sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Um benfeitor silencioso

        

        Faz tanto tempo que ele se foi. Nem posso dizer que conhecia bem meu pai.  Algumas situações eu sabia,  outras ouvi comentários, exemplos de fazer o bem, presenciei algumas vezes.

        Lembro que meu avô se irritou com ele por ter ajudado um notório aproveitador,  nesse tarde vovô disse: Quem tem besta não compra cavalo.

        Hoje acho engraçado,  era como um sujo falando do mal lavado. Duas pessoas que amavam ajudar o próximo. Mas não sei porque vovô se irritou.

        O tempo passou e um dia falaram, perguntando sobre eu sentir saudade de papai, calei-me, eu não sinto mais saudade dele, isso se esgotou ao longo do tempo.  Foi se depurando para ficar nos bons exemplos,  no humor sutil e nas tiradas que faziam sorrir.

        Tempos atrás quis escrever um livro sobre seu perecimento, parei por falta de condições psicológicas. 

        Neste Dia de finados,  mais uma vez mamãe se preocupou que o túmulo dele estivesse limpo e pintado. 

        Em alguns momentos pedimos aos familiares da minha esposa para fazer a gentileza de contratar alguém para cuidar do seu túmulo.  Mas todas as vezes o túmulo estava cuidado, um benfeitor anônimo já tinha feito.

        Não sabia a quem perguntar, comecei a especular,  depois desisti e deixei a vida correr.

      Outro dia um amigo falou que papai ajudou uma família a voltar de São Paulo. O filho mostrou a sua gratidão.  Eu não sabia disso, fiquei surpreso.

      Houve ocasiões em que a feira na sua casa de alguém só ocorreu porque papai emprestou o dinheiro. 

        Desconfio que em uma dessas ocasiões eu estava por perto,  pois papai se justificou sem eu pedir nenhuma explicação. 

        Foi como se diz: Se me pagar sem juros já está muito bom, mas papai tinha certeza que nunca receberia aquele dinheiro. 

        Essa história do cemitério me trouxe a certeza, que no silêncio, papai ajudou a muitos em Bom Conselho.

        Esse era um segredo dele, para ele mesmo. Nunca vi arrotar a ajuda que prestou, apenas ajudou.

        Apenas ajudou.

        E quando uma pessoa ficava se derramando em agradecimento, ele dizia: 
       - Olhe, vá cuidar de suas coisinhas, se não você me deixa vaidoso. 

        Bem, esse era seu modo de ser, de certo modo copiei isso dele.

        Abração, 
        Marconi Urquiza, 

        filho de Marne Geordemar Urquiza Cavalcanti.

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

A invasão da fome



        No dia de finados ocorreram duas situações críticas. Um morador de um conjunto habitacional no Distrito Federal filmou um homem gritando, desesperado: É Fome, por favor,  é fome.

        Neste mesmo dia, ao voltar do clube sem almoço, resolvi comer em uma padaria no trajeto.  Para os que conhecem a região da Av. Rosa e Silva, ela fica defronte ao Country Club do Recife.

        Havia terminado  de comer e estava para me levantar, quando um morador de rua entrou e me pediu comida, com pressa para não ser expulso de dentro da padaria ele me guiou pelas gôndolas, pegou uma dúzia de ovos, um quilo de arroz e um pacote de bolacha cream cracker, deixou na minha mão e saiu com a mesma velocidade que entrou.

        Paguei e entreguei a ele. Não disse nenhuma palavra e se ele agradeceu, não ouvi. Segui para casa. Ontem minha esposa retirou da bermuda o tíquete fiscal e fez uma observação que o almoço tinha sido caro, foi quando me lembrei do ocorrido e fui olhar o que tinha sido entregue ao rapaz, só então comecei a pensar naqueles menos de 10 minutos.

        Homem magro, cerca de 30 a 35 anos, altura mediana, descalço, camisa vermelha ou rubro-negra, não sei se de calça ou bermuda. Descalço.  Descalço, com pés enegrecidos. Ou queimados pelo sol ou de sujeira.  Estava descalço. A magreza acentuada dele me perseguiu ontem todo o dia.  O seu jeito determinado, era desespero, se aproveitou que naquele instante não havia vigilância.

        É Fome meu caro. É muita Fome.


        Abraço, Marconi Urquiza

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

A vida em espiral

 



        Fiquei imaginando quando a vida entra em redemoinho a partir de uma decisão nossa ou de várias decisões. Mãos e pés começam e nos impulsionam, quase sem controle, os nossos movimentos.

        É o que me parece ocorrer no livro A vida em espiral. O livro tem uma bela capa? Tem. Com ilustrações lindas, cores bem distribuídas e um acabamento primoroso? Tem de sobra. Muitos adjetivos. Justificáveis.

            Lá pelo meio do livro lembrei de outro que tratou de uma realidade cotidiana severa dos personagens: o Vidas Secas e da decisão de Fabiano de buscar sair daquela seca que lhe sugava até a alma.

        Também Amuyaakar Ndooy toma a sua decisão, assumindo riscos e transformando os seus amigos e até a sua comunidade. Decisões que vão sendo reiteradas, crescentes e de consequências a cada momento maiores e mais graves, é a vida em espiral.

        Mas, mais que isto, o livro esmiúça aspectos da vida do Senegal no período da sua narração. Aspectos como a do governo que que reprime o tráfico de yamba (maconha), cujo consumo é um costume nacional. Das comunidades muçulmanas onde o álcool entrou forte e os jovens nem querem saber dos preceitos dessa religião.

        Da miudeza humana se revelando na disputa do cargo de Imã, líder religioso do Islã, na aldeia aonde vive Ndooy, cujos grupos religiosos deixam a mesquita fechada por causa dessa querela.

        Da ganância que enche os olhos de agentes do estado senegalês e que também se tornam traficantes da maconha, como se fossem atacadistas, roubando dos traficantes pobres.

        É uma história que traz certos aspectos semelhantes ao homem ao redor do mundo: irresponsabilidade, egoísmo, amor, paixão, costumes ancestrais e machistas, aspectos da vida das periferias e personagens riquíssimos nas suas vidas, como se fossem gente que, ora conhecemos de perto, ora ouvimos falar ou que lemos sobre elas.

        O livro é um mergulho em tudo isso, aqui e ali, abre um espaço no redemoinho para o leitor respirar.

           Por fim, trago um link para uma bela e suingada canção do Olodum: 

           Canto pro Senegal


        Abração, Marconi Urquiza

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

De tanto ouvir falar, de tanto nos impactar, resolvi escrever

 





    
      “Deus me proteja de mim”

     “E da maldade de gente boa”

     “Da bondade de pessoa ruim”

     “Deus me governe e guarde, ilumine e zele assim.”

                                   Chico César – Estrofe da canção “Deus me proteja”

 

   De tanto ouvir falar, de tanto nos impactar, resolvi escrever.

            Vou falar das aventuras que só parecem teóricas, até se transformarem em chuva, depois em uma tempestade; no fim, em uma seca severa.

            Se a inflação pode ser uma chuva prodigiosa no bolso de alguns, ela vira uma tempestade severa para o bolso de muitos e se revela como uma seca violenta, caindo como uma bomba na vida da maioria dos brasileiros.

            Os conceitos como: Liberal, Liberalismo, Socialismo, do antigo Comunismo, da Socialdemocracia, do capitalismo, do Mercado (o rei mercado), Estado Mínimo, Governo, Desgoverno. Muito disso passa longe do brasileiro médio, muito disso passa a léguas da mente das pessoas, até que, mesmo sem terem o mínimo de conhecimento ou consciência específica de suas existências, sejam esmurradas pela carestia.

            Essa é a nossa realidade em 2021. O pau está dando muito forte nas costas de Chico. Lembre-se do ditado: ” Pau que dá em Chico, dá em Francisco”.

            Liberalismo, esse que a gente vê espelhado em muitos economistas, como se sente há três anos, que foi elaborado, projetado, e executado pensando em uns poucos. Em uns poucos que ganham e ganharão com essa inflação galopante.

            Para quem não sabe ou não se recorda, vou contar um episódio de inflação, agalopada, ligeira como um meme, um foguete como uma Fake News.

           1988. Eu desejava comprar um vídeo cassete em Manaus. Querendo barganhar o preço, corri as lojas da Zona Franca e próximas à Rua Guilherme Moreira, aí o mercado do dólar abriu.

            Às duas da tarde acabei entendendo que não poderia esperar para o dia seguinte, meu dinheiro não daria. Se o preço no início da manhã era de 500 dinheiros, às duas horas da tarde paguei 540 dinheiros daquele tempo pelo aparelho. 

            É assim a aventura do liberalismo, é como jogar alguém no meio de um rio sem boia e sem a pessoa saber nadar. É o que gente vê todo santo dia.

            O preço do combustível que tem afetado tanto a economia popular, é um caso exemplar, pelo lado negativo. Veja, o Brasil caminhava para ser quase autossuficiente na produção de combustível. Aí se vendeu ativos, estruturas e negócios da Petrobras. Paralisa-se linhas de produção, subaproveita refinarias e importa-se produtos refinados, mais caros.

            Depois veio a paridade brutal do preço do dólar e petróleo com o mercado livre mundial. Tudo isso, sem que haja compensação com o menor custo dos produtos fabricados pela Petrobras. É mais fácil, é mais simples, “é mais ganho”.  

            Na realidade hodierna, cai o consumo de combustível e ainda assim o ganho permanece alto e até maior que antes, em  que o preço era menor e  onde vendia mais combustível.

            Olha que armadilha o cidadão vive:

            - Preço maior: o lucro de toda a cadeia cresce por litro vendido.

            - Preço maior: a arrecadação de impostos é maior por litro vendido.  

            Tão importante oligopólio, na prática monopólio, vai querer que os preços fiquem civilizados? Os entes governamentais também?

            Neste momento, estamos sós diante do Dragão da Inflação. Mas temos que juntar forças, então vou de Zé Limeira, o Poeta do Absurdo, como um ato de coragem e vontade de prosseguir:

            “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”

 

            Abração, Marconi Urquiza.


            Escutem a canção inteira:

            DEUS ME PROTEJA

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Descubra o Betinho que existe em você



Nessa quarta-feira me lembrei de Betinho, Betinho e o Natal sem Fome. 

De como, na maior timidez anunciei, em um evento em Boca do Acre, o esforço que os funcionários.  FUNCIONÁRIOS.

Vou enfatizar: OS FUNCIONÁRIOS. A empresa estava fora.

Me engajei, com minha esposa, e ao longo de sete anos isto era um motivador além das metas. Deu um sentido profissional e de vida todo especial. 

Era energia pura.

Antes de continuar, devo confessar. Quando o BB quis se apropriar do meu voluntariado, me tornei inerte. 

Natal sem fome.

Foi muito mais que uma ação voluntária, foi uma profunda identidade de pessoas que iam muito além da doação. Milhares de comitês atuando, pessoas se motivando, alegres com estes feitos.

Um episódio espelhou bem esse período. Era de Outubro para novembro de 1997. Um comitê amplo se formou em Terra Boa-PR. Falou-se em recursos que estavam raros, então nós do Banco do Brasil, Cida na liderança, começamos a bolar um evento.

Cuscuz, carne-de-sol e outros agregados dessa comida regional. 

Encurtando a história. 

Chegou o dia do evento, no Salão de Festas da Maçonaria da cidade, cedido gratuitamente, as pessoas receosas experimentaram a comida e começaram a repetir os pratos.
 Via-se nos rostos das pessoas que a comida agradava. Sorriam, pois pensavam que carne-de-sol era uma carne seca, não suculenta. 

A festa corria solta, em certo momento entrei na cozinha e nela havia uma verdadeira linha de produção da melhor comida nordestina. Uma coisa das mais impressionantes que vivi, em se tratando de voluntariado. 

Nunca vi uma coisa daquela.  Uma linha de produção organizada e ajustada. 

Teve um momento que a carne começou a acabar e Cida me disse, corre lá em casa e traz os bifes. Estão na geladeira, já temperados.

Tudo isto ocorreu por causa de Betinho e da Anabb, que naquela época agregou muitos do Banco do Brasil à causa.

Betinho, Herbert de Souza, foi uma pessoa transformadora de milhões e a mim, não só a mim, despertou o coração bondoso. Um altruísmo rico,  porque desinteressado em ganhar com o seu resultado. 

Essa é a minha contribuição de hoje.


Abração, Marconi Urquiza



sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Sobre livros e sobre vidas

 

Foi este livro que me inspirou a criar o título O Último Café do Coronel

 "Até no mundo real
  Pode ter dualidade.
  No campo da ficção
  Pode existir verdade.
  A verdade nunca é
  plena
  E a ficção armazena
  Algo da realidade."
              Ademar Rafael Ferreira


Alguns títulos de livros me atraíram à leitura. Vou citar quatro, são eles e na ordem de leitura:

- Travessuras da Menina Má;  O Negociante de Inícios de Romances; O Vendedor de Passados e, O Mapeador de Ausências.

Todos os livros trazem invenções com fatos concretos, só não consegui concluir a leitura de O Negociante de Inícios de Romances. Na metade da leitura não entendi a proposta do autor e parei.

Travessuras da Menina Má, de Mário Vargas Llosa, é um livro do qual tenho uma enorme dúvida, mesmo passado tanto tempo da sua publicação. Enquanto lia, logo após tê-lo feito e 14 anos depois da leitura, sempre que lembro dele sinto o comichão da dúvida. O romance é uma história real? Se não for, a sua capacidade de  iludir chegou à perfeição. Para mim é o melhor livro de Vargas Llosa, dos seis que li. É de uma mulher diferente de tudo e de um homem esquisitão, com um amor perpétuo e impossível por essa mulher.

Muito tempo depois estou em uma livraria e vejo o romance: O Vendedor de Passados.  Desta vez li a quarta capa e a orelha.  Aquela apresentação curta me fez comprar o livro. A prosa leve, um português parecido com o nosso, uma história cativante, um personagem engenhoso, outras tantas querendo um passado novo e distante do período colonial de Angola.  José Eduardo Agualusa, com uma prosa leve, passeia pelo bom humor, pelo trágico e pela história da violência da Polícia Política colonial de Portugal.

Na última segunda-feira conclui a leitura de O Mapeador de Ausências. Ele se assemelha ao livro de Agualusa nas revelações das atrocidades da polícia portuguesa em Moçambique, nos estertores do regime colonial. Tal como, O Vendedor de Passados, a prosa é leve. O vai e vem do presente e passado é bem marcado.

Fui buscar nesse livro ideias que me propiciasse desenrolar o novelo que se transformou o rascunho de O Último Café do Coronel. Um livro que sai da ficção e cai com uma bomba na biografia de um período pesado de Bom Conselho, de minha mãe e irmãos, como para mim, dos amigos de meu pai e até de alguns adversários dele daquele período.

Não posso afirmar que achei um caminho, ou uma ideia para prosseguir, ou mesmo um modo de imitar Mia Couto.  Não achei nada, além de uma ótima leitura. Mas fiquei a matutar. Quanto de passado a ser “resolvido” existe nas pessoas? Quanto de história precisa ser “revivida” na mente e no coração para ser, de fato, colocada no mapa da ausência?

Como projeto de escritor, este talvez seja o maior desafio da minha vida, como um controlador de voo das emoções que estão amarradas com correntes de um elo só, para que não escape, nem tenha espaço para se mover e não perturbar.

Como muito se escuta por aí, o passado deve ficar no passado. Mia Couto vem trazendo as histórias dos ausentes como se elas fossem mal contadas pelos que estão no futuro e no presente.

É um contraponto com O Vendedor de Passados, onde o passado não precisa ser esclarecido na sua inteireza, que seja de verdade. O passado é para os vivos, é para se transformar em um passado que os orgulhe e que possam apresentar-se bem com eles.

Aqui e acolá estoura uma fraude de uma biografia inventada, a mais comum, uma pessoa que diz que fez doutorado no estrangeiro, sem ter feito; ter feito formação profissional e as apresenta como concluído, sem que tenha de fato ocorrido. O Vendedor de Passado é para esse público, que deseja uma biografia foda.

O Mapeador de Ausências é como um mapa, em que aqueles personagens vão revisitar os ausentes há muito enterrados, mas vivos. É um pouco como o que veio ocorrendo quando tive o impulso de escrever O Último Café do Coronel. As pessoas que poderiam me ajudar a entender aquele tormento, toda aquela confusão e toda a dor, estão quase todas ausentes. Os poucos que restam, não conseguem falar do assunto, a emoção toma conta e eu choro junto.

Escrever Decisão de Matar, com toda a sua gama de história real, ficcionada, foi muito mais fácil. Várias daquelas ocorrências drásticas eu soube em tempo real, mas fui mero expectador, a dor não me atingiu, o sufoco e as mortes foram de outras famílias. Apesar disso, mais de 25 anos após certos eventos que estão no livro, eles passam por minha mente como se visse um filme. Aqui foi um ficcionista olhando as coisas quase de longe.

Cá, em O Último Café do Coronel, a emoção estava presente em cada hora que escrevi, em cada hora que ficou na gaveta. Eu não era um ficcionista inventando, até tem muita invenção, também não era um biógrafo, trazendo os fatos com a objetividade do historiador, ainda que se utilize das técnicas literárias. Era o filho que quis escrever sobre os últimos meses da vida de um pai, morto em meio de uma disputa política, história da qual nenhum historiador se aventurou em contar, nem eu conseguirei fazer.

 

Abraço e ótimo final de semana.

Marconi Urquiza


Capas dos livros:




Assista o Booktrailer, CLIQUE no link abaixo e comente o que achou dele:








sexta-feira, 1 de outubro de 2021

O drible da vaca




               Agora que tem dois brasileiros na final da Copa Libertadores eu pensei em dois jogos pra lá de antigos. 


1º Tempo, começa o jogo, as cortinas se abrem.


            Em 1990, eu doido para jogar bola, terminei patrocinando o glorioso, e de vida curta, Sport Club Caraúbas para entrar em um torneio organizado pela Liga de Apodi. 

            Acho que estavam dois times de Caraúbas, um de Dix-Sept Rosado, um de Felipe Guerra e acho que dois de Apodi.  Cidades do oeste potiguar.

            Em uma das rodadas, fomos para Felipe Guerra.  No time dessa cidade atuava o jovem prefeito.

            O árbitro era da Liga de Mossoró, quase profissionais.  Todo ataque nosso, soava um apito. Em certo momento, Porquinho, nosso melhor jogador, fez uma jogada, armou o chute. O apito veio estridente.

            No primeiro tempo tomamos 2 x 0, gols do prefeito bom de bola. Eu olhava para o juiz e fazia caras e bocas, mas não reclamava. 

            Quando acabou o primeiro tempo eu encostei nele e fiz um comentário que não entendia as suas marcações, não lembro como, apelei: "deixa a gente jogar, já tão difícil, eles já têm 2 x 0". Ele olhou para mim e disse uma frase parecida com essa:

            - Olha, sabe o que é, eu quero chegar inteiro em casa. Meus meninos estão me esperando. 

           Balancei a cabeça, olhei aquele imenso campo arenoso, até bonito, com as marcações no solo. Redes bem esticadas.  Alguma plateia, então caminhei para a preleção do nosso técnico, convicto que naquela tarde essa regra de "sobrevivência arbitral" já havia decretado o resultado da partida.


2º Tempo, vamos ver se o time empata.


           A outra história antiga ocorreu, quando, certo dia, Erickson Torres convidou a mim e a Seba para jogarmos em um Sítio em Afogados da Ingazeira. Não vou nem arriscar o nome desse local para não errar feio, o tempo vai tão longe que nem lembro direito o ano, talvez 1984.

            Era um domingo, depois do almoço nos encontramos na frente da agência do Banco do Brasil de Afogados da Ingazeira. Após o nosso time estar todo junto, saímos da cidade, acho que fomos em quatro automóveis pequenos.

            O jogo teria que iniciar cedo, de modo que acabasse ainda com luz solar.  Vou chutar: às 14 horas começou a partida.

            Naquela tarde eu tive dois estranhamentos. O primeiro: O campo tinha um declive de um lado para o outro ao longo da lateral, o outro você lerá. 

           No primeiro tempo, o nosso time atacaria para o gol, cujo lado direito, estava quase cinquenta centímetros mais alto que o lado esquerdo. Como se tivesse uma drenagem natural. Típico campo de terra batida e muito cascalho.

  Começou o jogo. O sol a pino queimava o lado do rosto e incomodava a vista pela luminosidade excessiva. Tem mais, não havia, naquele campo, uma sombra que aliviasse o calor.

 Nosso time, um pega-na-rua, corria desarticulado. O outro time, não era muito melhor que o nosso. Digamos que do nosso lado tivesse um ou dois jogadores de uma técnica apurada, do outro lado, mais jogadores velozes e que conheciam o campo, que era rodeado por uma cerca de varas, de maneira que ela serviu como um alambrado para que a única bola não se perdesse no mato.

     A bola corria no chão quente, a sede começou a chegar, o cansaço em jogar em sol mais forte já dava sinais para o nosso time,  especialmente para mim, pois só jogava à noite na AABB de Afogados da Ingazeira.

      De vez em quando eu apostava corrida com o ponta, ao sair do miolo da zaga, para fazer cobertura do lado esquerdo. Já não tinha o mesmo preparo e nem o mesmo peso de dois anos antes.

      A única coisa que melhorou nesse período, é que havia começado a usar uma meia fina por baixo do meião e tal atitude evitou que fizesse calos nos pés, mas não livrava de sentir aquele calor infernal ao pisar no chão quente.

       Não sei em que momento tomamos um gol. Achei estranha a jogada que o antecedeu, mas nada comentei. O tempo correu e raramente ocorria uma chance de gol, principalmente do nosso time. O jogo estava morno, mais cá que lá.

     Os times agora estavam lentos ao sabor do calor de mais de 32 graus. O nosso lateral esquerdo subiu e parou, acho que ficou lá na frente puxando fôlego, mas o ponta, esse ficou de moita.

       Então bola veio para ele, que veloz disparou, eu cheguei para fazer a marcação, cerquei o rapaz e pensei: ele vai dominar a bola e marcado, volta com ela ou dá um passe. Fiquei tranquilo, o resto do gás daria para não deixar ele livre e até pensei: qualquer coisa uso o corpo e interrompo a jogada com uma falta tática.

      Meu velho! Meu velho! O jogador se voltou, deu um bico de efeito na direção da cerca,  me deu um drible da vaca e correu para o gol. Claro, eu parei, era para ser lateral. A pelada não tinha juiz, era a boca e o bom senso.

       O cabra correu sem marcação e acertou outro bico, gol, dois a zero, foi então que saí do mutismo:

- Que negócio é esse? Foi lateral!

- Aqui não tem lateral – outro respondeu.

- Como não?

- A regra da gente é, bateu na cerca do lado campo, pode continuar o jogo.

- Tá errado

- Pode até tá. Não disseram que a gente joga assim?

- Não.

          Assim a reclamação acabou e o gol, sem VAR e com o puxadinho da regra, foi validado. 


Abração, 

Marconi Urquiza.

Existimos: A que será que se destina?

Viktor Frankl             Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...