quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Do Carnaval ao Ano Novo

     
     Estava a cabular um assunto quando lembrei que
Gonzagão em uma canção se referiu às 4 festas do ano. Para mim, papai marcou claramente as suas quatro festas do ano.

    Até que saúde dele, dos amigos e a idade permitiu,  ele brincou demais no Carnaval. Várias vezes vi os seus amigos entrarem em nossa casa para festarem, comerem e beberem, depois saíam para a próxima parada na casa de outro amigo.

     A próxima festa,  bem demarcada,  era a Semana Santa, dois dias de convívio pleno com papai, quinta e sexta santa.  As refeições tranquilas,  sem pressa, sem faltar ninguém da casa. Ele parece que nestes dias desacelerava. Nunca esqueci,  era nessa época que ele me encarregava de ir no bar de João Presideu pegar uma garrafa do vinho Velho Macassa. Um antigo vinho tinto.

     Depois vinha  o Natal. A casa ficava bonita,  parentes iam lá cear,  mas era a festa nossa, dos filhos,  pois os nossos amigos iam para nossa casa. Papai vestia camisa de linho,  clara, manga curta, calça escura,  o sapato de cromo alemão (para as ocasiões especiais), as três gotas de um perfume francês. 
     Ele que não ficava muito em casa nas horas de folga, mas na véspera do Natal circulava pela casa com uma expressão de que estava feliz. 
      Logo chegava o Ano Novo, tudo era bem preparado para receber os amigos,  primos,  conhecidos.  Quem fosse era bem recebido. Peru,  whisky do bom, cerveja da boa, comidas variadas,  tudo abundante. Não era para faltar nada. Perto da virada do ano papai demonstrava alguma ansiedade para ver quantos amigos aceitariam seu convite.
    A casa, geralmente na penumbra, estava nessa época muito iluminada,  colorida, alegre. Até hoje,  quando recordo,  vejo em minhas retinas tudo brilhar. 
    Por fim, mesmo nos tempos de vacas magras, havia sempre o ritual de comprar uma roupa nova para o Natal e outra para o Ano Novo, e na semana das festas ganhávamos dois tostões para a gente se divertir no parque com os amigos. 
     Feliz 2024.

      Abraço,  Marconi Urquiza. 
     
      

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Espírito suave, coração bondoso, pessoa do bem

 

                        

                                           Tio Pedro, mamãe e Tio Zé Maria

        Na infância, entre os dois ou três anos até à adolescência convivi, passei todas as férias escolares no Barro, convivendo com os tios, primas, primos, o avô, os animais, andando no mato, chupando caju, comendo cuscuz com o leito ordenhado das vacas de Tio Serafim, vendo Tio Agenor ou Tio Genor, como o chamávamos, fumando seu cigarro de palha, conversar com a voz grossa, tomando o café forte, tomando conta da Mãe Centina, a minha avó Vicentina. E Tia Lídia, com a sua energia inesgotável, parecia feita de eletricidade, parecia não cansar.  Ainda a viva aos 98 anos.

        Menino de rua, me cansava em caminhar os dois quilometros do sítio Barro de Souza até a sede da cidade, que tinha o nome original de Barro e rebatizada de Saloá quando se emancipou em 1965. Nessa fraqueza física, subia no carro de bois e ia para cidade abastecer a pequena vila de água potável no chafariz da cidade. Ia e vinha ouvindo aquela toada do carro de bois andando. O gemido da madeira contra madeira. A dupla de bois fortes, que parecia não se cansar, os achava gigantes, imensos no tamanho e na força. Uns gigantes ainda mais na impressão da minha alma de menino.

        Quantas vezes acordei na casa de Tio Serafim e de Tia Lidia e estava vazia, só  ela. O tio e os filhos já cuidavam das produções do sítio. Muitas vezes descia e ia ver o primo Jaime cortando palma forrageira para alimentar as vacas e as crias. Uma habilidade imensa, uma velocidade e cortes na palma que pareciam milimetrados.

        E o rio, que corria no oitão da casa de Mãe Centina, magro e raso, mas capaz de me fazer simular um nado tocando com as mãos no fundo arenoso.  Gostava muito dessa brincadeira. Me divertia demais.

        Eram quatro irmãos e três irmãs. Tios Serafim, Tio Genor, Tio Zé Maria, Tio Pedro, Tia Iraci, Tia Jacira e mamãe. Só ela ainda vive.

        Com as irmãs de mamãe convivi pouco, os tios foi muito mais. Com Tio Serafim, Tio Genor e Tio Pedro. Tio Pedro foi para a casa do pai, faltando três para completar 91 anos e 68 anos de casamento. Estava no velório e comecei a recordar os dias que passava na sua casa, antes de ir para o sítio, das vezes que conversei com ele, de o observar conversando no seu negócio, de vê-lo conversando com as pessoas. Parecia ser uma pessoa dotado de paz de espírito. Um ser tranquilo que irradiava a sua bondade por todo lado.

        Tio Serafim também era calmo, uma pessoa que raramente vi se irritar, só uma vez que bateu no primo Jaime com a bainha de couro da faca, após ele responder ao tio meio abusado. Tio Genor, era mais alto que os irmãos, me impressiona que jeito vivaz e ao mesmo tempo sereno como os outros, igual perfil de Tio Zé Maria, parecia ter uma calma do outro mundo. Também irradiava uma energia boa, benfazeja.

        Hoje, hoje, sinto que pareciam que viviam em paz consigo mesmo.

        Aquele menino de ia ansioso tirar as suas férias escolares, no meio do ano e em janeiro, dezembro, muitas vezes, só voltando para o Natal e o Ano Novo, pois papai fazia questão que estivéssemos todos juntos. 

        A lembrança de muita coisa ia e vinha naquela hora que fiquei no velório, ainda com pouca gente, era o Pedro de Jaime, um homem de bem e bom homem, consciente, sem afetação.

        Nem sei como terminar esta crônica, talvez a melhor palavra seja: saudade.


        Abração, Marconi.

        

        

        

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Merece - um trabalho eterno

 


https://exame.com/bussola/a-mulher-e-a-invisibilidade-do-trabalho-eterno/


        O nome dela não é Merece, muito menos o sufoco de sua vida de 90 anos. 

        Soube que ela chegou naquela família com 15 anos. Os pais tinham falecido e ela já havia sido rejeitada por outra casa.

        Ali, foi como se fosse a última chance de um teto e alimento, antes de virar uma mulher da vida. 

        Teve essa última chance e pode se dizer que  sua vida perdeu todo resquício de vida própria. Não teve forças para reagir.

        Cozinhar,  passar,  arrumar  casa e ainda servir de dama de companhia.  Uma vida absolutamente dedicada à sua senhoria. Outra mulher.

        A conhecemos com 75 anos. Andava cansada,  com a vista ruim e o máximo de sua parca liberdade era fazer compras para a casa no Supermercado Bompreço perto do nosso prédio. 

        Certa vez comentei com a esposa que achava a caminhada de Merece um abuso. Hoje, após saber que as idas dela ao Bompreço era um dos poucos momentos de felicidade daquela mulher, que foi impedida de formar uma família. 

        Aquele passo lento, apesar da idade, era muito mais pelo pesar de voltar para uma casa onde a opressão a massacrava.

        Aí um dia minha esposa ouviu um pedido angustiado de Merece diante de mais uma humilhação: Meu Deus me leve embora daqui!

        Deus não levou, e ela viveu mais três anos proibidas de até ver tevê quando desejava. Às vezes se refugia ouvindo o rádio em som bem baixo para não incomodar à sua senhoria.

        Antes que o senso comum leve a imaginar a cor da pele.  Merece era branca e de olhos verdes. 

        Merece viveu uma vida sem amor.

        E morreu sem amor.

        Sem amor.

        
        Bem, por hora, é só.  Marconi Urquiza. 

domingo, 29 de outubro de 2023

Mãe esgotada

        


        Na última sexta-feira,  por volta das 17:30h, cheguei ao prédio onde o filho Raphael mora, passei pela saguão e sua ampla sala de espera. Dois sofás grandes em L, duas poltronas azuis e três poltronas cinzas, giratórias. 

        Passei direto, indiferente, como se passa por paisagens que se conhece.  Chamei o elevador ao térreo e fiquei olhando o visor por onde ele ia passando. Tudo muito comum nas minhas passagens por aquele ambiente, comum até demais. 

        Aí ouvi vozes, estiquei o pescoço vi duas crianças fazendo piruetas em uma das poltronas cinza.  Eles se penduravam e com os pés impulsionaram o giro, tudo acompanhando pela algaravia das crianças saudáveis. 

       Voltei a olhar o visor do elevador, aguardando ele chegar, pois descia do 26° andar, só que meu olhar captou uma quietude no meio da agitação das crianças. 

        Uma visão periférica que em geral não se dá importância. Digamos,  era uma quietude anormal para a animação das crianças com suas vozes altas enquanto brincavam.

        Desta vez à atenção era plena. A mãe estava sentada em outra poltrona, com as pernas em ângulo reto, o tronco derreado para trás e a cabeça encostada no alto do encosto, caída para trás,  com a boca levemente aberta.  Ela simplesmente tinha se desligado do que se passava.  Para mim aquela mãe estava esgotada. Um cansaço acima de suas forças fez ela apagar naqueles poucos minutos em que a observei. 

        Quando passei por aquele saguão de volta, após 10 minutos, ela e os filhos não estavam mais.

        Fui embora e não pensei mais no assunto,  até ouvir um comentário de uma das noras, ao dizer que naquela semana ela estava mais cansada por cuidar sozinha do filho, vez que Victor passou a semana trabalhando em outra cidade. 

        Aí eu viajei no tempo, lembrando do esforço de Cida para cuidar de 3 crianças serelepes, enquanto eu estava trabalhando, ou viajando a trabalho e da estratégia dela de fingir que dormia nos finais de semana para eu cuidar dos meninos, então com com 7, 4 e 1 ano.

        Confesso que me solidarizei com aquela mãe esgotada, que nada ouvia, via, sentia naquele cochilo de poucos minutos.

        Por dizer, por acompanhar uma mãe tanto tempo, que é um desafio brabo o trabalho full time de ser mãe. .

        Viva as mães!

        Por hora é só, ótimo final de semana.


        Abração, Marconi Urquiza

        




quinta-feira, 19 de outubro de 2023

O caramelo andarilho

Fez exatamente uma semana.

O nosso caramelo é branco retinto, pelos cedosos, focinho preto e olhos tão escuros que não se consegue ver a pupila. É calmo, mas late demais a qualquer ruído forte e quando um de nós chega em casa. Quer atenção.

De um tempo para cá todo cão marrom virou caramelo,  mas antes o dono de um apelidou seu travesso animal de Caramelo, o vídeo viralizou e o nome ganhou adeptos Brasil afora. 

Ontem vi vídeo de um animal quase todo preto, com as patas marrom. Mais um cão divertido, apresentado como caramelo, aí lembrei da minha história com um caramelo. 

Fez exatamente uma semana.

Saí de casa, mirei para o caminho de João Pessoa,  Avenida Rosa e Silva ficou para trás e entrei na Estrada do Arraial. Ia devagar. Quando as manhãs estão frescas me encanta dirigir com os vidros abertos para sentir o vento acariciando meu rosto.

No sinal da Estrada do Arraial com a rua da Harmonia o trânsito parou.  Um minuto, minuto e meio. Parado na faixa da esquerda, vizinho à faixa de ciclista, olhava para o lado, esperando a de vez de seguir viagem, aí apareceu o caramelo. 

Ele caminhava faceiro, cheio de confiança,  passou pelo cruzamento vazio e veio em minha direção. Andava com um rebolado, uma passada,  com jeito e expressão dos seres felizes. 

Veio se aproximando,  passou ao meu lado, naquela pisadinha ritmada dos bons dançarinos e seguiu na direção do Sítio da Trindade, parque urbano que existe nas imediações. 

Segurei o carro o quanto pude, pois o acompanhava pelo retrovisor. Em poucos segundos o perderia de vista.

O que veio depois foi imaginação.  Ele era um cachorro com os pelos viçosos, estava com o peso normal, não tinha no olhar nenhum traço de medo.

Então Caramelo seguiu pela faixa de ciclista, passou por corredores de rua, uma bicicleta veio em sua direção,  ele deu um drible.  O seu rebolado seguia encantando.  Passou pela esquina do Consulado da China e parou 100 metros adiante em uma rua que só dá passagem para pedestre. Encostou-se em uma árvore gigante, deu uma coçada no dorso,  depois ergueu a perna e batizou o tronco daquela árvore. 

Ficou um tempo por ali parado. Levantou a cabeça e pareceu medir a réstia do Sol. Ficou uns minutos olhando o filete de luz se alongar até um meio da rua, então balançou o rabo e saiu rebolando, imaginando como iria se explicar tá chegando tão cedo, ou tão tarde,  vez que não dormiu em casa na noite passada.

Então de fininho e com carinho começou a arranhar a porta da casa, que foi sendo aberta e uma voz carinhosa foi dizendo: Caramelo, nem dormi direito preocupada com você.  Venha garoto, sua comidinha eu já coloquei. 

Caramelo entrou,  passou se arrastando na perna de sua dona, tocou com o focinho frio na mão dela, lambeu a sua pele, deu dois grunhidos de gratidão e foi comer.  Cinco minutos depois dormia com as patas para cima sobre um sofá que lhe servia de cama.

Bem, acolha com carinho quem lhe procurar. 

Por hoje é só. Abração. 

Marconi Urquiza 

domingo, 24 de setembro de 2023

Domingo

        


        Domingo,  não sei há quanto tempo acordo cedo, tipo cinco da manhã.  Tomo o primeiro remédio do dia, fervo a água e faço uma xícara de café. 

        Um café  quente que tomo muito devagar.  Na maioria das vezes, enquanto água aquece eu vou na área de serviço escorar o peito na parede e ficar olhando a rua, as piscinas do Náutico e as pessoas, as poucas,  andando para seus destinos.

        Daqui a pouco,  a chaleira apita, é hora do café.  Comer só após meia-hora. Recomendação da bula do medicamento. 

        Também não sei quando começou.  Aproveito o silêncio para ler, aproveito o silêncio para escrever. Parece que meu espírito se ligar nas ideias que voam soltas pelo universo e puxa uma para fazer um texto,  só que muitas vezes elas estão tão agoniadas para trazerem as suas palavras que entram nos textos aos bobotões. É um atropelo.  Pior que eu topo essa peleja.

        O pior do Domingo é que as vezes é um dia de tédio.  Muitas vezes sinto esse tédio como um vazio e que aumenta quando nenhuma ideia vem me socorrer, quando não me ocupo, quando a leitura que faço é fraca, quando o jogo de futebol é ruim ou simplesmente por que me espírito está muito inquieto para achar algo que acalme.

        Até o meio dia, até a hora do almoço há um certo calor na alma, quase sempre tomo três latinhas de cervejas leve, depois da refeição quase sempre durmo. 

        Dormir à tarde é saboroso. É como se fosse um alimento daqueles feitos com "tempero caseiro". 

        Já ouvi diversas vezes que o melhor tempero é a fome, é não.  A fome com o melhor tempero deixa a comida leve, a fome com uma comida sem gosto entra pelo desespero que a fome causa.

        É assim, Domingo é rico ou pobre, enfadonho ou animado. Quase sempre busco um filme e acabo o dia vendo o Fantástico. 

        Por hora é só.  Ótima sexta e feliz semana. 

        Marconi Urquiza. 

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Quem avisa...tem amizadis

                             

        Gaudêncio, Hélio,
        Mocó,
        Bode, Milton,
        Bacurau...
        Na véspera do grande
        encontro
        Com estilo de sarau
        Nos bares de 
        Afogados
        Quantos casos
        relembrados...
        Pinga e cerveja no
        grau.
                    Do Poeta Ademar Ferreira Rafael

    Amiga leitora, amigo leitor,  agora você vai passear por 390 quilômetros de memória, em uma viagem física,  no tempo e no afeto.

     No dia 01 de fevereiro de 2020 foi realizado um grande encontro dos ex-funcionários do Banco do Brasil de Afogados da Ingazeira, naquela querida cidade.

    Nas minhas contas eram 26 anos sem ir à cidade, a última vez em 1994. Nem posso falar da lindeza que a cidade havia sido transformada.

    Como motorista que tenta decorar cada curva do caminho, não tenha dúvida, tentei advinhar os buracos de mais de 30 anos antes. Não é que achei alguns!  Achei, ixe! Quando nós (Eu e Cida) viramos em Cruzeiro do Nordeste ou Placas, indo à direita na direção de Sertânia, comecei a ver antigos e novos buracos no asfalto que parecia se esfarelar.

    Pegamos uma parte da rodovia estadual em Sertânia no sentido de Custódia e ela parecia um tapete,  saímos dela e pegamos uma rodovia federal com os buracos antigos, mas o que esse trecho tinha de especial foram duas recordações. 

    Já havia anoitecido no sábado de 09 de janeiro de 1982 e me sentia perdido quando passava no povoado de Albuquerque Né, vindo de Recife.  Naquele início de noite eu dirigia devagar com o Chevette branco, 1978, olhei para o lado direito e vi uma bodega. Parei e desci para perguntar como iria para Afogados da Ingazeira, para tentar disfarçar meu constrangimento pedi uma Coca Cola. Corri com olhar as prateleiras em busca de algum biscoito. Nada tinha, quer dizer: tinha muita cachaça e cerveja.
 
    No último copo perguntei como chegaria em Afogados.  Recebi a orientação e saí guiando como se tivesse andando de salto alto.

     Uns 10 minutos depois achei a estrada para o meu destino de mais de 5 anos.

     Naquela volta em 2020 essa lembrança veio forte, com olhar ávido tentei achar a casa onde funcionou a bodega. Não a reconheci, andamos mais um quilômetro e vi o campo de futebol. Nesse ano parecia estar abandonado. 

     Encostei o carro na beira da estrada e fiquei olhando-o, também olhei para dentro e a lembrança me levou a vê-lo em um domingo à tarde, um domingo qualquer na década de 1980. Nesse dia a gente voltava de Bom Conselho, no campo corria solta uma partida de futebol.

     Um time atacava para o norte e outro para sul. O time que atacava para o norte, fez uma jogada pelo lado esquerdo e  a bola foi cruzada para dentro da área e um jogador que corria da direita para o centro dela acertou o gol de primeira. Nem vi direito a comemoração,  dei partida no carro e me concentrei nos 48 km que restavam até Afogados da Ingazeira.

     Naquele entardecer de 2020, sexta-feira, após dar uma volta em Afogados vi três colegas aposentados tomando cerveja. Parei o carro e fui até eles.  

    Izac, Bode, Joãozinho Mocó e Bacurau já haviam vertido várias garrafas. Com gosto pela cerveja, me encostei e comecei a também verter. Não é que de repente recebi o aviso fatal. Não sei se mensagem ou um telefonema.

    Eis a mensagem crucial:
       "Marconi eu conheço essa turma,  você não vai aguentar beber com eles".

     Foi o amigo Alberto Belo encarecidamente me avisando.  Quem avisa amigo é. Dei uma desculpa, já meio tungado e fui para o hotel. 

    A questão é que nesta semana recebi do amigo Negri a imagem de abertura desta crônica. Pois bem,  naquele 31.01.2020, segui duplamente à risca o mandamento de Mussum, primeiro para beber, depois para não ter uma ressaca braba. 

    Então! Foi tudo pela Amizadis.


    Por hora é só, ótimo final de semana.

        Marconi Urquiza

Buscando escrever

     Por excesso de temas acabei por não escrever a crônica como faço no domingo. Aí fui buscar uma que estivesse pronta,  vi  vários rascunhos.  Outro tanto de versões de crônicas divulgadas. 
     Achei uma que trazia o conceito de Esperançar de Paulo Freire. Parece que estamos vivendo esse conceito que é uma ação ativa e não passiva. Onde as palavras positivas estão fazendo eco depois que a maldade parecia tomar conta de tudo.
     Achei outra que tem uma linda rosa vermelha como imagem de abertura, inspirada no lindo conto de Clarice Lispector, Clarice menina que entrou nos jardins de uma casa de um rico em Recife e furtou uma rosa.
     Vi outro rascunho, e está vívido em mim a fotografia do rosto travesso e sorridente do multi artista da escrita Antônio Maria, um notório boêmio e que colhia suas crônicas diárias andando pelas ruas de Copacabana. Como ele viu aquela Mulher Nua Na Janela? Prosaica. 
     Lembrei-me da minha própria crônica em que tentava descrever um gol que fiz quase do meio campo e falhei. Falhei no que deveria descrever, que não era físico, não era a mecânica do chute, o efeito do vento que mudou a trajetória da bola. O que deveria trazer foi a alegria imensa de ter consigo realizar um sonho juvenil de fazer um gol de tão longe. Era sobre sentimentos.
     Aí esta semana me ocorreu de lembrar de um Baile do Governador no Rotary, cuja atração principal era o cantor Adilson Ramos. Quase 15 anos se passaram e o que presenciei causa-me estranheza pela alegria e espontaneidade das senhoras ao ouvir os primeiros acordes do maior sucesso do cantor. 
     Se moveram e foram para frente do palco cantar e dançar com o artista as lembranças de suas juventudes. Para resumir aquilo tudo só em uma palavra: Fantástico. 

     Por hoje é só.  Abração. 

      Marconi Urquiza. 

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

O Rato

            
https://www.nationalgeographicbrasil.com/animais/2020/04/isolamento-social-ratos-lixo-esgoto-esconderijo-alimento-pandemia-coronavirus-covid

        Até ontem estava sem ideia sobre o que escrever. Puxava um assunto, outro,  um livro, parte de um livro, um filme, um artigo, os cortes de vídeos da psiquiatra e escritora Ana Beatriz (Mentes Perigosas) e nada deu liga.
         Fiquei a mutatar, paquerando a desistência de escrever a crônica desta semana. 

         Como se sabe, como diz o ditado popular: Quem procura, ...

         Mas é preciso que certas ideias sejam pegas pelo laço, o cabra precisa estar atento para notar que uma é capaz de sair do terreno vago para formar um texto, uma mensagem. 
         Bem, depois dessa conversa mole vamos ao calo, ou caso, ou a uma conversa inviesada. 
         Tempos atrás comecei a ler um romance, daqueles que tem bandido, tem policial, tem crime, tem rico que sacaneia,  tem pobre que se lasca, tem político que se mete na investigação,  tem delegado que junta a imprensa para fazer espetáculo,  tem preso que não é bandido, tem policial que faz tudo para aparecer e "cumpre seu dever" para o dono do poder e abusa do poder fácil e some no meio da burocracia estatal.
          Aí aparece um cara que o leitor não dar conta. Quer dizer, o vê, mas não o percebe no emaranhado de gente, de cenas e de circunstâncias e ele vai passando incógnito no meio da turba e dos tiros. 
          É tão dissimulado que o leitor fica caçando em sua mente o que ele está fazendo no livro. 
         Tão ardiloso quanto um crocodilo que sai da água com rapidez e surpreende sua presa.
         No caso do personagem por ser tão premeditado, mas TÃO PREMEDITADO, que morde com força e some nas sombras, quase um ostracismo, deixando rastros quase inexistentes. 

         Aí ontem pela manhã fui conversar com um advogado para defender a empresa em uma Reclamatória Trabalhista, a estreia da empresa nesse ponto da vida empresarial.
         Levei o caso e voltei refletindo,  na verdade, a continuação da reflexão que venho fazendo desde que li a petição inicial.
         Li cada ponto reclamado, de início foi apenas a tomada de consciência do que se tratava.
         Aí, ainda ontem, após coletar os documentos para a defesa, comecei a viajar nas conversas com o Reclamante dos últimos dez meses. 

         Pouco a pouco as moedas foram sendo colocadas no Caça Níquel.

         Telefone corporativo, comprado e ainda assim reclamado.
         Insalubridade,  questionada e reclamada pelo ruído e não pelo risco biológico ou químico que tantas vezes comentou. 
         Horas extras,  quase todo o tempo trabalhava menos de 8 horas. As poucas horas extras realizadas foram pagas. Os intervalos respeitados.
         Dano moral.  Como provocou para configurar um dano real.  Até Síndrome de Bournout falou, mas desta não reclamou.
         LER, como repetiu.  10 meses é pouco tempo para uma LER. Falava das mãos e colocou a lombar.

         E como dominou o discurso,  as atenções e as minhas preocupações ao longo dos meses. Um verdadeiro estrategista. 
         Bem,  aí fui aos poucos juntando queixas, cobranças que pareciam aleatórias, peças de um quebra-cabeça com várias ações planejadas para ter elementos para a reclamação judicial.

         Há em mim a convicção que tudo foi premeditado,  cada passo, cada frase, cada teste à minha personalidade,  cada experimento aos meus limites. Tudo premeditado, tudo.
         E como um Rato ele emergiu gigante nos últimos meses de trabalho na empresa, provocando constrangimento com as clientes,  reclamações pelo atendimento e por serviços ruins.
         Foi tudo como um jogo, na base do prejuízo emocional e financeiro descobri que como micro empresário que  não há espaço para ser bonzinho,  não pode ser injusto,  mas não pode bonzinho e ainda, tem que ser precavido como um bom enxadrista a projetar uma partida, se armando na proteção da empresa e de si mesmo.

         Em resumo, não há espaço para amadorismo de qualquer espécie. 

         Por hora é  só. 

        Abraço,  Marconi Urquiza. 
      

      "Ficou curioso sobre o livro?" 
           "Gosta de quebrar a cabeça para saber antes do fim quem é o                    bandido?"

        Escreva nos comentários do blog, passo o título do romance.



     

sábado, 26 de agosto de 2023

Guerreiros do Sol e minha ignorância

        

        
       Não foi por causa da série Cangaço Novo, bem que ela veio me ajudar a escrever esta crônica.

        Após três semanas do início da leitura do livro Guerreiros do Sol - violência e banditismo no Nordeste do Brasil,  conclui a sua leitura no último sábado (26.08.23).

        Algumas reflexões são importantes para mim. 

        Tudo que sabia sobre o cangaço era superficial. Nada conhecia sobre a índole e cultura do sertanejo. Da sua cultura consolidada por séculos de isolamento. 

        Sou do Agreste Pernambucano e achava que os homens de minha terra eram muito suscetíveis a serem violentos. Umas das características do sertanejo ancestral segundo o livro. 

        Esta suscetibilidade impactou direto no meu comportamento,  enquanto gerente do Banco do Brasil, que após 15 anos fora de Pernambuco fui trabalhar em 2003 em Surubim (PE). Como se diz no popular: eu era cheio de dedos para dizer alguma coisa aos clientes.  No exagero, quase isso, eu pensava 200 vezes antes de falar uma frase mais dura.

        Então, voltando ao livro, há nele até uma tipologia para o cangaço, o autor explica que havia três tipos de cangaço. O Cangaço meio-de-vida. Como profissão.  O Cangaço-vingança.  O uso de cangaço para vingar-se de um mal que sofreu e o Cangaço-refúgio. Quando o cangaceiro procura uma proteção contra algum inimigo ou da perseguição da polícia, por exemplo.

        Para mim tudo se resumia a três nomes: Lampião, Antônio Silvino e Jesuíno Brilhante. No entanto, o cangaço (banditismo) foi amplo, endêmico,  como informa o autor.

        Uma coisa que me chamou a atenção, entre tantos detalhes, foi o aspecto cultural que envolvia o cangaceiro, um ser cheio de liberdade em uma busca por uma vida de muita aventura, no caso do Cangaço meio-de-vida. Inclusive com a população do sertão os admirando e apoiando contra as volantes que os combatiam. Além de tudo havia uma rede de proteção de poderosos fazendeiros, políticos e comerciantes.

        Um outro ponto da minha ignorância é que parte da minha história de vida se passou pela ribeira do rio Pajeú.  Vivi em Afogados da Ingazeira entre 1982 e 1987. Nesse período poucas vezes se falou em cangaceiros,  ouvi a informação que Antônio Silvino nasceu na cidade, apenas isso,  de resto não era uma assunto que se conversava naqueles anos. 

        No período, se a memória não falha, a cidade parecia mais calma que minha cidade natal, que tinha frequentes episódios de violência entre seus habitantes. Surras e assasinatos eram comuns.

        O fato é que passei batido pelo assunto e só tive a curiosidade despertada quando ganhei de presente o livro Estrela de Couro - a Estética do Cangaço, do mesmo autor. Frederico Pernambucano de Mello. Lindo livro.

        Ao ler Guerreiros do Sol até o final, entre os pontos que desconhecia, um me chamou muito à atenção. A análise e minha interpretação que Lampião foi deixando de ser o guerrilheiro de sempre e foi se aquietando, não querendo mais confrontos, como se o amor por Maria Bonita o houvesse amançado. Além do que, a sua vida de bandido nômade estava cobrando alto para os seus quase 40 anos de idade. Interpretei como se estes fatores tivessem contribuído para ser achado e morto.

        Mas no livro há muito mais, é preciso ler com paciência e ir apreciando as informações que ao longo dele vão chegando. Esta é uma parte da história  do Nordeste que só tomei completo conhecimento agora, antes tudo eram apenas fragmentos que não me davam compreensão desta realidade que assolou o nordeste, em um banditismo rural medonho.

        De certo modo esse fenômeno é revivido sobre a alcunha de Novo Cangaço, quando bandidos do nosso tempo atacam os bancos pelo interior do Nordeste, do Sudeste também. 

        Em resumo: Vale a pena ler o livro, pois se terá a compreensão do complexo fenômeno do cangaço e dos fatores multifacetados da sua origem e sustentação durante tanto tempo.

        Por hora é só. 

        Abraço, Marconi Urquiza. 


quinta-feira, 24 de agosto de 2023

O jogador reclamão



    Nesta quarta-feira encontrei-me com Euler, presidente da AABB Recife, e perguntei sobre o técnico das equipes de futebol society, de veteranos, que irão jogar em novembro em São Luís (MA).

    Naquela conversa curta fiz menção de um técnico que nos acompanhou e gritava em excesso. Seu nervosismo contagiava para ruim todo o time.  Disse que não chamasse mais ele.

    Aquele papo se encerrou em poucos minutos e segui para o campo a fim de olhar as peladas. 

    Quando foi ontem lembrei da minha verve de gritão, reclamão. Um chato. 

    Entre 1983 e 1984 eu vivia uma fase de grande preparo físico e isto me ajudava a ser um bom marcador.  Um zagueiro de grande vigor físico, no sentido de marcar bem e não na violência. Na fase eu era um ótimo marcador e um péssimo "batedor".

    Em certo momento nas peladas eu comecei a gritar.  Passava meia hora gritando,  como se quisesse animar o time.

    Era o que eu desejava, mas o resultado era os colegas de pelada se chateando.

    Fiquei meses nessa ladainha. Um dia jogava no gol e perdíamos por 2x0, em certo momento pedi para trocar de posição e fui para a linha.  Ainda ensaiei umas reclamações (estímulos para mim) e senti algo estranho.  Não se explicar,  sei que me calei. 

    Calado corri como sempre corria naquele fase da vida e o time, penso, com base no silêncio, sem gritos, começou a reagir.  De 2x0 viramos para 3x2 em 30 minutos de pelada.

    Futebol tem uma coisa riquíssima.  Um talento individual faz um time ganhar muitos jogos, mas é o time que ganha campeonato. 

    Dali para frente comecei a ser mais silencioso, algumas vezes chamo a atenção de forma objetiva por alguma falha, tentando não me achar superior e nem denegrindo a autoestima do colega de time. 

    As vezes vejo peladeiros do mesmo time discutindo entre si, aí, quase sempre penso: Para que esse estresse?

    Para que esse estresse? Repito a pergunta, se os peladeiros veteranos vão, na maioria, por lazer e para manter a forma.

    Por hora, é só.  Ótimo final de semana. 

    Abraço, Marconi Urquiza 

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

O Luto, O vazio

        
https://vocerh.abril.com.br/coluna/diana-gabanyi/quatro-formas-de-praticar-a-empatia-no-ambiente-de-trabalho

        Na última segunda-feira estive no velório do primo Bastinho, passei parte do tempo ali observando a esposa e os seus três filhos.

        Tentei entender a tristeza que sentiam, a angústia que os acompanhou com o agravamento da doença e com o sofrimento que ela causou a ele.

        De vez em quando, a esposa, um dos filhos ou os irmãos, sobrinhos levava a mão aos olhos e secava uma lágrima. 

        Depois de mais de hora, quando as orações terminaram tive coragem de me aproximar deles e ver Bastinho no caixão.  Os cumprimentei e apresentei os sentimentos. Sempre tenho enorme dificuldade nestas horas. Ao conseguir fazer, senti-me mais tranquilo  

        Ao me afastar da sala de velório senti uma leveza no ambiente.  A tristeza era serena, sem revoltas, compassiva.

        Já com algumas horas de velório chegou um amigo de Bastinho,  quando ele foi entrando no velório eu senti seu rosto mudando e o choro chegando,  ele o segurou, entrou na sala e saiu rapidamente. Se juntou à irmã,  que enviuvou há poucos meses.

        O luto estava estampado nas expressões serenas dela, até quis conversar com ela, mas achei inconveniente.

        Passado algum tempo o velório foi se aproximando da despedida final,  os filhos lhe beijaram a testa, tocaram em uma das mãos de Bastinho e despedida final foi curta, apenas alguns metros o cortejo levou o corpo até o carro que seguiu para o crematório, bem próximo de onde estávamos. 

        Logo depois eu e Cida nos despedimos e voltamos para casa. No entanto, nos últimos dois dias tenho refletido sobre o luto e do vazio que as pessoas próximas a Bastinho sentirão. 

        Essa sensação de vazio não existe mais conosco quando nosso pai morreu em 1982, mas foi muito forte, muito forte,  quando fomos jantar na noite após o sepultamento. 

        Até pensei em dizer aos filhos dele, homens adultos e com suas famílias, como se passou conosco, como o luto faz parte da vida e como a saudade do que não foi feito irá os acompanhar algum tempo.

        Mas me falta proximidade,  assuntos assim, para falar deles tem que haver permissão e necessário algum grau de amizade.

        Não tenho, só tenho o sentimento e o coração aberto, para se houver oportunidade.

        Por hora, é só. 

        Abraço, Marconi Urquiza 

sábado, 5 de agosto de 2023

"Deus proteja de mim" *

Estava no restaurante de um hotel em João Pessoa quando li três frases de artistas paraibanos. Uma do personagem Chicó, de Ariano Suassuna, outra do cantor Chico César e a terceira que reconheci a frase, mas não lembrei do nome do autor.

A frase de Chico  César "Deus  me proteja de mim e da maldade de gente boa". Li, reli, lá pela quarta vez que prestava atenção na frase de Chico César um redemoinho tirou do arquivo escondido da memória lembranças arquivadas, recente e de mais tempo.

Meu pai tinha uma frase, que hoje posso sintetizar como agir com Boa Fé,  mas ele nunca falou este termo, em muitos momentos ele se expressou assim: "Ser honesto de principio". Para mim 100% ambígua,  não fora o convívio e suas atitudes jamais chegaria a esta conclusão.

Sempre achei ela de difícil interpretação, o fato é que ele nos criou sob um rigoroso principio de ser Honesto,  sem nenhuma margem para não ser assim.

Quando estava concluindo a faculdade de Direito fiz o trabalho de conclusão de curso no Direito do Consumidor e neste ramo a Boa Fé é princípio fundamental nas relações de consumo.

Pesquisando para este trabalho achei um livro que estudava a Boa Fé no Direito Civil e o autor dizia que a Boa Fé não depende de circunstância ou da vontade de alguém, a Boa Fé é objetiva.  Em resumo: As partes devem agir por lei com Boa Fé.  

É uma questão que me interessou tanto que inclui um capítulo no trabalho ligando esta Boa Fé com a Boa Fé do Direito do Consumidor. 

Na vida mundana o que mais se ver é a Má Fé, empresas e pessoas que não dizem tudo que pode afetar a decisão do consumidor,  que prometem o que não pode cumprir,  que fazem puxadinhos nos preços,  não informam defeitos e se aproveitam do dogmatismo da Justiça para se livrarem de suas más intenções  

E quando a Má fé se reveste de um sorriso aberto, de olhos que brilham, enquanto nos perscrutam para identificar nossas fraquezas, fica difícil para um espírito de boa fé identificar. 

Em tempos recentes eu convivi com alguém que me deu nós cegos,  parecia que eu estava sempre dez passos atrás ao identificar uma maldade,  essa pessoa já tinha 10 outras sacanagens para por em prática. Era como se tivesse um arsenal de maldades.

Era como um estrategista a enganar um general em campo de batalha com ações que desviavam o foco, enquanto os suas tropas ia pelo flanco mais fraco do outro general.

Com minha fé imperdenida que aquilo era temporário eu tomava tombo em cima de tombo, imaginando que tudo aquilo fosse passar e não ocorria, eu convivia com um ser maldoso, até que usei o silêncio para não sinalizar o meu pensamento. 

Sabe que Chico César tem razão:
"Deus me proteja de mim
 E da maldade de gente boa
 Da bondade de pessoa ruim
 Deus me governe e guarde
 Ilumine e zele assim"

Apesar dos tombos, continuo tendo a Boa Fé como um princípio para minhas atitudes todos os dias.

Por hora, é só.  Na Boa.

Abração,  Marconi Urquiza. 

PS:
(*) O título da crônica retirado na canção Deus me Proteja, de Chico César.

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Enigma de uma vida

 

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       Sabe um desejo de uma explicação, até mais que isso, da descoberta de um enigma que está aí na vida, na minha. Certa vez, adolescente,  caminhando para ser um adulto jovem comecei a prestar atenção na intrigas que pareciam ser fruto das posições políticas locais antagônicas. Via apenas por este ponto de vista.

        Nesta época observava os arranca-rabos da política da minha cidade natal, o que também ocorria em muitas cidades circunvizinhas. Havia um padrão. Após muito refletir e observar, acreditei que fosse ódio. Um ódio enraizado, uma raiva entranhada. 

       Desde esse tempo procurava entender esta situação, só não sabia por onde procurar, de onde provinha esta raiz.

        O comportamento flutuava, para mais raiva a menos raiva fora das eleições. Fora das eleições, naqueles anos de minha estranheza, muitos contendores até pareciam amigos, quando a rinha da eleição era colocada no meio da praça, a raiva voltava com toda a sua insanidade.

        Passei anos refletindo sobre muitos acontecimentos, muitos diálogos e casos que chegaram até a mim, das leituras que fiz, especialmente do fenômeno do coronelismo nordestino e até dos barões do café no Sudeste.

        Até que esta inquietude foi aos poucos se transformando na busca incessante por uma resposta, mas ela não vinha completa, eram fragmentos de compreensão que aportavam na minha mente, mas não explicava a razão fundamental daquela raiva entranhada.

        Para mim uma liderança forte, com sabedoria, pode provocar mudanças comportamentais em muitos homens, mas hoje vejo que é uma parte da realidade, até esse líder (o coronel José Abílio d`Ávila Albuquerque) foi influenciado por uma cultura em que a mediação de conflitos que não passava apenas por uma vingança ou em impingir no desafeto a força da sangria.

        Como resposta para mim mesmo, escrevi em livro de ficção, nele contei a minha percepção a partir do estudo da biografia do coronel José Abílio e também me baseando em conflitos reais. Tem muito daquela história não escrita, colhida como nos ancestrais que não sabiam escrever, tudo oral. 

        A partir de um narrador, esta realidade foi sendo mostrada nas páginas do livro. Misturando realidade e ficção, fazendo amálgama que aos poucos foi me dando convicção que havia encontrado o conforto para minha inquietude.  Tanto que parei de pensar a respeito.

        Feito isso relaxei, a minha versão de uma parte da história de Bom Conselho estava explicada, ponto final.

        Mas o que pensei que estava encerrado em mim, não foi bem assim!

        Há anos que queria ler um livro e ele estava esgotado, quando pesquisei na internet, seu preço estava exorbitante, abandonei a busca e fiz uma em alguma biblioteca, mas não achei o livro. Meses atrás ele foi relançado, por circunstância adversas não pude ir ao lançamento, acabei esquecendo. Nesta semana ao passar próximo ao Museu do Estado em Recife, lembrei que a Editora CEPE tem nele uma livraria, e ela  havia lançado um nova edição daquele livro desejado, então fui até lá e comprei o livro.

        Horas depois comecei a ler, cheio de ansiedade quis pular a introdução para ir para as partes iniciais que estão relacionadas no sumário. Mas resisti e fui ler o prólogo do autor. Longo, por vezes me cansei, mas muito rico de informações.

       Ao continuar lendo Guerreiros do Sol - o banditismo no Nordeste do Brasil, de Frederico Pernambucano de Mello, fui me aproximando de uma perspectiva para aquele ódio entranhando que eu sentia em Bom Conselho da minha infância e juventude. Não procurava nenhuma resposta, pois para mim isto estava respondido nas páginas do romance O Último Café do Coronel. 

        Então pela curiosidade de conhecer o cangaço continuei a leitura, estava perto de terminar este início do livro quando li sobre uma parte sociológica, histórica e da formação da cultura dos homens do sertão. 

        De uma população que entrou para o sertão no início da colonização e descobriu que não podia voltar para o litoral por falta de recursos, que 100 anos depois deste início era uma população isolada, mantendo os costumes e valores medievais. Além disso, criando uma cultura própria para superar a escassez de recursos (água e alimentos, principalmente), que caracteriza aquele região, de resistir a uma economia destroçada a cada seca.

        Valores que induziam a resolver divergências com a violência. A macheza, o destemor, a valentia e principalmente a resolução de conflitos de forma peculiar, fora dos parâmetros legais. A Justiça lá, como conhecemos, não tinha seu espaço no sertão mais antigo, nele os ritos eram feitos pelos costumes apenas, desconectados do ambiente do leste, da área costeira. 

        Foi então que compreendi que aquela raiva entranhada em Bom Conselho e que se mostrava por inteira nas eleições era resquício do padrão de conduta da cultura do sertão ancestral e que para mim é ainda forte em alguns bolsões do sertão dos dias atuais.

        Não sei o que mais encontrarei no restante do livro, mas conhecer um pouco da história pode nos permitir compreender nuances que ficam em nossas mentes como nozinhos a serem desatados. Acho que destei um desses.

        Abraço, Marconi Urquiza

        

PS:

A linda capa da 1ª edição.


Link da CEPE Editora a 6ª edição atualizado do livro para quem pretender ler - Maiores de 60 anos tem desconto.

sexta-feira, 28 de julho de 2023

É mais que futebol, que jogar bem

             

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            Hoje acordei pela madrugada e de repente me lembrei de uma observação feita por um companheiro de pelada em 1995: "Como você é bom zagueiro!" Ela me deixou feliz no momento em que ouvi. Fazia muitos anos que não jogava de zagueiro nas peladas, minha paixão era jogar de lateral esquerdo, posição em que me sentia livre para atacar e tentar fazer uns golzinhos.

         Na década de 1980, de 1982 a 1985 eu jogava na AABB de Afogados da Ingazeira e eu em muitos momentos, por ter um preparo físico e uma capacidade de marcação excelente eu fui muitas vezes o primeiro jogador a ser chamado para uma das equipes que disputaria a pelada noturna. Isto de certo modo me deixou orgulhoso ao me recordar destes fatos, muitos anos depois. Um zagueiro como "craque" de um time. Menos, né, muito menos.

         Aí o tempo passou, já com mais de sessenta anos, sem jogar futebol regularmente, lá vou eu treinar para os jogos de aposentados do Banco do Brasil e um amigo, generoso, saiu com algo assim: "Olha ele, faz tempo que não joga e quando vem treinar joga muito". Qualquer coisa nesse sentido.

         Vou espalhar estas observações para outros pontos da vida. Muitas vezes nós não percebemos como seres com algum talento mais desenvolvido, muitas vezes, não é incomum, vivemos sob a influência de pessoas que dizem cotidianamente crenças limitantes, que terminam por minar, reduzir a nossa capacidade de perceber o que cada um tem de excepcional, minam a confiança própria que podemos ser mais, que em algum momento nos pareceu ser impossível ir adiante.

         Estes três momentos do futebol são para mim, no alvorecer dos 64 anos, um alerta e um despertar que em algum canto de nossa mente, de nosso coração, há um talento excepcional para ser mostrado, não pelos outros, mas por nós mesmos.

           Pois bem, por hora é só.


            Marconi Urquiza

sexta-feira, 14 de julho de 2023

Quem faz do sorriso ...

 

                  Ilustração criada por por mim na IA do Bing

        Hoje depois de acordar, após 10 minutos, veio este impulso de escrever, só com um pensamento. O tempo mudou, bem que cabe um pequeno poema, inacabado, haicai e aforismo de minha lavra:

Tantas vezes chegamos,

Tantas vezes precisarmos ir além,

Quantas vezes pulsamos,

Quantas vezes amargamos,

Quantas vezes desistimos, ...

            19.08.2000

Tantas vezes lutamos,

Quantas vezes vamos além...

            14.07.2023


SORRISO

Quem faz do sorriso

uma regra de vida

alumia sempre a sua alma.

            26/10.2000


Ser eterno enquanto dure, 

uma frase sábia, 

implica em ver os limites das coisas, 

da vida.

           Algum dia de 2003


VENDO DIFERENTE

Meu Deus! Que Dia!

Diga assim:

Meu Deus, que belo dia!

            26/10/2000



Abraço, Marconi Urquiza


Comentário: 

Os escritos de mais de 30 anos estão em um pequeno caderno (Have a Nice Millennium), em que, antes de dormir, durante algum tempo eu tentei escrever um poema por dia, depois vieram os Haicais, inspirado na poetisa paranaense Helena Kilody:

Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la.

terça-feira, 27 de junho de 2023

Estranhos fogos de São Pedro

        
    

       Hoje é u
ma pequena história que as festas juninas fizeram sair do sono das memórias adormecidas. Estava fazendo uma pesquisa sobre a origem das festas juninas quando um estalo me fez lembrar desse episódio.

     Eu tinha de 16 para 17 anos. Já sabia dirigir. Papai nesse tempo tinha dois veículos,  um Corcel I e uma Rural 1971, cujo apelido era Sofrida.  Ela tinha passado pelas mãos de um primo e quando papai a comprou estava muito maltratada.

        Papai era festeiro e eu um adolescente para lá de tímido, fugia das festas e só me entrosava fácil ao jogar futebol.

        Um dia papai colocou como meta, imagino, me estimular a participar das festas e do meio festeiro. 

        Na época em Águas Belas (PE) havia uma baile de São Pedro que atraia gente das cidades vizinhas. Sei que papai e mais alguns amigos fizeram uma caravana para ir nessa festa. Era meados dos anos 1970.

        Na véspera do São Pedro os homens adultos e casados foram para esse baile sem as esposas e fui junto, convidado por papai.

        Sabe, passei a noite sentado vendo papai e seus amigos dançando e bebendo. Só não beberam eu e os motoristas.

        No dia de São Pedro, amanhecendo o dia, a banda acabou o baile e papai saiu na Rural com o outro carro atrás, onde estavam seus amigos, acompanhando a Rural Sofrida.

        Tudo ia tranquilo, carro saindo da cidade devagar,  já distante do centro, bem pertinho da rodovia, papai resolveu ter a última comemoração daquele São Pedro.

        De surpresa ele abriu o porta luvas e pegou o revólver e deu vários tiros para o alto, em uma estranha comemoração de final de festa junina e; não sei foi o eco dos disparos, ou se foi a memória reproduzindo, mas eu ouvi mais disparos do que os feitos por pai, não sei se algum amigo no outro carro o imitou com esses estranhos de fogos de São Pedro.

        Abração, Marconi 

        



Existimos: A que será que se destina?

Viktor Frankl             Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...