Que bode desgramado,
Dois meses depois chegou o presente. Aquela família agora tinha seis membros, o casal, os filhos e Bodinho, que cresceu saudável e com muita alegria das crianças.
Mas, uma viagem longa se avizinhava e dentro da casa começou a se discutir como ficaria o cabrito. Já haviam até conversado com o vizinho para ele alimentar e trocar a água do animal enquanto viajavam. Bodinho, ainda criança, corria solto, dando pinotes e nada sabia do seu destino.
Era o bicho de estimação daqueles três meninos inquietos.
- Olhe, Zé, o nosso vizinho, vai cuidar do cabrito até a gente voltar, - não foi surpresa para a esposa, isso havia sido combinado.
Na hora daquela conversa Bodinho chegou na porta e viu os meninos agitados, cada um dizia que ele não poderia ficar no natal sozinho, tinha que ir com eles.
Benício manteve a decisão que o cabrito ficaria, Carla também achava melhor que o animal não viajasse.
- Olha, o nosso carro é apertado e nós vamos viajar um dia quase todo.
- Não pai, a gente se aperta, – disse o mais velho.
- É pai, a gente leva ele no colo, - disse o filho do meio.
O mais novo só gesticulava apoiando a ideia dos seus irmãos que haviam encontrado a solução para ter Bodinho na viagem. Depois de muita conversa, os pais toparam. Mas Bodinho iria ser criado na fazenda da avó, pois ficaria grande e não daria para ele viver no quintal da casa onde moravam. Na hora as crianças aceitaram a decisão, a viagem com Bodinho já seria suficiente. Poderiam conviver com ele mais um tempo, pois estavam nas férias da escola.
Na véspera da viagem arrumaram as bagagens e colocaram no carro. Uma garrafa PET de um litro foi transformada em uma mamadeira para Bodinho beber água, em uma caixa plástica estava a ração dele. O cocô e o xixi é que poderia ser o problema.
No outro dia pela manhã Benício acordou preocupado, ao voltar da garagem, onde havia organizado melhor a bagagem, ele se aproximou da esposa e disse:
- Já arrumei o carro. Sei não, vai ser uma viagem apertada. São 600 quilômetros.
- Benício, se arrume para você dirigir confortável que a gente se acomoda.
Viajaram três adultos e as três crianças pequenas, mais o cabrito. Todos eles em um Kadett.
Benício ligou o carro, olhou para o banco de trás e ficou preocupado. Carla também olhou, Bodinho estava quieto, retribuiu o olhar. Os três meninos estavam contentes, que em vez da agitação natural das crianças, elas estavam quietas. Depois dessa verificação, Benício olhou para a esposa e disse:
- Vamos. Vamos ver o que é que vai dar, - Carla não comentou, tocou na mão do esposa e apertou de leve.
Estrada estreita, com longos trechos cheios de buracos, o que tornou a viagem lenta. Já noite adentro ele chegaram em Patos, no sertão da Paraíba. Tinham deixado para trás 220 km, desde Caraúbas, no Rio Grande do Norte.
Após a indicação de um frentista de um posto de combustível, na entrada da cidade, em pouco tempo eles estravam na frente do Hotel JK. Benício desceu pagou a hospedagem de dois quartos, um triplo para ele e a família, o outro, duplo, para a babá.
Ele voltou e começou um conclave para saber como levar Bodinho para dentro do hotel sem que fosse notado. Mas Bodinho estava agitado. A tarde toda sem dar seu seus saltos o haviam deixado estressado. Comida e água para Bodinho na calçada, urinou por ali e as fezes foram recolhidas em um saco de papel, jogadas em um lixeiro próximo. Em cima do xixi, o que restava da água da garrafa PET.
Benício entrou primeiro, o atendente levou as bagagens até o quarto triplo. Benício voltou e pegou o menino mais novo no colo, os maiores caminharam ao lado na mãe e Bodinho foi coberto em uma toalha de banho, como se fosse um bebê dormindo. Assim, meio disfarçado, ele entrou no hotel e foi para o quarto duplo junto com a babá.
- Dona Carla, Dona Carla, acorda ...
Carla abriu a porta, sonolenta:
- O que foi Quitéria?
- Venha, venha ver o que o cabrito fez.
As duas saíram pelo corredor do hotel e entraram no quarto. Já primeiros passos Carla viu as fezes no animal forrando o chão. Abriu mais a porta e Bodinho olhou para elas. Parecia estar mais calmo, mas estava na verdade era cansaço por não ter dormido.
Carla empurrou a porta completamente e ao ver:
- Minha nossa senhora! Como é que ele fez isso? Você não percebeu?
- Não, dormi logo que me deitei e quando me levantei para fazer xixi estava essa bagaceira.
Carla olhou de novo para Bodinho, viu ele se chegar e roçar na perna dela.
- Vamos juntar esse cocô em um saco plástico, empurra esse negócio com os pés e vamos embora agora mesmo! - E Carla saiu ligeira para acordar o marido e os filhos.
Subiram a serra de Teixeira atentos, o sol já estava clareando bem a estrada, os meninos dormiam, Quitéria estava atenta e Bodinho relaxado, dormia no colo das crianças.
- Vi ligeiro.
- Como é que ele fez aquilo tudo? - Perguntou de novo Carla.






