sexta-feira, 22 de janeiro de 2021
No exercício da paciência
sexta-feira, 15 de janeiro de 2021
A ASSINATURA DO CABRITO BODINHO
Que bode desgramado,
Dois meses depois chegou o presente. Aquela família agora tinha seis membros, o casal, os filhos e Bodinho, que cresceu saudável e com muita alegria das crianças.
Mas, uma viagem longa se avizinhava e dentro da casa começou a se discutir como ficaria o cabrito. Já haviam até conversado com o vizinho para ele alimentar e trocar a água do animal enquanto viajavam. Bodinho, ainda criança, corria solto, dando pinotes e nada sabia do seu destino.
Era o bicho de estimação daqueles três meninos inquietos.
- Olhe, Zé, o nosso vizinho, vai cuidar do cabrito até a gente voltar, - não foi surpresa para a esposa, isso havia sido combinado.
Na hora daquela conversa Bodinho chegou na porta e viu os meninos agitados, cada um dizia que ele não poderia ficar no natal sozinho, tinha que ir com eles.
Benício manteve a decisão que o cabrito ficaria, Carla também achava melhor que o animal não viajasse.
- Olha, o nosso carro é apertado e nós vamos viajar um dia quase todo.
- Não pai, a gente se aperta, – disse o mais velho.
- É pai, a gente leva ele no colo, - disse o filho do meio.
O mais novo só gesticulava apoiando a ideia dos seus irmãos que haviam encontrado a solução para ter Bodinho na viagem. Depois de muita conversa, os pais toparam. Mas Bodinho iria ser criado na fazenda da avó, pois ficaria grande e não daria para ele viver no quintal da casa onde moravam. Na hora as crianças aceitaram a decisão, a viagem com Bodinho já seria suficiente. Poderiam conviver com ele mais um tempo, pois estavam nas férias da escola.
Na véspera da viagem arrumaram as bagagens e colocaram no carro. Uma garrafa PET de um litro foi transformada em uma mamadeira para Bodinho beber água, em uma caixa plástica estava a ração dele. O cocô e o xixi é que poderia ser o problema.
No outro dia pela manhã Benício acordou preocupado, ao voltar da garagem, onde havia organizado melhor a bagagem, ele se aproximou da esposa e disse:
- Já arrumei o carro. Sei não, vai ser uma viagem apertada. São 600 quilômetros.
- Benício, se arrume para você dirigir confortável que a gente se acomoda.
Viajaram três adultos e as três crianças pequenas, mais o cabrito. Todos eles em um Kadett.
Benício ligou o carro, olhou para o banco de trás e ficou preocupado. Carla também olhou, Bodinho estava quieto, retribuiu o olhar. Os três meninos estavam contentes, que em vez da agitação natural das crianças, elas estavam quietas. Depois dessa verificação, Benício olhou para a esposa e disse:
- Vamos. Vamos ver o que é que vai dar, - Carla não comentou, tocou na mão do esposa e apertou de leve.
Estrada estreita, com longos trechos cheios de buracos, o que tornou a viagem lenta. Já noite adentro ele chegaram em Patos, no sertão da Paraíba. Tinham deixado para trás 220 km, desde Caraúbas, no Rio Grande do Norte.
Após a indicação de um frentista de um posto de combustível, na entrada da cidade, em pouco tempo eles estravam na frente do Hotel JK. Benício desceu pagou a hospedagem de dois quartos, um triplo para ele e a família, o outro, duplo, para a babá.
Ele voltou e começou um conclave para saber como levar Bodinho para dentro do hotel sem que fosse notado. Mas Bodinho estava agitado. A tarde toda sem dar seu seus saltos o haviam deixado estressado. Comida e água para Bodinho na calçada, urinou por ali e as fezes foram recolhidas em um saco de papel, jogadas em um lixeiro próximo. Em cima do xixi, o que restava da água da garrafa PET.
Benício entrou primeiro, o atendente levou as bagagens até o quarto triplo. Benício voltou e pegou o menino mais novo no colo, os maiores caminharam ao lado na mãe e Bodinho foi coberto em uma toalha de banho, como se fosse um bebê dormindo. Assim, meio disfarçado, ele entrou no hotel e foi para o quarto duplo junto com a babá.
- Dona Carla, Dona Carla, acorda ...
Carla abriu a porta, sonolenta:
- O que foi Quitéria?
- Venha, venha ver o que o cabrito fez.
As duas saíram pelo corredor do hotel e entraram no quarto. Já primeiros passos Carla viu as fezes no animal forrando o chão. Abriu mais a porta e Bodinho olhou para elas. Parecia estar mais calmo, mas estava na verdade era cansaço por não ter dormido.
Carla empurrou a porta completamente e ao ver:
- Minha nossa senhora! Como é que ele fez isso? Você não percebeu?
- Não, dormi logo que me deitei e quando me levantei para fazer xixi estava essa bagaceira.
Carla olhou de novo para Bodinho, viu ele se chegar e roçar na perna dela.
- Vamos juntar esse cocô em um saco plástico, empurra esse negócio com os pés e vamos embora agora mesmo! - E Carla saiu ligeira para acordar o marido e os filhos.
Subiram a serra de Teixeira atentos, o sol já estava clareando bem a estrada, os meninos dormiam, Quitéria estava atenta e Bodinho relaxado, dormia no colo das crianças.
- Vi ligeiro.
- Como é que ele fez aquilo tudo? - Perguntou de novo Carla.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2021
Eu e o Banco do Brasil, 11/jan/1982
Fazia tempo que eu esperava por uma segunda-feira, onze de janeiro. 11 do 01. 11-01. Hoje é uma segunda 11 de janeiro. Ter visto Dona Duda, aos 84 anos, nestes dias desencadeou estas lembranças. Dona Duda era dona do restaurante onde fazíamos a refeição em Afogados da Ingazeira.
39 anos antes eu entrava, pela porta dos funcionários de antes do expediente, no Banco do Brasil de Afogados da Ingazeira, era um pouco antes das sete horas da manhã. Como um visitante ilustre eu era esperado, não por fama, mas por eu ser o último do concurso de 1981 ou quase, a tomar posse naquela agência.
Ao entrar um vigilante me recebeu, uma colega que não lembro o nome me indicou a mesa de Ronald Teixeira Cavalcante, gerente-adjunto, ainda de pé, ele me deu a carteirinha funcional e vaticinou: Decore este número, ele nunca mais vai sair de sua vida. Não saiu.
Naquele mesmo dia eu recebia o primeiro talão do Cheque-Ouro, o mais potente Iphone dos produtos bancários daquela época, capaz das maiores distinções sociais. Dever o limite foi um visgo que levei cinco anos para me livrar.
Naquele dia começou uma história, a da minha vida, que me permitiu ter um rumo, em muitos momentos uma causa para viver, um sentido para a vida, agregando valores que ainda hoje me movem, como ética, respeito pelo próximo, tratar o cliente com atenção e consideração (sob qualquer circunstância). A realidade mudou, o discurso de engrandecimento melhorou e a prática destes bons valores pioraram.
Os melhores anos, pós 1996, foi quando como gerente eu me sentia especial, inventava coisas sadias para dar bons e sustentáveis resultados. Salvar o BB da falência ou da privatização era um sentindo de vida importante. Ter resultado virou o maior mantra, independente das práticas. Minha doce ilusão foi mudando. De 2002 em diante, era preciso se adaptar ao novo modelo, era preciso se reinventar, eu de tantas reinvenções me sentia agoniado, sem saber como me provocar constantemente tantas invenções. Mas eu não enxergava, as reinvenções estava no patamar do espirito, eu não sabia como agir, quebrando ou abandonando os meus valores (honestidade de princípio, atitudes éticas, vendas reais e por aí foi). Não quebrei e me quebrei.
Dia desses eu estava me lembrando da Ação do Fome Zero, aquilo correu o Brasil de cima a baixo. Lembro que em 1998 nos fizemos em Terra Boa (PR), quando as crianças começaram a chegar em um evento dos dias das crianças eu cunhei um termo que nunca esqueci: Fome escondida. Ali a fome era escondida, não escancarada como ocorria no Nordeste daquela época.
Teve um momento que minha esposa idealizou um São João, ela reuniu as crianças dos colegas, conseguiu carroças de burro, um lojista que tocava sanfona e forró se dispôs e correram a avenida Brasil em Terra Boa levando a bandeira do BB. Este e vários outros episódios foram feitos para tornar a imagem do BB simpáticas nas cidades. Nessa época a imagem do BB era um torrão de madeira, queimadinha, bem queimadinha e eu era um dos artífices do novo Banco do Brasil. Eu me sentia especial.
Deixando as mágoas de lado, há toda uma história rica dentro da empresa, das pessoas que conheci, dos amigos que conquistei, do respeito dos clientes que obtive, das histórias divertidas que ouvi e que presenciei, das lições que aprendi. Dos risos que dei e alguns que provoquei. Do assalto que virou crônica e depois virou brincadeira.
Por ser essa segunda especial, uma marca na minha vida.
Bom dia minha gente!!
Abração, Marconi
sexta-feira, 8 de janeiro de 2021
Gameização - E quando tudo é um jogo?
Política é jogo?
Futebol é esporte e é jogo?
Estratégia é jogo?
Medição de desempenho é jogo?
Opinião pública é jogo? Quem joga com ela?
Eu já havia iniciado esta crônica e nem imaginaria que iria haver uma exemplo mais pronto e mais recente para ilustrar a minha percepção: a invasão do Senado dos Estados Unidos, nesta quarta-feira, pelos apoiadores de Donald Trump, na tentativa de evitar a homologação da eleição de Joe Biden.
Muitos anos atrás cansei de ouvir: "Seguir a regra do jogo". Era isso mesmo, quem jogava segundo tais regras tendia a ser vencedor, independente de qualquer ética envolvida e menos ainda de qualquer princípio moral. Nesse grande anfiteatro que é a política, necessária, execrada, mal vista, mal afamada, de muita gente que vai pelos interesses pessoais, das corporações, as quais defende. Corporações entendida como empresas, classes profissionais, religiosas, facções. Tem de quase tudo ou tudo. O baixo clero tenta sobreviver nessa gameização e os que mandam de fato, nem aparecem. Mas tem o alto clero, dotados de grande poder de decisão. Mas tudo é um grande game.
E o povo em geral, fica, quando fica na arquibancada. Na gigantesca maioria, somos meros passageiros, à mercê de qualquer "motorista". Tem várias pessoas que falam de espírito republicano, a quem interessa isto?
Queremos o resultado, a sociedade deseja que a sua vida melhore. É por isso que a política existe, para equilibrar as forças. Mas não equilibra, os tais ideais republicanos somem no meio dessa gameização. Soa, para nós comuns, como um termo sem sentido, coisa de academia, de mestrado ou doutorado. Um termo que para virar prática e tornar a vida das pessoas melhores, tem que sair do ideal e ir para o dia a dia.
Parece com uberização? Tem o mesmo sentido. É um neologismo.
Tudo é um jogo. Há muito tempo.
E quando tudo é um jogo?
Aí vem a propaganda, os algoritmo sendo usados para nos incutir e desperta os nossos sentimentos mais ruins, regressivos: como rancor, ódio, mal querença, insatisfação, barriga vazia, falta de oportunidade, frustração. A culpa é do outro. Criando um efervescência que nos impede de ver a manipulação. É jogo, quer aceitemos ou não. A maioria de nós é pato nesse game. Só entra para perder.
Outro dia eu estava lendo sobre a corrupção em um livro sobre comportamento coletivo. Neste livro, já no final, o autor* se expressa mais ou menos assim: Aí vem o sistema e oferece uma vantagem, a pessoa recusa. Vem outro dia, e oferece outra vantagem. Muda o canto e abre uma brecha para a pessoa aceitar. Mais uma vez há a recusa. O sistema desta vez mistura o doce com o amargo, mistura a vantagem com uma perda. Ganho e perda no mesmo prato. Aí, a resistência é quebrada. A pessoa aceita ser Serva do sistema. Quem é o sistema? Melhor, o que é o sistema?
Pensou nisso: Quem é o sistema? O que é o sistema?
Vale para qualquer circunstância da vida em uma sociedade organizada. Muitas vezes, mesmo sem querer, as pessoas se transformam em "bois de piranha". O bode expiatório, o besta que se fode. É jogo.
Ruim é reconhecer que viramos peão do jogo do outro. Quando cremos, piamente, que fizemos o melhor e apenas somos uma mera engrenagem. Terrível.
Às vezes, muitas, na verdade, nada se pode fazer isoladamente, por isso ter sindicatos fortes, entidades da sociedade civil fortes, ONG fortes, movimentos civis atuantes. A questão esbarra, que para isso ocorrer se precisa de recurso. Estrangule a fonte de dinheiro e tudo isso se enfraquece. Não é a toa que a força policial vai em cima dos recursos das gangues internacionais, é para matá-las por falta de dinheiro. Por exemplo: o Imposto Sindical tinha muito mal uso, e agora? Alguém já ponderou o que vem ocorrendo com a defesa sindical para as categorias profissionais?
Todas foram cooptadas por não terem fonte de receitas. Os trabalhadores do Brasil não aderem fácil às entidades de classe. É uma realidade a se tentar alterar.
Isto que ocorreu, esse sufocamento financeiro, não foi uma jogada magistral?
É importante entender e se perguntar constantemente: A quem interessa algo que aparece na redes sociais, mídias, na boca das pessoas? Quem vai ganhar com isso? A quem interessa o incitamento que ocorreu nos Estados Unidos? A quem interessa incitar comportamento radicais?
Feito isto, vamos viver.
Semana Iluminada.
(*)
Autor: Philip Zumbardo.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
RETROSPECTIVA SENSORIAL
Com insônia que perturba
A mente e o coração.
Sei que após a tempestade
sexta-feira, 25 de dezembro de 2020
O NATAL DO MENINO QUE CORRIA COMO SE ANDASSE
Poema de Ademar Rafael Ferreira
E a praça feito bala
Entrava no quarto escuro
Passando rápido na sala.
Pra mexer com marimbondo
Nunca lhe faltava gás
Pra caçar dentro do mato
Ele tinha um pé atrás.
Com suas pernas de garça
Corria como se andasse
As “perninhas de abelha”
Não tinha quem
Pra correr era dotado
Só mesmo muito doente
É que ficava parado.
Tinha turbina nas pernas
Igual asas de avião
Por sempre viver correndo
Sempre chamava atenção.
Com suas pernas de garça
Corria como se andasse
As “perninhas de abelha”
Não tinha quem
Aquietasse.
Só um pouquinho devagar, andou como corresse, chegou na porta do seu quarto e estancou. Viu sobre a cama o seu traje completo: calça curta, camisa xadrez e as meias. Esticou os olhos e viu perto da cabeceira da cama o brilho dos sapatos e o cinto enroladinho dentro do pé direito. Paralisado, toda a sua agitação cessou, a prima Fina encostou mais uma vez:
sexta-feira, 18 de dezembro de 2020
2020, ano da empatia?
Existimos: A que será que se destina?
Viktor Frankl Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...
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