura. O autor é um mestre que me fez ler até o fim, caminhar pela sarjeta junto com o personagem Reinaldo.

            Eu precisava escolher uma imagem para ilustrar esta crônica, fiquei minutos pensando, então escolhi a frase do mestre Ariano, que espelha esta crônica.


        Abração, escolha um livro para voar na imaginação.

                Marconi Urquiza

        

        

        


sexta-feira, 18 de abril de 2025

Tia Lídia - 100 anos.

         


        Estava devendo uma gratidão e nunca manifestei. Eita, Tia Lídia, muito obrigado por ter me recebido e a meus irmãos em sua casa, muito obrigado por ter cuidado da gente.

        Sabe, Tia Lídia está viva e fez 100 anos no final de março. Em 30 de março fomos à sua festa de centenário em Saloá. Saímos de Recife na véspera e ainda chegamos atrasados na missa. Na pequena igreja católica estavam basicamente os parentes. Filho, sobrinhos, genros, netos, netas, bisnetos e bisnetas, concunhada, como minha mãe. Muita gente que não lembrava, muita gente que não conhecia, os mais jovens.
        
        Em pouco tempo que estávamos na igreja a curta missa foi encerrada. A sessão de fotos nela tomou tanto tempo quanto a missa. Mas como era importante ter tantas fotos junto a uma pessoa tão querida.
       Tia Lídia ver pouco e de perto. Escuta bem. Na saída da igreja ela conversou comigo animada.
        
        Coisa de 10 minutos, Cida e a sua filha Lela vieram com ela ao nosso carro e a levamos ao local da recepção. Um salão grande, repleto de familiares. Pelo canto do ouvido escutei uma pessoa dizer: Tia Lídia é paciente, escuta tudo e sem enxergar quase nada não se irrita. Mas, mas ela era a estrela da festa e todo mundo queria ter mais uma foto com ela. Nós também. Esse nós são meus irmãos, as esposas e mamãe.

        Observando aquela movimentação e vendo Tia Lídia sentada com a sua bela roupa azul e branco, com o cabelo branco, todo branco, sem tintura, combinando e contrastando com o azul celeste de sua roupa eu fui viajando na lembrança, na lembrança daquele menino magrelo que saia de Bom Conselho e ia passar as férias escolares na casa dela e de tio Serafim.

        Naqueles instantes veio com uma clareza absoluta, como um vídeo, eu acordando, indo ao banheiro e ao sair ouvir a voz dela dizer: Marconi senta na mesa, já levo o leite quente. Leite tirado naquela manhã pelo primo Jaime, que madrugava para alimentar as vacas e para tirar o primeiro leite para levar à casa dos seus pais.

        Sobre a mesa estava o cuscuz novinho, o queijo de coalho assado, o pão na chapa, a garrafa de café forte e lá vinha o leite fumaçando e ela colocava sobre o cuscuz que eu já havia me servido. Era um tratamento especial. Tão dela, tão especial, mas para todos que chegam à sua casa. Nada de exclusivismo.

        Naquele milagre que a memória faz e lembrei-me de algumas vezes que tio Serafim pediu a Jaime que fosse na mercearia do Valderez comprar uma goiabada, a goiabada Peixe, que ele comia muito e com gosto. Uma dessas vezes nós fomos no lombo de um jumento e tomei um tombo, um tombo grande e não me machuquei por ter caído sobre uma touceira de capim. É que jumento decidiu parar para comer e baixou a cabeça repentinamente. Subitamente me vi voando e me segurando no vazio pela da rédea do animal.

        Em outra ocasião nós comemos uma melancia verde e Tia Lídia se aperreou e para evitar dor de barriga fez da casca dessa melancia um chã para eu não adoecer. Noutra vez foi Tio Serafim, que para mim, do nada, percebeu que havia uma cobra verde escondida no terreiro de secar café. Até hoje me pergunto, como ele descobriu aquele animal.

        Mas aí eu cresci, fui ficando adolescente e deixei de ir ao sítio Barro de Souza e à casa de Tia Lídia. Fui me afastando, a vida e eu mesmo fui caminhando para longe de Saloá e dos encontros com os familiares.

        O tempo na recepção foi passando, os assuntos foram se esgotando e eu chamei Cida para irmos para o hotel em Garanhuns. Às seis e meia da tarde saímos de Saloá trazendo no matulão um milhão de lembranças que não cabem na minha mente, só no coração.

      
         Feliz Páscoa!

        Abração, Marconi Urquiza.

        
        Outra foto:

Tia Lídia e várias sobrinhas e sobrinhos.


sexta-feira, 11 de abril de 2025

Lembrança vazia

 

        Sábado passado me larguei de Recife no meio da tarde e fui a Bom Conselho. (284 km). Fui por que o amigo Antiógenes me incluiu em uma homenagem ao Frei José, nosso Frei Lourenço, fundador do Centro Sportivo Bomconselhense, o CSB.

        No domingo o clube fez 53 anos de fundação. Foi o ressurgimento do time como seniors 60+. Que é um congraçamento de peladeiros que todos os domingos vão ao campo soçaite da AABB de Bom Conselho. Jogam e depois se confraternizam com um café da manhã.

        Quando parei em Garanhuns, perto das 18h e abri a porta do carro para ir jantar senti o friozinho gostoso, relaxante, saudável. Eu gosto desse friozinho, me deixa contente e saudoso.

        Jantei e fui para Bom Conselho, cheguei lá sete e meia da noite. Fui logo para o hotel. Logo dormi. Mas pela madrugada acordei várias vezes, estava preocupado em não chegar atrasado no campo da AABB. A pelada se organiza a cada domingo às 6.00h. Cheguei lá a essa hora e já estavam, além de Marcos Guedes, o organizador da pelada, vários jogadores.

        O tempo depois chegou Antiógenes e Frei Lourenço. Não tivemos muito papo nessa hora, apenas fotografias. Tinha muita gente. Pelada de 10 minutos, quem perde sai. Os dois primeiros jogos foram empate. Vem o terceiro e nosso time perde de 1 x 0. Jogamos mais uma, nova derrota de 2 x 0.

        Acabou a pelada, que tem hora para terminar, às sete e meia da manhã. Fomos para o café da manhã e para a simples e imensa homenagem a Frei Lourenço que 53 anos atrás criou o CSB, organizou e liderou por 3 anos. Esse time deixou um legado para muitos jovens, jovens adultos e adolescentes à epoca, como eu e Antiógenes.

        Estávamos aguardando os alimentos do café da manhã chegarem e sentei à frente de Frei Lourenço e conversarmos um pouco sobre o CSB. Veio a homenagem a ele, que recebeu um quadro com três fotos dos equipes iniciais do infantil, juvenil e adulto. 

        Do infantil só lembro por causa da foto, do juvenil lembro mais, pois vi muito jogos e daquele adulto de início não tenho nenhuma recordação de algum jogo. Lembro muito do time que se formou com Geraldo Grade, Chicão, Gato, Zé Cícero, Elisênio, Élcio, os demais jogadores não recordo os nomes.  Lembrei do ponta esquerda: Zequinha, que tinha uma jogada plástica. Correr pela esquerda, com a bola correndo pelo chão e cruzar de primeira, achava lindo tais cruzamentos. Geraldo Grade, multiatleta, jogava tão bem como o maior zagueiro daquele inicio dos anos 1970, o Luís Pereira. Lembro que Chicão passava rápido da lateral direita para ir linha de fundo.

        No domingo passado, Chicão, aos 75 anos, estava em campo. Ao vê-lo tocando a bola, dando passes, se posiocionando em campo fiquei a pensar: "Ele deve ter jogado muita bola quando jovem". Frei Lourenço, aos 86 anos e meio, também estava. em campo. O que me lembrou dele jovem, na ponta esquerda, habilidoso e forte para caramba, que não deixava lateral o pegar com rispidez.

        Voltando para o salão onde esperava o café. Fiquei papeando com Frei Lourenço, fiz alguma observação sobre o time infantil, ele disse que não lembrava e mostrei a foto a ele. Apontei para mim aos 13 anos.

        Naquela hora lembrei que ele me aplaudiu, me estimulando, após uma tentativa de passe longo para o ponta direita que não deu certo. O passe foi na direção do meio da área. Mas isto não comentei com ele. Comentei sobre um gol de Elisênio, uma arrancada fenomenal do meio do campo e que terminou com o chute dentro do gol de antes da linha da grande área e; ele caindo após o chute e do chão ver a bola entrar. O quando lembro até hoje me impressiona a imagem, pois a poeira do campo de terra fez uma nuvem encobrir o corpo de Elisênio. O craque em um time de ótimos jogadores.

        Até esse momento eu só tinha referência de ter estado no CSB por causa da lembrança desse passado aos 13 anos e da foto. Mais nada. Não mais que a lembrança daquele treino e talvez de um jogo que fizemos no campo da AGA em Garanhuns, no qual perdemos e tomamos um vareio. Pois o time do AGA, daquele dia, me pareceu mais organizado em campo que o nosso.

        Por causa dessa viagem passei a semana me perguntando, sem resposta: Como eu fui parar naquele time infantil do CSB? Daqueles jogadores eu era, aos 13 anos, o mais alto e seguramente o mais grosso. Meu ídolo na época era o Rivellino e acabei na zaga para aprender a marcar, tomar dibles, dar chutões e tentar sair com a bola dominada e principalmente, ser resiliente diante de um jogador habilidoso, não desistir de ir atrás e não deixá-lo fazer o gol.

        Eu queria ser um jogador técnico e um dia papai nos levou para ver em Recife Naútico e Palmeiras (1972). Aí o Naútico faz um ataque perigoso e Luís Pereira dá um bicão, afastando a bola, que veio cair na arquibanca do Estádio do Arruda, perto de onde estávamos. Aquele lance foi uma inspiração e uma libertação, com 12 anos eu pensei: Se Luís Pereira (zagueiro da Seleção Brasileira) dar um chutão desses, eu posso dar e me libertei da vergonha de ser grosso.

        Em certo momento Frei Lourenço, feliz, me agradeceu por ter feito aquela homenagem. Agora vai a minha resposta: Olha Frei, fiquei com vergonha de dizer, não fui eu, a criação da homenagem veio de Antiógenes, com o apoio e uma organização esplêndida de Marcos Guedes. Ganhei de presente meu nome nela.

        E pior,  não respondi ao seu agradecimento, em uma deselegância tremenda. Mas agora digo: Frei Lourenço, de nada. Essa homenagem é mais que merecida. 

        Faltou essa cortesia para o senhor. 

        Naquela manhã o CSB Seniors 60+ estava criado, torço que nunca mais se acabe. Que evolua na sua missão de agregar nossos veteranos, dando o esporte como fator de saúde física e de amizades duradouras.

        Bem , a lembrança vazia se encheu de vida de outras recordações dos 16 anos que vivi em Bom Conselho, depois foi o mundo que me recebeu.


        Abração a todos.

        Marconi Urquiza


Outras fotos:

   
     Frei Lourenço e Antiógenes

    Antiógenes e Marcos Guedes

sexta-feira, 4 de abril de 2025

ADEUS

 


           Ontem o amigo Loyola se foi. Há alguns meses descobriu um tumor no pâncreas. Ao saber da notícia, no início da noite, de sua partida, caiu aquela tristeza, um certo rubor da emoção contida assomou o rosto e eu parei por um tempo o que fazia. Fiquei refletindo e recordando dos encontros semanais e comecei a lembrar do seu sorriso discreto, contido, suave. Da sua voz pausada, de um timbre de voz de quem passou a vida como se qualquer ofensa tivesse tirado de letra. Enfim, ele transmitia paz.

        Já passados dos 60 conheci Loyola que tinha mais de 70 anos e não parecia ter essa idade, pela aparência mais jovem, pelo vigor físico que jogava futebol três vezes por semana. E jogou regularmente até descobrir a doença, já com 78 anos.
        
        Um dia, em 2018, comecei a participar dos treinos de futebol para os jogos de aposentados do Banco do Brasil e por ser incluído no grupo de Whatsapp tive a oportunidade de distribuir as minhas crônicas. Um tempo depois, nos encontros após as peladas da AABB de Recife a literatura entrou nas nossas conversas. Ele era contista e várias vezes narrava as suas criações, descrevia os contos como em um filme, falava de pormenores da construção do texto e da memória de suas histórias. Tinha predileção por contos com mensagens de fundo filosófico.

        Em algum momento tive a confiança dele para ler os seus contos e opinar sobre eles, como em uma leitura crítica. Acreditando que ele tinha o suficiente para lançar uma coletânea em livro, me ofereci algumas para ajudá-lo nessa empreitada; sorria e nada dizia.
        
        Mas indo para o lançamento de um livro ontem à noite eu ia pensando, buscando dentro do coração as melhores lembranças dos nossos encontros semanais com vários amigos: Loyola, Valter, França, Joãozinho, Lula Sandes, Carlinho Sandes, Marcelo, Dilson, entre outros amigos. As conversas leves, que nos fazem sorrir. Eram conversas daquele dia, alguma lá do passado, cheias de humor e vinham para o presente, ao final do encontro nós saíamos mais leves, prometendo nos encontrarmos na próxima quarta-feira.
        
        Agora que a saudade vai ocupar os nossos corações, lembrei-me de algumas coisas que nos uniram: o futebol, a cerveja com muito bom papo, a mesma empresa em que trabalhamos e o clube que propiciou que nos encontrássemos vivos e no tempo dessa vida.

        Grande abraço ao Loyola.

        Marconi Urquiza




sexta-feira, 28 de março de 2025

Descobrindo pessoas - Botei no Waze e veja o que achei

 



Botei no Waze e veja o que achei. 

        Um amigo sugeriu escrever uma crônica sobre o que se expressou a presidente do México. Se de fato foi ela que disse não dá para saber, mas está na esteira do atual Trumpismo: a América Grande de Novo. Passeando pela internet li uma matéria acerca do comportamento da presidente mexicana, que ao reagir ao aumento das tarifas e outros apertos contra seu país não reagiu como um homem, na matéria há a ênfase, mais ou menos assim: Claudia Sheinbaum  afasta a testosterona ao tratar com Trump. Evidente que este é um resumo do resumo de uma reportagem mais extensa. Mas serve para um vislumbre que a sabedoria, habilidade, bom senso e senso de psicologia cabem em negociações difíceis.

        Há muito tempo faço uma ponte rodoviária para João Pessoa, vou pela manhã e volto à tarde. Nesta semana fiquei três dias por lá. Havia um planejamento de coletar quatro tapetes grandes e cuidar do carro da empresa. Algumas coisas nele que foram se degradando com o uso intenso.

        Os retoques na pintura exigiram nova adesivação do carro, programada para a última quarta-feira às dez horas.  Mas o carro estava todo sujo, fezes de passarinho, manchas de frutos de árvores sobre o teto e capô do motor. Não daria para adesivar o carro daquele jeito. Lembrei que no Manaíra Shopping tem um lava jato. Etapa concluída às 20h da terça-feira.

        Dias antes, a chave de seta havia quebrado, o ar-condicionado do carro estava falhando e o banco do motorista, há muito tempo, mais de ano, estava afundado. Ruim demais.

        Na quarta cedo fui à oficina Jhon, que havia trocado o recipiente do líquido de arrefecimento e informado que a chave de seta estava estragada. Não havia tal peça nos fornecedores da oficina em João Pessoa e foi sugerido que comprasse no pelo Mercado Livre. Peça conosco, fomos à oficina assim que abriu, ao sermos atendidos chegou o veredito: não colocamos peça comprada fora. Nada de mais. Naqueles cinco minutos de conversa, eu disse olha aí quem atendeu? O carro foi atendido aqui. O atendente viu no computador e até disse: Fui eu que atendi. Ele insistiu: Não colocamos peça comprada fora. Aproveitei o ensejo e disse: Por que você não avisou ao nosso funcionário? E também: Por que você não encomendou para a gente vir aqui trocar quando chegasse? Não obtive resposta, só o mantra: não trocamos peça comprada fora.

        Você procura um eletricista. Você pode indicar um? O atendente não conhecia nenhum.  Você mexe com ar-condicionado? Não. Pode me indicar uma empresa? Vá no Kokota, na avenida José Américo, em frente ao Hospital da Unimed. Cujo nome deve ser de um parente distante: Hospital Alberto Urquiza Wanderley. Olha!

        Botei no Waze e saí à procura da Kokota. No meio do trajeto lembrei que o problema do farol era mais importante e escrevi, eletricista, o primeiro que apareceu foi Júnior Eletricista. Cheguei e perguntei se trocava a chave de seta do Renault Sandero. Estava atendendo, me deu uma cadeira e pediu para sentar e aguardar.  Tinha tempo, pois o próximo compromisso era às dez horas. 

        Como toda pessoa observadora, o mecânico solo é multitalento, mexe com eletricidade, com uma parte da mecânica e até é vendedor ocasional de algum carro. As bancadas dele estavam repletas de restos de alternadores, sua especialidade. Em um olhar apressado fiz uma conta no olho que não havia ao menos de cem carcaças da peça.

        É uma garagem dupla. Vi um carro bege estacionado no fundo de uma garagem ao lado da oficina principal. Fiquei olhando para aquele carro e a curiosidade me dominou e fui até perto dele, após hesitar, abri a porta do carro e passei a mão nos bancos. O veludo bege, original, ainda persistia. Vi um detalhe que não recordava em carro daquela época. Tem uma trava na porta, um ponto específico para travar a porta por dentro. Farol quadrado, penso que é da segunda geração. Estava na minha frente um Dodge Polara Gran Luxe, perfeitamente conservado, motor ótimo segundo o mecânico. E o maior detalhe daquele carro, ainda estava com a placa original dos anos 1970, amarela e com quatro números e duas letras.

        Voltei para minha cadeira, dez minutos depois Júnior foi trocar a peça, mais dez minutos o carro estava pronto. Olhei o horário, ainda havia uma hora e quarenta minutos para o compromisso das dez horas. 

         Quanto é: R$ 50,00. Paguei contente. Foi até barato para a conveniência de um atendimento tão rápido. Agradeci, entrei no carro e botei de novo no Waze: Kokota ar-condicionado. Em mais ou menos dez minutos estacionei o carro na frente da oficina.  Esta era em parte mais organizada, mas tinha restos de peças espalhadas pelo espaço.

        Queria um diagnóstico para agendar a volta. Começaram os testes: gás em ordem, compressor também. Mais dois testes. O mecânico falou que o ar quente estava atrapalhando a refrigeração, resolveu isolar o ar quente. Espero que não dê problema no futuro. A resistência está queimada. Para cada indicador de velocidade há uma resistência. Podemos fazer agora. Você faz até dez horas? Fazemos. Pode fazer. O senhor quer um cafezinho? Quero. Vá ali naquela sala. Fui, tomei um gole de cafezinho que era destinado ao lanche dos funcionários da empresa. Quanto vi, pensei em não tomar, mas tamanha cordialidade cabia-me aceitar. Tomei.

        Em poucos minutos chegou Kokota, o dono da oficina. Falou também da resistência. Pode trocar, disse. Bem, às nove e cinquenta o ar estava gelando de novo. Confesso que não esperava tanto. Os dois principais problemas do carro estavam resolvidos em menos de duas horas. Coisa que, na minha expectativa, eu esperaria pelo menos uma manhã. R$ 300,00. Paguei feliz e pedi para dividir. 

        Segui para a adesivação do carro. Sem muita surpresa, às onze e meia  o carro estava bonito de novo. A logomarca, o nome de fantasia e o telefone de novo estampados nos lados do carro.

        Mas faltava o banco. Olha, estava pior do que péssimo. De novo botei no Waze, umas três horas da tarde encostei em uma capotaria no bairro do Varadouro de João Pessoa. Fui no rumo, a oficina que o Waze indicou eu não achei, rodei o quarteirão e parei no Júnior Capoteiro. Ele olhou o banco, não disse o valor, não perguntei. Isto vai levar umas duas horas. Olhei a hora e tinha um compromisso. Vem amanhã, às seis e meia eu estou aqui. Estava, cheguei ontem às seis e trinta e sete e estava tudo aberto. Mais uma vez passei o olhar pelo ambiente, dois espaços grandes.  Por lá estava repleto de restos de móveis, de bancos de carro. Restos colocados na frente, na rua. Enquanto esperava peguei o computador e fui dar conta de orçamentos solicitados. Fiquei observando os transeuntes e olhando os prédios ao redor. Muita coisa fechada e degradada. Moradores de rua. E ali perto uma boca de fumo, um ponto de venda de droga. 

        Na região há muitos profissionais com valores mais populares, com preços mais em conta. Na rua Maciel Pinheiro, após a subida da antiga Bolsa de Mercadorias da Paraíba, há inúmeras  lojas de autopeças e lojas de ferramentas diversas. Tudo sem nenhum item de conforto, umas poucas com um banheiro limpo.

        Enquanto digitava, desceu uma mulher jovem vestida com short vermelho com a camisa do Flamengo. Depois ela voltou subindo a rua. Depois que o dono da capotaria falou do ponto de droga, imaginei que aquela jovem em pouco tempo estará completamente degradada e se prostituindo desesperada, sem que tenha mais cliente que queira seu corpo acabado.

        Mais uns minutos subiu um travesti, obeso, meio popular, pois homens se aproximaram para fofocar; logo depois passou uma mulher, também subindo a rua. Short curto, preto, bustier preto, com a aparência de quem tomou banho, mas um corpo de quem era bem idosa, um rosto acabado e com aparência que faltam dentes. Todavia, ela aparentava ter um vigor físico a mais perante a sua aparência acabada.Também foi abordada na rua. Parecia ser conhecida dos homens da região.

        Perto de sete e trinta da manhã pelos menos três homens, com mais de 50 anos,  chegaram na capotaria e sentaram nas cadeiras que ficam na calçada. Um deles tentou puxar conversa comigo, mas eu estava ocupado, não lhe dei atenção e ele também estava mais interessado no que se passava na rua.

        Às oito horas o banco do carro estava pronto. O conforto ao dirigir havia voltado. Júnior Capoteiro deu a conta, paguei e saí pensando nestes profissionais desorganizados e cheios de talentos que ganham mais para sobreviver e que os negócios deles andam de lado, quando não regridem, cuja aparência não atrai clientes novos. Fui pela necessidade, se fosse por uma escolha com base nos princípios da imagem, da organização aparente, teria passado longe deles.  O resultado é que em três horas e trinta minutos consertei três itens do carro, que com muita boa vontade teriam levado pelo menos dois dias se aquelas pessoas não tivessem sido solícitas.

        

        Bem, mais algumas lições para a vida.

        Abração, Marconi.

sexta-feira, 21 de março de 2025

Viagem de Páscoa


        Quinteiro não gostava do seu nome, preferia o apelido de Quico. Quando alguém lembrava desse nome em tom jocoso, ele se irritava.

        A Páscoa estava chegando e aquele homem decidiu, após muito anos sem ir à cidade onde nasceu e viveu até à adolescência.

        Aposentado há muito tempo, pegou o seu carro e saiu com destino certo, mas com paradas aleatórias. Não seria uma viagem curta, pelo menos três dias na estrada se a sua capacidade física permitisse.

        Ligou para os filhos, avisou para onde iria. Andava sozinho há tempos.

        Arrumou a mala, a bolsa com as roupas que trocaria na estrada. Supriu a nécessaire com os remédios e com os itens de toalete.

        Carro sem uso, saía pouco nele, não era raro encontrar teias de aranha nos pneus. Fez uma revisão básica. Faltando três dias para o sábado de Aleluia chegar pegou a estrada. Concentrado e descansado, conseguiu percorrer no primeiro dia 1.100 km, no segundo dia, o cansaço chegou mais cedo e perto das cinco horas da tarde encostou em um hotel com mais 900 km na bagagem.

        Faltava cerca de 500 km. Às 4 da manhã do terceiro dia caiu na estrada. Dirigiu rápido, às onze horas ele foi vendo a serra de Santa Teresinha e o coração começou a saltitar.

        Entrou na cidade, deu uma volta, reconheceu algumas casas e nenhuma das pessoas que transitavam na rua. "Onde estão meus conhecidos? Morrerão?" Talvez não reconhece mais nenhum depois de 40 anos.

        Sentiu sede, lembrou do Bar do Pereira, virou o carro e foi para a rodovia que ligava a sua cidade a Palmeiras dos Índios. Entrou, passou por uma porta, ao sentar chegou o garçom, pediu uma cerveja e uma batata frita.

        Daquela mesa ele via a Serra de Santa Teresinha inteira. Estava verde. Havia chovido naquela semana.

        Quico levantou o copo e começou a beber, nisso passou um homem, que foi para trás, a 4 mesas de distância. Juntou-se a mais três e sentou. De novo olhou para Quitério, que era servido na segunda cerveja. Lá na mesa do outro homem chegaram mais três amigos, quase todos da mesma idade.

        De cabeça baixa o nosso visitante não viu a aproximação do seu vizinho de bar.

        Quando deu por si, o homem estava a um metro dele, o olhando fixamente:

        — Pois não?

        O homem não respondeu e continuou com aquele olhar de quem via um fantasma.

        — Diga?

        — Venha cá, Quico! Dê um abraço. Ei, turma, Quico voltou!!!




        Bem! Hoje é esse continho. Abração a todos.

        Marconi Urquiza




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