sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

A ASSINATURA DO CABRITO BODINHO

 

       Que bode desgramado,
         Que rebeldia foi aquela,
         Podia ter berrado!

     O cabrito foi batizado pelas crianças de Bodinho. Um dia um amigo da família vendo a alegria das crianças de Benício ao verem um bebê cabrito, prometeu a própria esposa que daria um presente a eles.
     Dois meses depois chegou o presente. Aquela família agora tinha seis membros, o casal, os filhos e Bodinho, que cresceu saudável e com muita alegria das crianças.
     Mas, uma viagem longa se avizinhava e dentro da casa começou a se discutir como ficaria o cabrito. Já haviam até conversado com o vizinho para ele alimentar e trocar a água do animal enquanto viajavam. Bodinho, ainda criança, corria solto, dando pinotes e nada sabia do seu destino.
     Era o bicho de estimação daqueles três meninos inquietos.
     Já faltando dois dias para a viagem, Benício chegou em casa e comunicou:
     - Olhe, Zé, o nosso vizinho, vai cuidar do cabrito até a gente voltar, - não foi surpresa para a esposa, isso havia sido combinado.
     Na hora daquela conversa Bodinho chegou na porta e viu os meninos agitados, cada um dizia que ele não poderia ficar no natal sozinho, tinha que ir com eles.
    Benício manteve a decisão que o cabrito ficaria, Carla também achava melhor que o animal não viajasse.
      - Olha, o nosso carro é apertado e nós vamos viajar um dia quase todo.
      - Não pai, a gente se aperta, – disse o mais velho.
     - É pai, a gente leva ele no colo, - disse o filho do meio.
      O mais novo só gesticulava apoiando a ideia dos seus irmãos que haviam encontrado a solução para ter Bodinho na viagem. Depois de muita conversa, os pais toparam. Mas Bodinho iria ser criado na fazenda da avó, pois ficaria grande e não daria para ele viver no quintal da casa onde moravam. Na hora as crianças aceitaram a decisão, a viagem com Bodinho já seria suficiente. Poderiam conviver com ele mais um tempo, pois estavam nas férias da escola.
     Na véspera da viagem arrumaram as bagagens e colocaram no carro. Uma garrafa PET de um litro foi transformada em uma mamadeira para Bodinho beber água, em uma caixa plástica estava a ração dele. O cocô e o xixi é que poderia ser o problema.
     No outro dia pela manhã Benício acordou preocupado, ao voltar da garagem, onde havia organizado melhor a bagagem, ele se aproximou da esposa e disse:
     - Já arrumei o carro. Sei não, vai ser uma viagem apertada. São 600 quilômetros.
     - Benício, se arrume para você dirigir confortável que a gente se acomoda.
      Viajaram três adultos e as três crianças pequenas, mais o cabrito. Todos eles em um Kadett.
     A sexta-feira chegou e Benício conseguiu ser liberado do trabalho mais cedo. Mas só chegou às duas da tarde, fez um almoço rápido e em meia começaria a viagem. A babá e os três meninos estavam acomodados no banco de trás do Kadett. O pequeno cabrito ocupava o colo dos dois meninos mais velhos, nos pés da mãe estava a caixa plástica com as mamadeiras do filho mais novo.
     Benício ligou o carro, olhou para o banco de trás e ficou preocupado. Carla também olhou, Bodinho estava quieto, retribuiu o olhar. Os três meninos estavam contentes, que em vez da agitação natural das crianças, elas estavam quietas. Depois dessa verificação, Benício olhou para a esposa e disse:
     - Vamos. Vamos ver o que é que vai dar, - Carla não comentou, tocou na mão do esposa e apertou de leve.
     Cidade pequena, em cinco minutos estavam na rodovia. Sol a pino, calor furioso e o ar-condicionado do carro soprando com força.
     Estrada estreita, com longos trechos cheios de buracos, o que tornou a viagem lenta. Já noite adentro ele chegaram em Patos, no sertão da Paraíba. Tinham deixado para trás 220 km, desde Caraúbas, no Rio Grande do Norte.
     Após a indicação de um frentista de um posto de combustível, na entrada da cidade, em pouco tempo eles estravam na frente do Hotel JK. Benício desceu pagou a hospedagem de dois quartos, um triplo para ele e a família, o outro, duplo, para a babá.
     Ele voltou e começou um conclave para saber como levar Bodinho para dentro do hotel sem que fosse notado. Mas Bodinho estava agitado. A tarde toda sem dar seu seus saltos o haviam deixado estressado. Comida e água para Bodinho na calçada, urinou por ali e as fezes foram recolhidas em um saco de papel, jogadas em um lixeiro próximo. Em cima do xixi, o que restava da água da garrafa PET.
     Benício entrou primeiro, o atendente levou as bagagens até o quarto triplo. Benício voltou e pegou o menino mais novo no colo, os maiores caminharam ao lado na mãe e Bodinho foi coberto em uma toalha de banho, como se fosse um bebê dormindo. Assim, meio disfarçado, ele entrou no hotel e foi para o quarto duplo junto com a babá.
     Dormiram antes das dez da noite, planejavam correr os outros 390 km lá pelas cinco da manhã. Quando deu quatro horas, Quitéria chegou no quarto do casal agitada:
     - Dona Carla, Dona Carla, acorda ...
     Carla abriu a porta, sonolenta:
     - O que foi Quitéria?
     - Venha, venha ver o que o cabrito fez.
     As duas saíram pelo corredor do hotel e entraram no quarto. Já primeiros passos Carla viu as fezes no animal forrando o chão. Abriu mais a porta e Bodinho olhou para elas. Parecia estar mais calmo, mas estava na verdade era cansaço por não ter dormido.
     Carla empurrou a porta completamente e ao ver:
     - Minha nossa senhora! Como é que ele fez isso? Você não percebeu?
     - Não, dormi logo que me deitei e quando me levantei para fazer xixi estava essa bagaceira.
    Carla olhou de novo para Bodinho, viu ele se chegar e roçar na perna dela.
    - Vamos juntar esse cocô em um saco plástico, empurra esse negócio com os pés e vamos embora agora mesmo! - E Carla saiu ligeira para acordar o marido e os filhos.
    Com a pressa que foi possível, quatro e meia da manhã eles saíram do Hotel JK. Agradeceram a atenção do sonolento guarda e deixaram para trás a assinatura de Bodinho.
     Subiram a serra de Teixeira atentos, o sol já estava clareando bem a estrada, os meninos dormiam, Quitéria estava atenta e Bodinho relaxado, dormia no colo das crianças.
     A viagem seguiu tranquila, perto do meio dia, a primeira viagem de Bodinho terminaria, em poucos minutos ele estaria alegre, saltitando na casa da avó dos meninos e fazendo a alegria deles.
      Já perto do final da viagem, avistando a Serra de Santa Teresinha, o destino a poucos quilômetros,  Carla passou a mão nos olhos, como se quisesse apagar as imagens que a sua  memória trouxe, então se virou para Benício e indagou:
      - Você viu o estrago?
      - Vi ligeiro.
      - Como é que ele fez aquilo tudo? - Perguntou de novo Carla.
      - Não sei. Como pode? - Benício estava incrédulo.
     Nem ela, nem Benício saberiam como. Até hoje, quando se lembram, se perguntam como é que Bodinho colocou no chão o reboco e esburacou toda a parede do banheiro.


Semana Iluminada. Falta pouco para a vacina, nos cuidemos.

Abração, Marconi Urquiza
 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Eu e o Banco do Brasil, 11/jan/1982

 

     Fazia tempo que eu esperava por uma segunda-feira, onze de janeiro. 11 do 01. 11-01. Hoje é uma segunda 11 de janeiro. Ter visto Dona Duda, aos 84 anos, nestes dias desencadeou estas lembranças. Dona Duda era dona do restaurante onde fazíamos a refeição em Afogados da Ingazeira.

    39 anos antes eu entrava, pela porta dos funcionários de antes do expediente, no Banco do Brasil de Afogados da Ingazeira, era um pouco antes das sete horas da manhã. Como um visitante ilustre eu era esperado, não por fama, mas por eu ser o último do concurso de 1981 ou quase, a tomar posse naquela agência.

Ao entrar um vigilante me recebeu, uma colega que não lembro o nome me indicou a mesa de Ronald Teixeira Cavalcante, gerente-adjunto, ainda de pé, ele me deu a carteirinha funcional e vaticinou: Decore este número, ele nunca mais vai sair de sua vida. Não saiu. 

Naquele mesmo dia eu recebia o primeiro talão do Cheque-Ouro, o mais potente Iphone dos produtos bancários daquela época, capaz das maiores distinções sociais. Dever o limite foi um visgo que levei cinco anos para me livrar. 

Naquele dia começou uma história, a da minha vida, que me permitiu ter um rumo, em muitos momentos uma causa para viver, um sentido para a vida, agregando valores que ainda hoje me movem, como ética, respeito pelo próximo, tratar o cliente com atenção e consideração (sob qualquer circunstância). A realidade mudou, o discurso de engrandecimento melhorou e a prática destes bons valores pioraram. 

Os melhores anos, pós 1996, foi quando como gerente eu me sentia especial, inventava coisas sadias para dar bons e sustentáveis resultados. Salvar o BB da falência ou da privatização era um sentindo de vida importante. Ter resultado virou o maior mantra, independente das práticas. Minha doce ilusão foi mudando. De 2002 em diante, era preciso se adaptar ao novo modelo, era preciso se reinventar, eu de tantas reinvenções me sentia agoniado, sem saber como me provocar constantemente tantas invenções. Mas eu não enxergava, as reinvenções estava no patamar do espirito, eu não sabia como agir, quebrando ou abandonando os meus valores (honestidade de princípio, atitudes éticas, vendas reais e por aí foi). Não quebrei e me quebrei.

Dia desses eu estava me lembrando da Ação do Fome Zero, aquilo correu o Brasil de cima a baixo. Lembro que em 1998 nos fizemos em Terra Boa (PR), quando as crianças começaram a chegar em um evento dos dias das crianças eu cunhei um termo que nunca esqueci: Fome escondida. Ali a fome era escondida, não escancarada como ocorria no Nordeste daquela época.

Teve um momento que minha esposa idealizou um São João, ela reuniu as crianças dos colegas, conseguiu carroças de burro, um lojista que tocava sanfona e forró se dispôs e correram a avenida Brasil em Terra Boa levando a bandeira do BB. Este e vários outros episódios foram feitos para tornar a imagem do BB simpáticas nas cidades.  Nessa época a imagem do BB era um torrão de madeira, queimadinha, bem queimadinha e eu era um dos artífices do novo Banco do Brasil. Eu me sentia especial.

Deixando as mágoas de lado, há toda uma história rica dentro da empresa, das pessoas que conheci, dos amigos que conquistei, do respeito dos clientes que obtive, das histórias divertidas que ouvi e que presenciei, das lições que aprendi. Dos risos que dei e alguns que provoquei. Do assalto que virou crônica e depois virou brincadeira.

Por ser essa segunda especial, uma marca na minha vida. 

Bom dia minha gente!!

Abração, Marconi


sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Gameização - E quando tudo é um jogo?




E quando tudo é um jogo.

Política é jogo?
Futebol é esporte e é jogo?
Estratégia é jogo?
Medição de desempenho é jogo?
Opinião pública é jogo? Quem joga com ela?
Algoritmo faz jogo? Quem é o pato?
Incitar fanáticos ou fanatizados, é jogo?

         Eu já havia iniciado esta crônica e nem imaginaria que iria haver uma exemplo mais pronto e mais recente para ilustrar a minha percepção: a invasão do Senado dos Estados Unidos, nesta quarta-feira, pelos apoiadores de Donald Trump, na tentativa de evitar a homologação da eleição de Joe Biden.

      Muitos anos atrás cansei de ouvir: "Seguir a regra do jogo". Era isso mesmo, quem jogava segundo tais regras tendia a ser vencedor, independente de qualquer ética envolvida e menos ainda de qualquer princípio moral. Nesse grande anfiteatro que é a política, necessária, execrada, mal vista, mal afamada, de muita gente que vai pelos interesses pessoais, das corporações, as quais defende. Corporações entendida como empresas, classes profissionais, religiosas, facções. Tem de quase tudo ou tudo. O baixo clero tenta sobreviver nessa gameização e os que mandam de fato, nem aparecem. Mas tem o alto clero, dotados de grande poder de decisão. Mas tudo é um grande game.

     E o povo em geral, fica, quando fica na arquibancada. Na gigantesca maioria, somos meros passageiros, à mercê de qualquer "motorista".  Tem várias pessoas que falam de espírito republicano, a quem interessa isto?

    Queremos o resultado, a sociedade deseja que a sua vida melhore. É por isso que a política existe, para equilibrar as forças. Mas não equilibra, os tais ideais republicanos somem no meio dessa gameização. Soa, para nós comuns, como um termo sem sentido, coisa de academia, de mestrado ou doutorado. Um termo que para virar prática e tornar a vida das pessoas melhores, tem que sair do ideal e ir para o dia a dia.

    Parece com uberização? Tem o mesmo sentido. É um neologismo.

    Tudo é um jogo. Há muito tempo. 

    E quando tudo é um jogo?

    Aí vem a propaganda, os algoritmo sendo usados para nos incutir e desperta os nossos sentimentos mais ruins, regressivos: como rancor, ódio, mal querença, insatisfação, barriga vazia, falta de oportunidade, frustração. A culpa é do outro. Criando um efervescência que nos impede de ver a manipulação. É jogo, quer aceitemos ou não. A maioria de nós é pato nesse game. Só entra para perder.

    Outro dia eu estava lendo sobre a corrupção em um livro sobre comportamento coletivo. Neste livro, já no final, o autor* se expressa mais ou menos assim: Aí vem o sistema e oferece uma vantagem, a pessoa recusa. Vem outro dia, e oferece outra vantagem. Muda o canto e abre uma brecha para a pessoa aceitar. Mais uma vez há a recusa. O sistema desta vez mistura o doce com o amargo, mistura a vantagem com uma perda. Ganho e perda no mesmo prato. Aí, a resistência é quebrada. A pessoa aceita ser Serva do sistema. Quem é o sistema? Melhor, o que é o sistema?

    Pensou nisso: Quem é o sistema? O que é o sistema?

    Vale para qualquer circunstância da vida em uma sociedade organizada. Muitas vezes, mesmo sem querer, as pessoas se transformam em "bois de piranha". O bode expiatório, o besta que se fode. É jogo.

    Ruim é reconhecer que viramos peão do jogo do outro. Quando cremos, piamente, que fizemos o melhor e apenas somos uma mera engrenagem. Terrível.

    Às vezes, muitas, na verdade, nada se pode fazer isoladamente, por isso ter sindicatos fortes, entidades da sociedade civil fortes, ONG fortes, movimentos civis atuantes. A questão esbarra, que para isso ocorrer se precisa de recurso. Estrangule a fonte de dinheiro e tudo isso se enfraquece. Não é a toa que a força policial vai em cima dos recursos das gangues internacionais, é para matá-las por falta de dinheiro.  Por exemplo: o Imposto Sindical tinha muito mal uso, e agora? Alguém já ponderou o que vem ocorrendo com a defesa sindical para as categorias profissionais?

    Todas foram cooptadas por não terem fonte de receitas. Os trabalhadores do Brasil não aderem fácil às entidades de classe. É uma realidade a se tentar alterar.

    Isto que ocorreu, esse sufocamento financeiro, não foi uma jogada magistral?

    É importante entender e se perguntar constantemente: A quem interessa algo que aparece na redes sociais, mídias, na boca das pessoas? Quem vai ganhar com isso? A quem interessa o incitamento que ocorreu nos Estados Unidos? A quem interessa incitar comportamento radicais?

   Feito isto, vamos viver. 

   Semana Iluminada.


(*)

        Autor: Philip Zumbardo. 





quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

RETROSPECTIVA SENSORIAL



                                            Poema de Ademar Rafael Ferreira
      Mesmo com dores terríveis
       No joelho, punho e mão
       Com insônia que perturba
       A mente e o coração.
       Sei que após a tempestade
       Dias melhores virão.

       Que é isso de sensorial? 
       Na falta de uma palavra no vocabulário e da preguiça em consultar dicionários eu deixei assim mesmo. Nos acostumamos ver na tevê programas de retrospectivas,  em um ano em que a sociedade brasileira andou de braço dado com a teimosia e com a morte, muitas evitáveis. 

       Pois bem, cabe a cada um fazer a sua. Eu compartilho a minha.

      Começo pelo Medo.  Como senti! Aquele medo raiz, ancestral. Mas em vez de ter correr para se salvar, a salvação foi ficar parado.  Em casa. 

       Veio a insegurança. E o futuro? Qual o sentido de vida para quem está com 61 anos. Achá-lo, transformar em objetivo e agir. Felizmente estava em andamento a liberação da escrita como razão de viver. Falta-me ser lido. De março para dezembro escrevi 100 páginas de um romance.  Escrevi 48 contos e umas 30 crônicas, totalizando mais 300 páginas. Tudo organizado,  são três livros. 

      Mas aí veio o sufoco, um filho entrou na fila do desemprego.  O futuro dos meus filhos são o meu. Eles estando bem,  eu consigo levar a vida.

     A insegurança veio forte. Era hora de evitar que a sanidade mental virasse insanidade. Após  três anos, eu era quase um rato de academia.  Frequência de três a quatro vezes por semana. O físico em setembro estava definhando.  Depois  de mais um ano sem sentir as dores da artrose,  eu voltei a tê-las.

     Olhava o mundo pelo quadrado da janela, isto esgotou. Já não era suficiente.  Comecei a me refugiar na leitura das mensagens boas, o ruim me dava mal-estar. Fugia na irrealidade do mundo perfeito. Recusei o voluntariado para escrever o obituário dos mortos pela pandemia. Escapou uma, a do primo Ronaldo Tenório. 

      Em setembro estourei às costas,  machuquei o joelho direito, o punho começou a doer, a insônia se tornou péssima.  O corpo reclamava...  Não,  a vida reclamava. 

     Contrariando o senso comum,  criei os melhores contos,  resgatei por meio da fantasia imagens que andava, sei lá onde. Um passarinho que entrou na casa, o vento que se tornou personagem. A empregada que tem o mesmo odor corporal da patroa e por aí fui. Havia escrito dois romances, neles a vida é crua. Nos contos a escrita é bem diferente das dos romances, a leveza é a marca. Era de leveza que eu precisava.

     Passei a olhar o Mundo pelo Cuidado e pela Liberdade Provisória. Sabe, qualquer descuido,  podemos estar mortos em pouco tempo ou podemos ser assassinos, sem sabermos. O cuidado é mais que uma faceta da nossa vida mundana. A liberdade é vigiada pelo vírus.  

     Antes aprendi olhando,  atendendo , sendo um ouvido atento e respeitoso para os clientes, alguns doentes, vários terminais, especialmente os que chegavam na agência do Banco do Brasil,  Agamenon Magalhães,  em Recife.  Aqueles anos me deram um sentido de vida canino, em uma carreira que havia entrado no ocaso. Saí dos anos em que lá estive ciente que ser empático depende de um esforço permanente, fabulosamente gratificante. "O simples usar da máscara pode ter o mesmo sentido". Redescobri isto em 2020.

Que nos encontremos em 2021!




Feliz o AnoNovo, Iluminado como nunca.
Recife, 31/dez/2020

Marconi Urquiza 




sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

O NATAL DO MENINO QUE CORRIA COMO SE ANDASSE



Poema de Ademar Rafael Ferreira


       Ele atravessava a rua
       E a praça feito bala
       Entrava no quarto escuro
       Passando rápido na sala.


       Pra mexer com marimbondo
       Nunca lhe faltava gás
       Pra caçar dentro do mato
       Ele tinha um pé atrás.

       Com suas pernas de garça
       Corria como se andasse
       As “perninhas de abelha”
       Não tinha quem
       Aquietasse.
 
       O natal do menino buliçoso começava quando a prefeitura esticava os fios das lâmpadas no quadrado da praça. Esse era o sinal que as festas estavam perto.
       Na sua casa, a iluminação simples do natal na cidade era o início para se organizar o da família. O peru gordo já estava encomendado, a árvore de natal desencaixada, os enfeites limpos e pendurados na portas. Na virada para o mês de natal a corrida para Garanhuns. Era hora de comprar as roupas novas.
       Toda noite ele descia para a rua, ia olhar as poucas barracas com jogos, a roleta de ficha e a barraca de tiro ao alvo, tiro que nunca acertava.
       O Natal ia chegando, as casas das ruas se enfeitando como podiam. O menino gostava de correr as ruas de perto e olhar as casas com as suas árvores de Natal acesas. Parava numa casa, geralmente de porta aberta para as pessoas da rua as verem. Trinta segundos, olhava, corria para a outra, mais trinta segundos ou quanto o tempo a timidez permitisse.
      Era tempo de brilho na costumeira escuridão da cidade. Quando estava parado na pequena praça, perto da praça grande os seus olhos se enchiam da luz das lâmpadas amarelas incandescentes.
      Naquele ano a prefeitura criou um presépio e o colocou no meio da fonte da praça da matriz. O menino agitado, era como se tivesse uma bateria extra, parecia não gostar de andar, corria como se andasse. Como se tivesse pressa para tudo. Era a energia extra deixando-o elétrico.
      Em um final de tarde ele parou perto do presépio da praça grande e ficou olhando os bonecos. Viu o jumentinho, não gostou dos olhos pidões do Menino Jesus e prometeu que no dia de Natal, com a cidade toda dormindo, ele entraria na fonte para alisar a estrela grande.
     Promessa feita, olhou para o céu e esticou a mão para uma estrela que pulsava forte. Tá longe. Deu dois pulos e saiu correndo, atravessou a rua na diagonal e parou perto da calçada. Deu um giro sobre o corpo e olhou tudo ao redor. Cada casinha, cada comércio, a imensa igreja. Tudo estava iluminado.
       Se voltou para a calçada e olhou a casa à sua frente. A varanda estava às escuras, não tinha enfeite, as portas cerradas e a árvore de natal não havia sido montada. A casa do coronel estava triste.
       Pisando devagar desceu mais alguns metros e subiu a calçada da casa do seu padrinho, esticou o pescoço e ficou na ponta dos pés para ver o corredor da rica casa, estava doidinho para entrar, mas não tinha intimidade.
       Nisso viu o seu pai subir a rua, dirigindo devagar a Ford Rural verde e branca. Era hora do jantar. Correu e quando o seu pai entrava na casa, ainda da calçada da casa vizinha, ele gritou:
       - Pai?
       - Já tomou banho?
       - Não.
       - Vá logo, que hoje é natal.
      O menino correu dentro da casa, quase tromba em Maria Preta, escorregou na entrada do quarto, a prima Fina encostou e soprou no seu ouvido:
       - Vai logo, se não, você perde a vez. Agora de noite tem muita gente para tomar banho.
       Era Natal e só tinha um banheiro com água morna na casa.
       O menino deu meia volta, correu para o quintal pegou a sua toalha, arrastou uma cueca do varal e voando entrou no banheiro. Saiu dele na mesma ligeireza que havia entrado. Ali perto, Maria Preta arrumava a mesa para a ceia do natal, quando seu rosto surgiu na porta, ela avisou:
       - Cuidado menino, tem prato quente!
 
       Não gostava de andar
       Pra correr era dotado
       Só mesmo muito doente
       É que ficava parado.

      Tinha turbina nas pernas
       Igual asas de avião
       Por sempre viver correndo
       Sempre chamava atenção.

      Com suas pernas de garça
      Corria como se andasse
      As “perninhas de abelha”
      Não tinha quem
      Aquietasse.

      Só um pouquinho devagar, andou como corresse, chegou na porta do seu quarto e estancou. Viu sobre a cama o seu traje completo: calça curta, camisa xadrez e as meias. Esticou os olhos e viu perto da cabeceira da cama o brilho dos sapatos e o cinto enroladinho dentro do pé direito. Paralisado, toda a sua agitação cessou, a prima Fina encostou mais uma vez:
- Vai logo, já então todos na mesa. Só falta você.



Feliz Natal,
Ano Novo Iluminado.

Marconi Urquiza

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                  "A imensa igreja"

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A praça Dom Pedro II, em Bom Conselho, no tempo 
narrado pela crônica.




sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

2020, ano da empatia?

      
      Tentei mandar a um amigo 
      A paz, amor e alegria.
      Com afagos e presentes
      Eu gastei muita energia. 
      Reformei minha atitude,
      Vi o trio em plenitude, 
      Quando mandei EMPATIA.
         (Ademar Rafael Ferreira)

     Em 2020 a empatia surgiu muito forte.  Muita gente tornou ela um valor a lhe dar sentido às suas vidas. 
      Mas tem gente que destoa ou não se importa em praticá-la. Isto se revela ao se aglomerar, não usar as máscaras, entre outros comportamentos egoístas. 
      Nesta semana, ao ler parte do discurso do ministro da saúde, vi que ele reclamou da ansiedade pela vacinação.
      Será que ele sabe o que é isso? O que sentiu ao ficar na UTI? Foi só medo?
      Tem fala, que de tão transformada em uma coisa, não toca, passa como um vento imperceptível. Nada contribui.
       Que humano foi esse que escreveu aquele discurso? Cheio de certezas e zero de empatia.
       Muito tempo atrás em uma aula, um professor convidado veio palestrar, comentava pormenores de sua pesquisa para a tese de doutorado.  Essa pesquisa envolvia líderes ativos e líderes aposentados da igreja católica. 
      Um aspecto chamou a atenção nessa palestra: a forma como os entrevistados respondiam às perguntas.
      Os líderes da ativa,  segundo o palestrante, falavam chavões o tempo inteiro do discurso institucional. A pose, às vezes, era magnâmica. Ali estava o CNPJ encarnado em um indivíduo,  que respondia, sem responder. 
     No outro grupo de entrevistados, estavam os ex-líderes, agora aposentados.  Disse o professor que alguns deles, sem as vestes do cargo, eram capazes de dizer: "Senta aqui filho! Fique à vontade e muita vezes se sentavam no mesmo sofá". As respostas dessas pessoas, eram, na maior parte,  precisas e diretas. Até empáticas.
      Olhando o discurso do general Pazuello, veio à mente os discursos corporativos escutados ao longo de  vários anos. Palavras bonitas,  às vezes de ânimo, frequentemente vazias de sentimentos. 
     Quando se conhece a dor de uma família com um doente de covid, quando se dá de cara com o médico angustiado ou quando ouvimos um muito obrigado, o sentimento costuma ser o mesmo: de empatia. 
    Empatia, só isso muitas vezes basta.

 2021, Ano Super Empático.
Abração, 
Marconi Urquiza

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

2020, um ano impossível?

 

2020, Um Ano Impossível?

     Nesta semana foi a maior comemoração do ano, 100 anos de Clarice Lispector. Tanta coisa foi dita, tantas lives e citações nesta semana foram feitas. Imagens e  mais imagens dos seus livros e dela mesma. Pelo menos para mim esse excesso de menções não deu-me o efeito de enjoo.

     Estava a procura de um assunto quando li no Instagram a frase de Clarice. Vou repeti-la:

     O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós. 

     Foi como estar dentro de um ônibus quando o motorista dá uma freada brusca e nos pega desprevenidos, nos jogando para trás e a para frente sem tenhamos como controlar os nossos movimentos. É quase uma topada que nos joga na calçada.    

    Quem já não fez coisas que classificou de impossível?  

    A frase de Clarice Lispector foi um link sem filtros para uma realidade que não recordava mais e que ao reler, depois de dezessete anos, me senti perplexo. Uma perplexidade pelo uso da palavra impossível, ainda mais por sentir o que o havia escrito teve dimensão histórica de uma superação de dificuldade que era um contraponto a todo que é organizado, o caos. É que falei aos colegas do Banco do Brasil em Surubim, naquele ano da graça de 2003, naquele mês de agosto, que dada as circunstâncias de metas muito elevadas e condições de trabalho péssimas, estaríamos, à partir daquele dia, No Exercício do Impossível

     Juro que foi um choque reler. Uma reflexão profunda se seguiu, anos passaram por minha mente tentando achar que tudo valeu a pena. 

     Aí chegamos em 2020. O Medo, a Angústia, a Incerteza, O Olhar o Mundo pelo Quadrado da Janela. Um ano impossível. Impossível de muito modos. Do geral para o individual, do medo extremo para a imprudência deslavada. Do choque e da dor não reconhecida nos outros, apenas em nós, quando o egoísmo abriu às portas para a desgraça.

     Um ano impossível, onde milhares de cientistas não estão concorrendo entre si de forma predatória, onde empresas que querem a vacina primeiro, não estão boicotando que outras façam as suas. Um ano impossível no Brasil, com a sensação de que poderia ter sido diferente. Poderia mesmo?

     Muito tempo atrás, um personagem, que era tido como medroso, dizia quando lhe pediam o que a norma não amparava no Banco do Brasil: Olha, eu sou temente a Deus. Esse era o seu limite. O que ainda se vê nesse 2020, ainda sem vacina, é que tem muito adulto que teima. A teimosia insana, daquela que dizia o cantor Bezerra da Silva na canção Malandro Demais vira Bicho, ao se referir para uma pessoa ter limites, que o cara vai ser pego e se ferrar.

      Um ano impossível, um vírus, cujo efeito é carnal, doído, daqueles que provoca o arrependimento, talvez até, daqueles que mata pela culpa sem controle. Tenho convicção, que não tem estatística que simplifique, quando a desgraça se abate sobre nós.

      Um ano que criou em milhões de pessoas uma urgência de viver quase paranoica, uma disciplina que não queria ter, uma criatividade quase sem fim para dar conta da sanidade mental, um exercício de paciência jamais experimentado por muita gente, uma fome de viver jamais percebida, um certo sentimento de dor e amor, como os dois braços fazendo uma cadeirinha para orarmos por alguém prestes a morrer. Um medo visceral, dias a fio.

      Aí veio Clarice Lispector a nos provoca à reflexão. E se sua afirmação fosse uma pergunta?  O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós? 

      Eu não tenho resposta.  E vocês?

     

     Abração.
     Semana Iluminada,  Marconi Urquiza

Existimos: A que será que se destina?

Viktor Frankl             Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...