sexta-feira, 12 de novembro de 2021
Um benfeitor silencioso
sexta-feira, 5 de novembro de 2021
A invasão da fome
No dia de finados ocorreram duas situações críticas. Um morador de um conjunto habitacional no Distrito Federal filmou um homem gritando, desesperado: É Fome, por favor, é fome.
Neste mesmo dia, ao voltar do clube sem almoço, resolvi comer em uma padaria no trajeto. Para os que conhecem a região da Av. Rosa e Silva, ela fica defronte ao Country Club do Recife.
Havia terminado de comer e estava para me levantar, quando um morador de rua entrou e me pediu comida, com pressa para não ser expulso de dentro da padaria ele me guiou pelas gôndolas, pegou uma dúzia de ovos, um quilo de arroz e um pacote de bolacha cream cracker, deixou na minha mão e saiu com a mesma velocidade que entrou.
Paguei e entreguei a ele. Não disse nenhuma palavra e se ele agradeceu, não ouvi. Segui para casa. Ontem minha esposa retirou da bermuda o tíquete fiscal e fez uma observação que o almoço tinha sido caro, foi quando me lembrei do ocorrido e fui olhar o que tinha sido entregue ao rapaz, só então comecei a pensar naqueles menos de 10 minutos.
Homem magro, cerca de 30 a 35 anos, altura mediana, descalço, camisa vermelha ou rubro-negra, não sei se de calça ou bermuda. Descalço. Descalço, com pés enegrecidos. Ou queimados pelo sol ou de sujeira. Estava descalço. A magreza acentuada dele me perseguiu ontem todo o dia. O seu jeito determinado, era desespero, se aproveitou que naquele instante não havia vigilância.
É Fome meu caro. É muita Fome.
Abraço, Marconi Urquiza
sexta-feira, 29 de outubro de 2021
A vida em espiral
Fiquei imaginando quando a vida entra em redemoinho a partir de uma decisão nossa ou de várias decisões. Mãos e pés começam e nos impulsionam, quase sem controle, os nossos movimentos.
É o que me parece ocorrer no livro A vida em espiral. O livro tem uma bela capa? Tem. Com ilustrações lindas, cores bem distribuídas e um acabamento primoroso? Tem de sobra. Muitos adjetivos. Justificáveis.
Lá pelo meio do livro lembrei de outro que tratou de uma realidade cotidiana severa dos personagens: o Vidas Secas e da decisão de Fabiano de buscar sair daquela seca que lhe sugava até a alma.
Também Amuyaakar Ndooy toma a sua decisão, assumindo riscos e transformando os seus amigos e até a sua comunidade. Decisões que vão sendo reiteradas, crescentes e de consequências a cada momento maiores e mais graves, é a vida em espiral.
Mas, mais que isto, o livro esmiúça aspectos da vida do Senegal no período da sua narração. Aspectos como a do governo que que reprime o tráfico de yamba (maconha), cujo consumo é um costume nacional. Das comunidades muçulmanas onde o álcool entrou forte e os jovens nem querem saber dos preceitos dessa religião.
Da miudeza humana se revelando na disputa do cargo de Imã, líder religioso do Islã, na aldeia aonde vive Ndooy, cujos grupos religiosos deixam a mesquita fechada por causa dessa querela.
Da ganância que enche os olhos de agentes do estado senegalês e que também se tornam traficantes da maconha, como se fossem atacadistas, roubando dos traficantes pobres.
É uma história que traz certos aspectos semelhantes ao homem ao redor do mundo: irresponsabilidade, egoísmo, amor, paixão, costumes ancestrais e machistas, aspectos da vida das periferias e personagens riquíssimos nas suas vidas, como se fossem gente que, ora conhecemos de perto, ora ouvimos falar ou que lemos sobre elas.
O livro é um mergulho em tudo isso, aqui e ali, abre um espaço no redemoinho para o leitor respirar.
Por fim, trago um link para uma bela e suingada canção do Olodum:
Abração, Marconi Urquiza
sexta-feira, 22 de outubro de 2021
De tanto ouvir falar, de tanto nos impactar, resolvi escrever
“Da
bondade de pessoa ruim”
“Deus me governe
e guarde, ilumine e zele assim.”
Chico
César – Estrofe da canção “Deus me proteja”
De tanto ouvir falar, de tanto
nos impactar, resolvi escrever.
Vou falar das aventuras que só
parecem teóricas, até se transformarem em chuva, depois em uma tempestade; no
fim, em uma seca severa.
Se a inflação pode ser uma chuva
prodigiosa no bolso de alguns, ela vira uma tempestade severa para o bolso de
muitos e se revela como uma seca violenta, caindo como uma bomba na vida da maioria
dos brasileiros.
Os conceitos como: Liberal, Liberalismo, Socialismo, do antigo Comunismo, da Socialdemocracia, do capitalismo, do Mercado (o rei mercado), Estado Mínimo, Governo, Desgoverno. Muito disso passa longe do brasileiro médio, muito disso passa a léguas da mente das pessoas, até que, mesmo sem terem o mínimo de conhecimento ou consciência específica de suas existências, sejam esmurradas pela carestia.
Essa é a nossa realidade em 2021. O
pau está dando muito forte nas costas de Chico. Lembre-se do ditado: ” Pau que dá
em Chico, dá em Francisco”.
Liberalismo, esse que a gente vê espelhado em muitos economistas, como se sente há três anos, que foi elaborado, projetado, e executado pensando em uns poucos. Em uns poucos que ganham e ganharão com essa inflação galopante.
Para quem não sabe ou não se recorda, vou contar um episódio de inflação, agalopada, ligeira como um meme, um foguete como uma Fake News.
1988. Eu desejava
comprar um vídeo cassete em Manaus. Querendo barganhar o preço, corri as lojas
da Zona Franca e próximas à Rua Guilherme Moreira, aí o mercado do dólar abriu.
Às duas da tarde acabei entendendo
que não poderia esperar para o dia seguinte, meu dinheiro não daria. Se o preço
no início da manhã era de 500 dinheiros, às duas horas da tarde paguei 540
dinheiros daquele tempo pelo aparelho.
É assim a aventura do liberalismo, é
como jogar alguém no meio de um rio sem boia e sem a pessoa saber nadar. É o
que gente vê todo santo dia.
O preço do combustível que tem
afetado tanto a economia popular, é um caso exemplar, pelo lado negativo. Veja,
o Brasil caminhava para ser quase autossuficiente na produção de combustível.
Aí se vendeu ativos, estruturas e negócios da Petrobras. Paralisa-se linhas de
produção, subaproveita refinarias e importa-se produtos refinados, mais caros.
Depois veio a paridade brutal do
preço do dólar e petróleo com o mercado livre mundial. Tudo isso, sem que haja
compensação com o menor custo dos produtos fabricados pela Petrobras. É mais
fácil, é mais simples, “é mais ganho”.
Na realidade hodierna, cai o consumo de combustível e ainda assim o ganho permanece alto e até maior que antes, em que o preço era menor e onde vendia mais combustível.
Olha que armadilha o cidadão vive:
- Preço maior: o lucro de toda a
cadeia cresce por litro vendido.
- Preço maior: a arrecadação de impostos é maior por litro vendido.
Tão importante oligopólio, na prática monopólio, vai querer que os preços fiquem civilizados? Os entes governamentais também?
Neste momento, estamos sós diante do
Dragão da Inflação. Mas temos que juntar forças, então vou de Zé Limeira, o Poeta do
Absurdo, como um ato de coragem e vontade de prosseguir:
“Ano passado eu morri, mas esse ano
eu não morro”
Abração, Marconi Urquiza.
Escutem a canção inteira:
sexta-feira, 15 de outubro de 2021
Descubra o Betinho que existe em você
sexta-feira, 8 de outubro de 2021
Sobre livros e sobre vidas
Alguns títulos de livros me
atraíram à leitura. Vou citar quatro, são eles e na ordem de leitura:
- Travessuras da Menina Má; O Negociante de Inícios de Romances; O Vendedor
de Passados e, O Mapeador de Ausências.
Todos os livros trazem invenções
com fatos concretos, só não consegui concluir a leitura de O Negociante de
Inícios de Romances. Na metade da leitura não entendi a proposta do autor e parei.
Travessuras da Menina Má, de Mário
Vargas Llosa, é um livro do qual tenho uma enorme dúvida, mesmo passado tanto
tempo da sua publicação. Enquanto lia, logo após tê-lo feito e 14 anos depois
da leitura, sempre que lembro dele sinto o comichão da dúvida. O romance é uma
história real? Se não for, a sua capacidade de iludir chegou à perfeição. Para mim é o melhor
livro de Vargas Llosa, dos seis que li. É de uma mulher diferente de tudo e de um homem esquisitão, com um amor perpétuo e impossível por essa mulher.
Muito tempo depois estou em uma
livraria e vejo o romance: O Vendedor de Passados. Desta vez li a quarta capa e a orelha. Aquela apresentação curta me fez comprar o
livro. A prosa leve, um português parecido com o nosso, uma história cativante,
um personagem engenhoso, outras tantas querendo um passado novo e distante do período
colonial de Angola. José Eduardo Agualusa,
com uma prosa leve, passeia pelo bom humor, pelo trágico e pela história da
violência da Polícia Política colonial de Portugal.
Na última segunda-feira conclui a
leitura de O Mapeador de Ausências. Ele se assemelha ao livro de Agualusa nas
revelações das atrocidades da polícia portuguesa em Moçambique, nos estertores
do regime colonial. Tal como, O Vendedor de Passados, a prosa é leve. O vai e
vem do presente e passado é bem marcado.
Fui buscar nesse livro ideias
que me propiciasse desenrolar o novelo que se transformou o rascunho de O Último
Café do Coronel. Um livro que sai da ficção e cai com uma bomba na biografia de
um período pesado de Bom Conselho, de minha mãe e irmãos, como para mim, dos amigos
de meu pai e até de alguns adversários dele daquele período.
Não posso afirmar que achei um
caminho, ou uma ideia para prosseguir, ou mesmo um modo de imitar Mia
Couto. Não achei nada, além de uma ótima
leitura. Mas fiquei a matutar. Quanto de passado a ser “resolvido” existe nas
pessoas? Quanto de história precisa ser “revivida” na mente e no coração para
ser, de fato, colocada no mapa da ausência?
Como projeto de escritor, este
talvez seja o maior desafio da minha vida, como um controlador de voo das emoções
que estão amarradas com correntes de um elo só, para que não escape, nem tenha espaço
para se mover e não perturbar.
Como muito se escuta por aí, o passado
deve ficar no passado. Mia Couto vem trazendo as histórias dos ausentes como se
elas fossem mal contadas pelos que estão no futuro e no presente.
É um contraponto com O Vendedor
de Passados, onde o passado não precisa ser esclarecido na sua inteireza, que
seja de verdade. O passado é para os vivos, é para se transformar em um passado
que os orgulhe e que possam apresentar-se bem com eles.
Aqui e acolá estoura uma fraude
de uma biografia inventada, a mais comum, uma pessoa que diz que fez doutorado
no estrangeiro, sem ter feito; ter feito formação profissional e as apresenta como
concluído, sem que tenha de fato ocorrido. O Vendedor de Passado é para esse
público, que deseja uma biografia foda.
O Mapeador de Ausências é como um
mapa, em que aqueles personagens vão revisitar os ausentes há muito enterrados,
mas vivos. É um pouco como o que veio ocorrendo quando tive o impulso de escrever
O Último Café do Coronel. As pessoas que poderiam me ajudar a entender aquele
tormento, toda aquela confusão e toda a dor, estão quase todas ausentes. Os
poucos que restam, não conseguem falar do assunto, a emoção toma conta e eu
choro junto.
Escrever Decisão de Matar, com
toda a sua gama de história real, ficcionada, foi muito mais fácil. Várias
daquelas ocorrências drásticas eu soube em tempo real, mas fui mero expectador, a dor
não me atingiu, o sufoco e as mortes foram de outras famílias. Apesar disso,
mais de 25 anos após certos eventos que estão no livro, eles passam por minha
mente como se visse um filme. Aqui foi um ficcionista olhando as coisas quase
de longe.
Cá, em O Último Café do Coronel,
a emoção estava presente em cada hora que escrevi, em cada hora que
ficou na gaveta. Eu não era um ficcionista inventando, até tem muita invenção,
também não era um biógrafo, trazendo os fatos com a objetividade do historiador,
ainda que se utilize das técnicas literárias. Era o filho que quis escrever
sobre os últimos meses da vida de um pai, morto em meio de uma disputa política,
história da qual nenhum historiador se aventurou em contar, nem eu conseguirei fazer.
Abraço e ótimo final de semana.
Marconi Urquiza
Capas dos livros:
sexta-feira, 1 de outubro de 2021
O drible da vaca
Agora que tem dois brasileiros na final da Copa Libertadores eu pensei em dois jogos pra lá de antigos.
Acho que estavam dois times de Caraúbas, um de Dix-Sept Rosado, um de Felipe Guerra e acho que dois de Apodi. Cidades do oeste potiguar.
Em uma das rodadas, fomos para Felipe Guerra. No time dessa cidade atuava o jovem prefeito.
O árbitro era da Liga de Mossoró, quase profissionais. Todo ataque nosso, soava um apito. Em certo momento, Porquinho, nosso melhor jogador, fez uma jogada, armou o chute. O apito veio estridente.
No primeiro tempo tomamos 2 x 0, gols do prefeito bom de bola. Eu olhava para o juiz e fazia caras e bocas, mas não reclamava.
Quando acabou o primeiro tempo eu encostei nele e fiz um comentário que não entendia as suas marcações, não lembro como, apelei: "deixa a gente jogar, já tão difícil, eles já têm 2 x 0". Ele olhou para mim e disse uma frase parecida com essa:
- Olha, sabe o que é, eu quero chegar inteiro em casa. Meus meninos estão me esperando.
Balancei a cabeça, olhei aquele imenso campo arenoso, até bonito, com as marcações no solo. Redes bem esticadas. Alguma plateia, então caminhei para a preleção do nosso técnico, convicto que naquela tarde essa regra de "sobrevivência arbitral" já havia decretado o resultado da partida.
2º Tempo, vamos ver se o time empata.
A outra história antiga ocorreu, quando, certo dia, Erickson Torres convidou a mim e a Seba para jogarmos em um Sítio em Afogados da Ingazeira. Não vou nem arriscar o nome desse local para não errar feio, o tempo vai tão longe que nem lembro direito o ano, talvez 1984.
Era um domingo, depois do almoço nos
encontramos na frente da agência do Banco do Brasil de Afogados da Ingazeira. Após o nosso time
estar todo junto, saímos da cidade, acho que fomos em quatro automóveis pequenos.
O jogo teria que iniciar cedo, de
modo que acabasse ainda com luz solar.
Vou chutar: às 14 horas começou a partida.
Naquela tarde eu tive dois estranhamentos. O primeiro: O campo tinha um declive de um lado para o outro ao longo da lateral, o outro você lerá.
No primeiro tempo, o nosso time atacaria para o gol, cujo lado direito, estava quase cinquenta centímetros mais alto que o lado esquerdo. Como se tivesse uma drenagem natural. Típico campo de terra batida e muito cascalho.
Começou
o jogo. O sol a pino queimava o lado do rosto e incomodava a vista pela luminosidade
excessiva. Tem mais, não havia, naquele campo, uma sombra que aliviasse o calor.
Nosso time, um pega-na-rua, corria desarticulado. O outro time, não era muito melhor que o nosso. Digamos que do nosso lado tivesse um ou dois jogadores de uma técnica apurada, do outro lado, mais jogadores velozes e que conheciam o campo, que era rodeado por uma cerca de varas, de maneira que ela serviu como um alambrado para que a única bola não se perdesse no mato.
A
bola corria no chão quente, a sede começou a chegar, o cansaço em jogar em sol
mais forte já dava sinais para o nosso
time, especialmente para mim, pois só jogava à noite na AABB de Afogados da
Ingazeira.
De vez em quando eu apostava corrida com o ponta, ao sair do miolo da zaga, para fazer cobertura do lado esquerdo. Já não tinha o mesmo preparo e nem o mesmo peso de dois anos antes.
A
única coisa que melhorou nesse período, é que havia começado a usar uma meia
fina por baixo do meião e tal atitude evitou que fizesse calos nos pés, mas
não livrava de sentir aquele calor infernal ao pisar no chão quente.
Não
sei em que momento tomamos um gol. Achei estranha a jogada que o antecedeu, mas nada
comentei. O tempo correu e raramente ocorria uma chance de gol,
principalmente do nosso time. O jogo estava morno, mais cá que lá.
Os times agora estavam lentos ao sabor do calor de mais de 32 graus. O nosso lateral esquerdo subiu e parou, acho que ficou lá na frente puxando fôlego, mas o ponta, esse ficou de moita.
Então bola veio para ele, que veloz disparou, eu cheguei para
fazer a marcação, cerquei o rapaz e pensei: ele vai dominar a bola e marcado, volta
com ela ou dá um passe. Fiquei tranquilo, o resto do gás daria para não deixar
ele livre e até pensei: qualquer coisa uso o corpo e interrompo a jogada com
uma falta tática.
Meu velho! Meu velho! O jogador se voltou, deu um bico de efeito na direção da cerca, me deu um drible da vaca e correu para o gol. Claro, eu parei, era para ser lateral. A pelada não tinha juiz, era a boca e o bom senso.
O
cabra correu sem marcação e acertou outro bico, gol, dois a zero, foi então que saí
do mutismo:
-
Que negócio é esse? Foi lateral!
-
Aqui não tem lateral – outro respondeu.
-
Como não?
-
A regra da gente é, bateu na cerca do lado campo, pode continuar o jogo.
-
Tá errado
-
Pode até tá. Não disseram que a gente joga assim?
-
Não.
Assim a reclamação acabou e o gol, sem VAR e com o puxadinho da regra, foi validado.
Abração,
Marconi Urquiza.
Existimos: A que será que se destina?
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